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quinta-feira, junho 28

Deus da Carnificina - Polanski

De repente é como eu estivesse de volta a uma sala de cinema exibindo um filme do Fassbinder, que gostava muito de produções baseadas em peças teatrais, com roteiros desenvolvidos em um único ambiente. É assim que desenvolve-se O Deus da Carnificina (Carnage), do diretor Roman Polanski, inteiramente baseado na peça com o mesmo nome, de Yasmina Reza, roteirista e atriz francesa.  Fazia tempo que não assistia nada em formato de plot teatral.

A história conta, como bem sabem aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a peça, o encontro entre dois casais, de meia idade, que tiveram seus filhos envolvidos em um conflito de adolescentes. Aos 11 anos de idade, o filho de Alan (Christopher Waltz) e Nancy (Kate Winslet) agrediu o filho de Michael (John Reilly) e Penélope (Jodie Foster), com uma vara de bambu. As razões do desentendimento são irrelevantes, nem sequer são apresentadas pelo filme. A única coisa que se sabe além da agressão é que dois dentes do agredido foram lesionados, mas as reparações serão cobertas pelo seguro de saúde.

O que o filme procura mostrar é a diferença de abordagem que o problema traz. E são quatro pontos de vista que parecem convergir para o ponto da civilidade e da possibilidade de uma convivência pacífica pós conflito, ao mesmo tempo que são diametralmente opostos quando melhor esmiuçados. Tanto pelo lado sexista. Os homens consideram normal que meninos, ingressando na puberdade, possam deixar aflorar o seu lado agressivo, e até formar gangues para demonstrar a sua ascendência sobre os demais  meninos do mesmo grupo e sobre  grupos adversários, enquanto que as mulheres abominam qualquer tipo de comportamento inamistoso, e remetem tais práticas a falhas de educação paterna.

Com o aprofundamento das diferenças entre todos, aos poucos vai se deslindando o que pareciam casais harmoniosos. Alan, um advogado aparentemente bem sucedido e sua esposa, Nancy, uma corretora de imóveis, mostram a sua face de uma relação já desgastada pelo tempo, onde a vida profissional já sufocou completamente a relação. Com efeito, durante toda o desenrolar da história, no interior do apartamento de Michael e Nancy, o diálogo entre os quatro é constantemente interrompido por ligações telefônicas de um cliente de Alan. Este não tem o menor pudor de voltar toda a sua atenção para o celular, enquanto os demais se perturbam com isso, ou fingem que não. Essas interrupções, a princípio, chegaram até mesmo me irritar, mas depois tornam-se hilárias. Assim como as constantes idas e vindas do casal visitante até a porta do elevador, para em seguida, por qualquer motivo, voltarem ao apartamento. E sempre por razões diferentes.

Polanski resolveu localizar a cena na cidade de Nova Iorque, meio querendo dizer aos americanos que não precisa voltar para o país para  filmar novos filmes. Assim com Lars Von Trier, que adora cutucar o ianques, no território deles, sem nunca ter cruzado o Atlântico. Mas acho que ele também quis dar um ar de cosmopolita às questões abordadas no roteiro. Nada melhor que a cidade americana, possuidora de uma diversidade cultural ímpar.

O Rei da Carnificina é o que se pode chamar de comédia, apesar de as piadas em nenhum momento arrancarem nenhum riso. Só sorrisos de canto de boca, mesmo porque sua força, como qualquer peça teatral, está nos diálogos. Não que a câmera não estivesse beirando a perfeição, conseguindo quebrar, com os seus movimentos, uma provável monotonia de uma filmagem quase que totalmente em um só ambiente. Certamente, não é o melhor de Polanski, que já nos deu obras como Chinatown, Tess, O Pianista, Oliver Twist, Dança dos Vampiros e Faca na Água, mas é divertido.


sexta-feira, junho 8

Prometheus de Ridley Scott

Um libelo feminista, onde duas mulheres estão no comando, e tomam todas as decisões, apesar de inconvenientes para alguns homens. Uma delas mostra, inclusive, como é capaz de se desfazer de uma gravidez indesejável. Uma visão freudiana poderia reduzir Prometheus, de Ridley Scott, a isso. A história, no entanto, nos remete aos principais segredos ainda não revelados  da humanidade. Quem somos, de onde viemos e por que estamos aqui. É claro que não se trata de um estudo científico ou filosófico. Scott apenas aponta uma direção, de forma absolutamente ficcional. Em sua abordagem cinematográfica, a humanidade foi gerada a partir de DNAs alienígenas, o que só transferiria a origem da vida para outro ponto do universo.

