Follow by Email

quinta-feira, agosto 10

A vida líquida e o absurdo do suicídio de Hannah Baker

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.”

Assim pensa e expõe Albert Camus, na abertura do Mito de Sísifo. As primeiras linhas do primeiro capítulo “O absurdo do suicídio”.  O filósofo existencialista tratou dessa questão que hoje se atualiza com extrema velocidade e profusão. Há uma baleia azul na Europa Oriental, que convida os desavisados a realizar 50 tarefas, encerrando com a tirada da vida do participante. Há uma série Netflix, 13 reasons why, que trata do suicídio de Hannah Baker como uma questão social, envolvendo vários atores (não no sentido cenográfico, mas de participantes da ação). Na produção, ao longo de 13 capítulos, que correspondem a 13 lados de fitas cassetes gravadas, com explicações da sua tomada de decisão, ela procura apontar razões exteriores que a encaminharam para a morte. 

“Há muitas causas para o suicídio, e nem sempre as causas mais aparentes foram as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão. O que desencadeia a crise é quase incontrolável”.  Aponta Camus. O personagem Hannah, no entanto, parece desafiar a assertiva do argelino.  Ela é muito metódica em apontar cada momento que, ao longo da sua breve existência (se mata aos 16), a levou ao desenlace fatal. A morte é a saída para o peso da vida que nem todo mundo é capaz de suportar sobre os ombros.  O tema é geralmente evitado pelos veículos de comunicação para impedir a propagação da ideia. Raramente, algum noticiário se refere a suicídio, salvo se a vítima tiver uma relevância exponencial na sociedade. O suicida é tratado, não raras vezes, como fruto de um distúrbio mental, uma depressão, ou alguma demência para além do controle da própria vida.  “Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos”. (Camus).

O Mito de Sísifo escrito em 1942, durante o período da guerra, quando a França estava invadida pelas forças nazistas. Com certeza, aquele não foi um período fácil para a população francesa, notadamente os mais jovens. Mas se hoje, não há guerras no mundo ocidental, não no sentido convencionalmente declarada, parece sobrar motivos para a angústia, o desespero, a frustração e tragédias. A vida social é ambiente hostil, quer seja na escola, no trabalho, na família, na igreja, no estádio de futebol ou no clube. O capitalismo dividindo as nações entre winners e losers (ganhadores e perdedores).  Até mesmo as religiões, que em passado próximo já serviu de abrigo para os desvalidos, hoje aponta a falta de fé como o único fator do fracasso. A teologia da prosperidade, caminho fácil para líderes religiosos aferirem lucros e compensações financeiras, diz claramente que apenas os que crêem vão ter a oportunidade de sair do poço sem fundo onde enfiaram as suas próprias existências.  Se está desempregado, se está enfermo, meteu-se com drogas, não se aflija. Entregue o seu coração a Jesus e todos os seus caminhos se abrirão, amém. Se nada melhorar para você, é porque você está em mãos malignas. Pague alguma pequena fortuna para ter direito a uma sessão de exorcismo particular. Não conseguir a tão sonhada redenção não é culpa de mais ninguém a não ser sua mesmo.  Nada tem a ver com a crise capitalista instalada no país, com a retirada de direitos sociais históricos, ou com a ganância dos exploradores rentistas. Assuma a sua culpa pessoal, por mais desesperador que isso possa ser. E se por algum motivo, a dor for demasiada, e se matar, saiba que as profundezas do inferno lhe espera.

“As acusações lançadas sobre a vítima não se tornam mais verdadeiras por serem proferidas em coro. A verdade estava e permanece do lado da vítima”, cita Zigmunt Bauman, em Vida líquida (2005). A julgar pelas fortes indicações, a causa primeva do suicídio não é um impulso interior. Não se trata de um distúrbio mental. Deve haver dispositivos que antes de se instalar o desejo à morte, foram as condições de possibilidade do florescimento da vontade de autodestruição, que surjam por questões externas. “Para validar a perda da vida, o propósito deve oferecer ao herói um valor maior que todas as alegrias de continuar vivendo sobre a terra”.  (idem,idem).

