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segunda-feira, janeiro 3

O olhar Invisível


Não sei o porquê de a maioria dos brasileiros gostar tanto de se rivalizar com os argentinos. Definitivamente, acho que devíamos procurar rivais mais à nossa altura. Não gosto do futebol argentino, considero os jogadores de lá um bando de catimbeiros sem esportividade, violentos e dissimulados. Mas em algumas áreas, reconheço, podemos nos deleitar com que os platinos têm produzido, como a música e o cinema.

No ano passado, o belo O Segredo dos Seus Olhos. dirigido por Juan Jose Campanella, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro merecidamente. Ele também dirigiu o elogiado O Filho da Noiva. É do diretor argentino Gaspar Noé o intrigante Irreversível e o também hermano Marcelo Piñeyro fez a direção do já considerado clássico Plata Quemada. Todos capazes de encher os olhos do cinéfilo mais exigente.

E ontem tiver a oportunidade de assistir o O Olhar Invisível dirigido por Diego Lerman, "arrentino" de 34 anos. Este filme foi exibido durante Fest Rio 2010, em outubro. Tendo como cenário de fundo os últimos anos da ditadura militar argentina, conta a história de uma preceptora, Maria Teresa (Julieta Zylberberg), funcionária de um tradicional colégio de Buenos Aires, que tem como principal função manter os alunos na linha. E linha, nos inícios nos anos 80, era a repetição do quadro de terror por qual passava toda a sociedade platina por aquelas épocas.

Os alunos são submetidos a uma disciplina semelhante a de militares. Meninos e meninas passam por revistas, como uma tropa. Os preceptores verificam toda a postura dos jovens, das meias aos colarinhos, passando pelo comprimento dos cabelos. Qualquer desalinho era notificado em caderneta.

Tendo como atribuição profissional cuidar da disciplina dos estudantes, onde até um beijo entre um aluno e uma aluna era alvo de repreensões, Maria Teresa, bonita e esguia, se amolda a uma personalidade anódina, mostrando sempre uma face rigorosa, beirando a cruel, para os alunos. Mas com muita sutileza da direção, outro personagem e apresentado ao público. Uma Maria reprimida, que teme a sua própria sexualidade. Sabe que a exposição de seus desejos poderá levá-la a uma perda de autoridade perante os alunos. Muito delicadamente, também é apresentada uma atração que Maria tem por um dos jovens. Ela sofre silenciosamente com isso, ao ponto de ocultar a compra de um perfume masculino apenas para, antes de dormir ter o cheiro do aluno para se deleitar.

Mas desejos latentes, quando não saciados, podem conduzir a comportamentos doentios. Por isso, ela leva ao chefe dos preceptores Carlos Biasutto (Omar Núñez) , um sujeito além da meia idade que nutre uma paixão por Maria Teresa, uma suspeita de que alunos estariam fumando escondidos. Recebe dele o aval para manter um olhar invísivel, que dá o título ao filme. Ela então sente-se abonada em conceder cores à sua fantasia de espionar os meninos no banheiro da escola. Diariamente, esconde-se em uma das cabines sanitárias de onde lança olhares furtivos. No local, mesmo se sentindo culpada por sua atitude, dá vazão aos seus instintos. Esse passa a ser o sentido da sua vida, como sugere o roteiro do filme, que dedica longos minutos ao que se passa no banheiro masculino da escola.

Toda a aridez e assepsia do local é sugerido pela câmera e pelas cores predominantemente cinzas e seus subtons. Cores vivas são evitadas, sugerindo a presença da ditatura no cotidiano daquelas pessoas. Neste ambiente, o chefe dos preceptores tenta seduzir Maria Tereza, mas não consegue trocar além de algumas cordialidades. Até um simples toque, durante uma conversa em um café, é evitado vigorosamente por Maria. A tentativa de aproximação passa por ele tentando convencê-la de tratá-lo pelo primeiro nome Carlos. Mas a jovem preceptora insiste inarredavelmente em um tratamento formal para desgosto do pretendente. Afinal, o que uma jovem na flor dos seus 23 anos iria querer com alguém provavelmente sexagenário?

O clima pesado do filme pode levar o público desavisado a uma certa angústia, já que quase nada é mostrado explicitamente. E ao contrário do que agora tem virado moda, não há nenhum recurso de voz narrativa em off para clarear o que está se passando no interior de Maria. A leveza da direção talvez seja o seu maior mérito.

Mas o final não é nada suave. O preceptor chefe descobre que Maria anda se esgueirando no banheiro masculino e passa a ter isso como um trunfo. Em um momento brutal ele a flagra dentro de um box, condena-a com toda a dureza possível, e aproveita a superioridade de posição e de condição para estrupa-la brutalmente. Ao final do ato, ainda diz para ela continuar diariamente com as suas zelosas investigações no banheiro masculino. Ferida em seus brios, em todos os sentidos, Maria o acerta com um estilete, pelas costas. O filme encerra com os apelos de socorro do algoz que se transforma em vítima. Até a morte do antagonista é sugerida, e não explícita. Como um tango trágico.

3 comentários:

Nina Souza disse...

ineressante... vou ver se acho por aqui.
bjs!

Por que você faz poema? disse...

Nossa Senhora do Spoiler
nos proteja.

Anônimo disse...

(Venha cá ANJO DE LUZ eu te INVOCO para que Desenterre LU de onde estiver ou com quem estiver e faça ela ME telefonar ainda hoje, Apaixonada e Arrependida, desenterre tudo que esta impedindo que LU venha para MIM , afaste todas aqueles que tem contribuído para o nosso afastamento e que ela LU não pense mais nas outros… mas somente em MIM. Que ela ME telefone e ME AME. Agradeço por este seu misterioso poder que sempre dá certo. Amém…).