A história tem início em um passado incerto, quando um ser humanóide de outro planeta, às margens de uma catarata, resolve se decompor, ingerindo uma determinada substância com esse poder, liberando o seu DNA, sob as vistas de uma nave alienígena. Isso sugere, então que o ser humano, que viria surgir alguns milênios depois, teria essa origem. Inevitável a comparação com 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Com um diferencial, já que na história original, de Arthur C Clarke, é sugerido que foram os seres de outro planeta que induziram o desenvolvimento da capacidade intelectiva humana, sem haver doação de material genético.

Assim como em 2001, os alienígenas também deixaram pistas para serem localizados. Os monólitos da scifi de Kubrick são substituídos por desenhos em cavernas e artefatos arqueológicos. Estes dariam a posição exata no universo, de onde teria se originado a missão alien que trouxe consigo a possibilidade do povoamento da terra. E são os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que não amavam as mulheres) e seu namorado (noivo?, marido?) Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) quem matam a charada e convencem a um megamilionário à beira da morte, que a a expedição vale a pena.

A viagem para o planeta indicado por imagens pré-históricas, provavelmente produzidas pelos aliens que originaram a humanidade, é feita em animação suspensa por longos dois anos e alguns meses, sendo administrada por um robô de forma humana David que tem capacidades múltiplas. Mais uma referência ao 2001 e seu supercomputador Hall. E como o seu antepassado ficcional, ele tem também a capacidade de melar algumas situações, criando nódulos dramáticos indispensáveis à trama.

Na nave Prometheus surje também questões como quais são as prioridades da missão. Se esta deve preservar o caráter meramente científico, na busca pela origem da humanidade ou se há perspectivas econômicas a serem salvaguardadas. Elizabeth pelo lado da ciência e Meredith Vickers (Charlize Theron), herdeira do capitalista que financiou a expedição, se antagonizam, inclusive sobre quem é o verdadeiro comando da missão. Meio previsível saber para que lado a produção cinematográfica vai pender, diante do histórico recente de desfechos de situações semelhantes na indústria de Hollywood.

Daqui para frente, vão alguns spoillers. A expedição ao chegar ao planeta indicado, se depara com o que seria uma nave alien camuflada. A camuflagem só é percebida com o desenrolar da trama. Aparentemente deserta, e no interior de uma grande formação rochosa, aos poucos vai se descobrindo que há formas de vida no local. É também encontrado uma câmara de animação suspensa do que seriam os nossos progenitores genéticos. Um único ser dessa espécie teria sobrevivido a algum tipo de extermínio, que a princípio não está exatamente claro. Mas depois se descobre que foi provocado pela espécime que se consagrou em Alien, o oitavo passageiro, o inimigo número um da tenente Ripley.

David, em uma das idas até a nave, recolhe um material alienígena, e faz com que o namorado de Elizabeth ingira desavisadamente. Uma atitude que pareceu um mero experimento, mas que trouxe repercussões danosas a todos. Charlie se transforma em um ser altamente destrutivo, e assassina alguns tripulantes, reduzindo drasticamente a população.

O megamilionário caquético, que se passava por morto, na realidade ainda está vivo dentro da nave, e participa de uma nova ida para a nave alien, com o objetivo de despertar o ser encapsulado. O velhinho tem a ambição de encontrar uma fórmula de longevidade e prorrogar a sua miserável existência, e se possível com um pouco mais de qualidade. Ou seja, o que seria filantropia, passa a configurar uma ambição sem tamanhos.


Mas o despertar do espécime humanóide se mostra um erro. O ser é altamente hostil e passa a matar todos os que estão em sua volta, chegando a separar a cabeça do corpo do robô. A outra parte da expedição, que aguarda na Prometheus, assiste a tudo. Vickers ordena a decolagem imediata da nave, abandonando o restante da tripulação sobrevivente do acesso de cólera do alien. Também é descoberto que aquela nave seria uma arma de destruição em massa apontada para a terra. Parece que os “nossos criadores”, não teriam gostado do resultado alcançado.

O grande mérito do filme é a sua capacidade de gerar tensões. David, logo de início dá mostras do seu desapego a qualquer diretriz que coloque a vida da tripulação como prioridade. Mas não chega a demonstrar a paranóia delirante de Hall ou de outros intelectos eletrônicos que piram o cabeção, tão comuns em produções scifi. Ele é também a chave da sobrevivência de Elizabeth, deixando de lado o maniqueísmo onde há um lado essencialmente bom e outro inapelavelmente ruim. Achei uma sacada esse desfecho. Mas também aparece a questão salvar a pele ou a humanidade. Que achei meio clichê, mas orgânica para o desfecho da história, que se propõe a ser a protogênese de Alien o oitavo passageiro.

A estória, mesmo com as semelhanças com 2001, uma odisseia no espaço é instigante, e não faltam cargas de suspense, e alguma escatologia própria de Scott, que nos pede alguma fortaleza de nossos estômagos. Foi uma boa diversão. Só que o 3D é absolutamente dispensável, sob todos os aspectos. Só um jeitinho de os distribuidores cobrarem a mais por um produto que custa a metade.