Em 1970, o psicólogo canadense Bruce Alexander, da Universidade de Simon Fraser (Columbia Britânica), já havia identificado, através de estudos com ratos, a origem dos distúrbios mentais que levam ao consumo de drogas, que em muitos casos chegam a ser um problema fatal. Conta a lenda que, antes do experimento, ele já tinha observado que soldados americanos que haviam se viciado em heroína nos campos de batalha no Vietnam, e ao retornarem ao convívio familiar e social, rapidamente deixavam o vício sem nenhuma terapia. Os ratinhos de laboratório foram induzidos a consumir heroína através da ração de água, e logo em seguida foi dada aos bichinhos viciados, postos em confinamento, a opção de beber água pura, em vez da mistura com heroína. Viciados que estavam, praticamente todos preferiam saciar seus desejos com a mistura água/narcótico.
A experiência teve uma virada quando o psicólogo criou um grande parque de diversões, com diversos brinquedos para ratos, colocando todos os “viciados” no mesmo ambiente, devolvendo todos, assim, ao convívio social, mas mantida a opção de escolha entre a água pura e a mistura com heroína. Eles rapidamente abandonaram o “vício” e retornaram à vida saudável. É o ecossistema em que o espécime está inserido a causa primeira do desajuste. O descompasso entre o que seria uma vida feliz e as agruras impostas são os gatilhos que empurram para o precipício do vício, que também se transforma em uma única fonte, mínima que seja, se satisfação e prazer. Sair do ambiente hostil e perigoso e ser envolto em afetividades e prazeres outros funciona bem melhor do que qualquer terapia para a cura dos vícios, ao que indica o estudo do canadense.
Zygmunt Balman, destaca que “os mártires são pessoas que enfrentam desvantagens esmagadoras. Não apenas no sentido de que sua morte é quase certa, mas também que é seu derradeiro sacrifício provavelmente não será valorizado pelos espectadores”. Parece que é esse o caminho que Hannah trilha. Diante de tantas situações extremamente desagradáveis e degradantes que enfrenta, sem nunca conseguir comunicar o seu verdadeiro estado de espírito, ela não consegue encontrar uma saída, ou pelo menos vislumbrar alguma esperança que possa a retomar alguma dignidade para sua própria vida. Perdeu totalmente a falta de comunicação entre o seu verdadeiro eu, que quer ser aceita, e o mundo exterior que só lhe apresenta situações desconfortáveis e extremamente doloridas. A busca da auto imolação é como se fosse o seu último grito de desespero diante de um mundo pesado que a sufoca de maneira insofismável. Nem a busca de um conselheiro escolar, que possa dar uma nova direção e salvá-la do sacrifício a que se impõe, é alentador. Só escuta dele que se ela não tem como desafiar seus agressores, só resta a ela se conformar com o sofrimento e fazer de conta que a sua própria vida não existe, que as agruras são coisas do passado e não constitutivas do seu próprio eu. Mas como dizer para si mesmo que  a sua vida absurda não é real?
            “Ser um indivíduo é ser igual a todos do grupo”, assinala Balman. Mas Hannah, por mais que tente, não chega a esse estágio. Em sua escola, os mais próximos são os primeiros a fazer pouco caso dela. Seu “crush” que conseguiu fotografá-la em um momento íntimo, exibe o troféu aos colegas e logo a imagem é distribuída pelas redes sociais. O ultraje é o mais amplo possível, com piadinhas ditas em corredores. Olhares furtivos e cochichos entre os pares têm efeitos devastadores. De desconhecida da turma, já que havia se transferido recentemente para a escola, passa a ser a “menina fácil”, que dá “mole” para qualquer um. Ela não se sente assim, mas a sucessão de eventos que se seguem não a deixa fugir dessa aura de preconceitos, maledicências e boullyings abertos e declarados. Outros meninos se aproximam apenas para obter facilidades sexuais. Ela não é mais uma igual. “Ser indivíduo significa ser igual a todos do grupo” (Balman, idem) . É a estranha,  e a única possibilidade é se isolar, quando possível, ou quando não, devido às atividades escolares, se escudar em uma couraça de indiferença a tudo que a cerca. Mas isso está longe de ser uma tarefa fácil quando se tem 16 anos, quando os mais próximos arrumam motivos para desdenhar dela. Não é mais possível a ser indivíduo igual a todos do grupo.

