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sexta-feira, junho 8

Prometheus de Ridley Scott

Um libelo feminista, onde duas mulheres estão no comando, e tomam todas as decisões, apesar de inconvenientes para alguns homens. Uma delas mostra, inclusive, como é capaz de se desfazer de uma gravidez indesejável. Uma visão freudiana poderia reduzir Prometheus, de Ridley Scott, a isso. A história, no entanto, nos remete aos principais segredos ainda não revelados  da humanidade. Quem somos, de onde viemos e por que estamos aqui. É claro que não se trata de um estudo científico ou filosófico. Scott apenas aponta uma direção, de forma absolutamente ficcional. Em sua abordagem cinematográfica, a humanidade foi gerada a partir de DNAs alienígenas, o que só transferiria a origem da vida para outro ponto do universo.

A história tem início em um passado incerto, quando um ser humanóide de outro planeta, às margens de uma catarata, resolve se decompor, ingerindo uma determinada substância com esse poder, liberando o seu DNA, sob as vistas de uma nave alienígena. Isso sugere, então que o ser humano, que viria surgir alguns milênios depois, teria essa origem. Inevitável a comparação com 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Com um diferencial, já que na história original, de Arthur C Clarke, é sugerido que foram os seres de outro planeta que induziram o desenvolvimento da capacidade intelectiva humana, sem haver doação de material genético.

Assim como em 2001, os alienígenas também deixaram pistas para serem localizados. Os monólitos da scifi de Kubrick são substituídos por desenhos em cavernas e artefatos arqueológicos. Estes dariam a posição exata no universo, de onde teria se originado a missão alien que trouxe consigo a possibilidade do povoamento da terra. E são os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que não amavam as mulheres) e seu namorado (noivo?, marido?) Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) quem matam a charada e convencem a um megamilionário à beira da morte, que a a expedição vale a pena.

A viagem para o planeta indicado por imagens pré-históricas, provavelmente produzidas pelos aliens que originaram a humanidade, é feita em animação suspensa por longos dois anos e alguns meses, sendo administrada por um robô de forma humana David que tem capacidades múltiplas. Mais uma referência ao 2001 e seu supercomputador Hall. E como o seu antepassado ficcional, ele tem também a capacidade de melar algumas situações, criando nódulos dramáticos indispensáveis à trama.

Na nave Prometheus surje também questões como quais são as prioridades da missão. Se esta deve preservar o caráter meramente científico, na busca pela origem da humanidade ou se há perspectivas econômicas a serem salvaguardadas. Elizabeth pelo lado da ciência e Meredith Vickers (Charlize Theron), herdeira do capitalista que financiou a expedição, se antagonizam, inclusive sobre quem é o verdadeiro comando da missão. Meio previsível saber para que lado a produção cinematográfica vai pender, diante do histórico recente de desfechos de situações semelhantes na indústria de Hollywood.

Daqui para frente, vão alguns spoillers. A expedição ao chegar ao planeta indicado, se depara com o que seria uma nave alien camuflada. A camuflagem só é percebida com o desenrolar da trama. Aparentemente deserta, e no interior de uma grande formação rochosa, aos poucos vai se descobrindo que há formas de vida no local. É também encontrado uma câmara de animação suspensa do que seriam os nossos progenitores genéticos. Um único ser dessa espécie teria sobrevivido a algum tipo de extermínio, que a princípio não está exatamente claro. Mas depois se descobre que foi provocado pela espécime que se consagrou em Alien, o oitavo passageiro, o inimigo número um da tenente Ripley.

David, em uma das idas até a nave, recolhe um material alienígena, e faz com que o namorado de Elizabeth ingira desavisadamente. Uma atitude que pareceu um mero experimento, mas que trouxe repercussões danosas a todos. Charlie se transforma em um ser altamente destrutivo, e assassina alguns tripulantes, reduzindo drasticamente a população.

O megamilionário caquético, que se passava por morto, na realidade ainda está vivo dentro da nave, e participa de uma nova ida para a nave alien, com o objetivo de despertar o ser encapsulado. O velhinho tem a ambição de encontrar uma fórmula de longevidade e prorrogar a sua miserável existência, e se possível com um pouco mais de qualidade. Ou seja, o que seria filantropia, passa a configurar uma ambição sem tamanhos.


Mas o despertar do espécime humanóide se mostra um erro. O ser é altamente hostil e passa a matar todos os que estão em sua volta, chegando a separar a cabeça do corpo do robô. A outra parte da expedição, que aguarda na Prometheus, assiste a tudo. Vickers ordena a decolagem imediata da nave, abandonando o restante da tripulação sobrevivente do acesso de cólera do alien. Também é descoberto que aquela nave seria uma arma de destruição em massa apontada para a terra. Parece que os “nossos criadores”, não teriam gostado do resultado alcançado.

O grande mérito do filme é a sua capacidade de gerar tensões. David, logo de início dá mostras do seu desapego a qualquer diretriz que coloque a vida da tripulação como prioridade. Mas não chega a demonstrar a paranóia delirante de Hall ou de outros intelectos eletrônicos que piram o cabeção, tão comuns em produções scifi. Ele é também a chave da sobrevivência de Elizabeth, deixando de lado o maniqueísmo onde há um lado essencialmente bom e outro inapelavelmente ruim. Achei uma sacada esse desfecho. Mas também aparece a questão salvar a pele ou a humanidade. Que achei meio clichê, mas orgânica para o desfecho da história, que se propõe a ser a protogênese de Alien o oitavo passageiro.

A estória, mesmo com as semelhanças com 2001, uma odisseia no espaço é instigante, e não faltam cargas de suspense, e alguma escatologia própria de Scott, que nos pede alguma fortaleza de nossos estômagos. Foi uma boa diversão. Só que o 3D é absolutamente dispensável, sob todos os aspectos. Só um jeitinho de os distribuidores cobrarem a mais por um produto que custa a metade.

3 comentários:

Anna disse...

3D absolutamente indispensável nesse filme. gostei demais, apesar de ter sido um dos únicos filmes em que me deu vontade de sair da sala pra vomitar. acho isso um trunfo, de certa forma, rs.

beijão, gostei muito do texto. senti falta de um desenvolvimento à parte freudiana, especialmente do embate entre as duas mulheres, a lisbeth e a vickers. muito interessante essa percepção.

acho que, diferentemente do que muitos críticos estão falando, o filme não buscou trazer respostas. o filme apenas reforçou a maioria das questões criacionistas. o que tu acha?

beijão

Fred disse...

Achei q o filme deixou muitas questões mal explicadas, por exemplo: pq os engenheiros resolveram nos exterminar? Quem matou os engenheiros, se o xenomorfo surgiu a partir de uma criatura gerada em útero humano 2000 anos depois?... Acho q uma sequência é indispensável pra tapar os vários buracos abertos. Sem isso, pra mim, será um filme muito incoerente e que não faz jus a Alien e Aliens.

Abraço

Fred disse...

Ahhhh gostei do seu texto. Parabéns! Só um detalhe: quem matou vários tripulantes foi o Fifield, que serviu de hospedeiro àquela "cobra". O Charlie não mata ninguém, não.