O temor que mais momentos indesejáveis repitam na sua vida amplia ao máximo a sua sensibilidade negativa a quem quer que se aproxime. Tanto é assim que Clay, uma das raras pessoas em toda série que realmente nutre por ela bons sentimentos, ou pelo menos aparenta nutrir, é repelido veementente ao buscar uma maior intimidade, mesmo que honesto em seus propósitos. Hannah já não vê mais como baixar a guarda, diante de tantos infortúnios sofridos nas mãos de adolescentes masculinos e femininos. “A individualidade...precisa da sociedade simultaneamente como berço e como destino..”(Balman, idem). O machismo expresso na série, nega a sociabilidade com a jovem.  Ao contrário, mostra, enfaticamente, que mulheres são seres de segunda classe que devem girar em torno dos desejos e atividades masculinos. Afinal de contas, elas não passam em “cheerleaders”, enquanto eles são os astros dos times da escolas, os merecedores de todos os incensos e festejos. Transar com o ídolo do basquete ou dobasebol é o máximo que as meninas podem almejar. Não há lugares de liderança ou de honra para o sexo feminino no meio escolar americano.

A tragédia só se aprofunda, sem uma alternativa de fuga. A rota traçada para a morte segue inabalável na vida de Hannah. Depois de ser estuprada pela estrela do time de basquete, a protagonista define o seu fim em uma banheira de sua casa, com os pulsos cortados. Assim como Antígona, que mesmo sabendo que seria condenada a morte por enterrar o seu irmão, A adolescente prefere sair do mundo a continuar carregando todo o peso que sua curta existência resolveu por sobre os seus ombros. “O caminho que leva à identidade é uma batalha em curso e uma luta interminável entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança” (Balman). A batalha é perdida. É tarde, Hannah é morta.

Referências
Vida Líquida. BAUMAN, Zigmunt. 3ª Edição. Rio de Janeiro, Zahar, 2009
O mito de Sísifo. CAMUS, Albert. 2ª Edição. Rio de Janeiro, Record, 2004
Bruce Alexander e o mito do vício. http://www.naopossoevitar.com.br/2009/07/experimentos-em-psicologia-bruce-alexander-e-o-mito-do-vicio.html

terça-feira, agosto 8

Handmaid's Tale e o fundamentalismo religioso no Brasil

A moda agora é assistir séries, fazer maratonas, ficar final de semana totalmente dedicado aos capítulos de uma nova temporada. Apelos e serviços não faltam. Tudo ao alcance de uma assinatura de uma operadora de TV por Internet. Com tanta demanda, a quantidade de bagulhos aumentou exponencialmente, também. Porcarias para todos os gostos, salvo raras exceções.

Handmaid’s tale é uma dessas produções que estão bem acima da média. Pelo menos a primeira temporada que foi disponibilizada apenas através de serviços considerados piratas, no Brasil. Se quiserem descrições sobre o conteúdo, há esse link no Wikipédia. Mas a reflexão mais importante, não é bem esclarecida nos sites que encontrei.

A história trata de uma distopia em um futuro próximo, onde o poder é assumido por fundamentalistas cristãos,  que adotam a bíblia como o código de ética da sociedade. É criada uma sociedade falocentrista, onde as mulheres sequer tem direito a propriedade ou ao trabalho. Como a sociedade está declinando por conta da baixa taxa de natalidade, homens da estrutura do poder, casados com esposas inférteis, são autorizados a estuprar suas aias (mulheres de classes inferiores). O ato recebe o nome de cerimônia, e é assistido pela esposa do casal, que “abençoa” a relação em nome de uma maternidade, que irá assumir, com o sequestro da criança de sua legítima mãe.  

A bíblia é o eixo que ordena a sociedade e seus novos costumes. A relação extraconjugal é justificada através do patriarca Abraão, que também teve relações com a sua escrava. A mulher tem um papel totalmente secundário. Algumas são casadas e administram as suas casas, e as demais são serviçais não remuneradas, com os úteros apropriados pelo Estado, que define como, quando e aonde elas irão copular, com o objetivo de apenas gerar filhos para a sociedade patriarcal.

Para mim, a série, é baseada em um livro premonitório escrito há 32 anos. Na época em que foi escrito,  o Talibã sequer havia chegado ao poder. A instrumentalização das crenças e do mito da existência de um ser supremo, metafísico, onisciente é levada às últimas consequências na obra ficcional, como já acontece em alguns países mulçumanos.   
   
A lei que vale não é exatamente o que está escrito, mas a interpretação que se dá ao texto reconhecido como religioso. Assim, é fácil demonizar o inimigo, e glorificar os seus aliados. A guerra civil nos Estados Unidos, que promove o surgimento da república de Gileade, fundou-se de forma progressiva. Primeiro, as mulheres foram proibidas de ter propriedades e de trabalhar, em seguida, iniciaram-se as perseguições aos dissidentes, assim como ocorreu aos judeus na Alemanha. Em terceiro, com a vitória política e militar, instaura-se uma ditadura religiosa.


Infelizmente, no Brasil, já se pode ver passos sendo dados na direção do fundamentalismo religioso, a quem tem um olhar mais atento. O primeiro passo dado é a criação de novos conceitos que desqualifiquem o inimigo. Como “escola sem partido”, que é a forma de bloquear qualquer possibilidade de informações sobre sistemas políticos de esquerda, e a “ideologia de gênero”, que tenta reduzir a meros comportamentos a diversidade cultural. Claro que todo isso condenando movimentos políticos de esquerda e de emancipações das minorias. Ainda está distante o Brasil se transformar em uma Gileade, mas quando há gente que quer o retorno de uma ditadura militar no Brasil, e um proselitista de torturas pode chegar ao poder, talvez a distância não seja tão grande assim.

segunda-feira, maio 1

O valor da vida


Tempos estranhos e sombrios esses.  Faz algum tempo, que venho percebendo as tentativas de eliminação de marcos históricos. Não só de conquistas sociais, como as leis trabalhistas e previdência social, que estão sendo dizimadas, deixando grande parte da população perplexa e sem saber a quem recorrer. Outra parte, até que está gostando. Sabe aquele ditado de derrubar a casa só pra fazer poeira pro vizinho? Meio isso o que está acontecendo, fora a "faxina étnica" nos aeroportos e outros recintos que vinham sendo permeados pela emergente classe C. O sonho acabou?

A sanha e o desejo de pseudo gestores que assumiram postos políticos em suprimir o passado e criar uma realidade alternativa (termo inventado para subverter a lógica da mentira) são avassaladores. Em Sampa, a a arte o primeiro alvo do iconoclasta. Paisagens grafitadas viraram cenário cinza e insípido, apenas pelo desejo de apagar os marcos anteriores. Não é por desprezar as obras artísticas que isso foi feito. Exatamente o contrário. É por entender o quanto as obras formam o imaginário que elas são destruídas. É preciso atacar qualquer sinal de que já houve vida inteligente no passado. Só o futuro interessa a aqueles que querem subverter uma lógica social pré-existente.

Ciclovias criadas para proteger um transporte não poluente, rápido e barato com objetivo de deslocar um grande contingente da população, vão se transformando em sucata. Nada do antigo presta, e deve ser destruído o mais rápido possível para abrir espaço ao novo tempo. Mesmo que à custa de vidas, não importa. Ser bom gestor é ser capaz de devolver uma cidade ao atraso, dando-lhe a aparência de algo moderno. Então, se houve redução de velocidade e de vida nas rodovias, mas isso não faz parte do novo universo diegético, a carnificina em forma de liberação dos limites deve retornar. E todos acharam moderno, como moderno é a desqualificação do valor da vida.

(Ao meu amigo Jayme que me estimulou o retorno)

segunda-feira, março 28

Em Uso

Nada não. Só para não perder o espaço. Hoje vi que uma amiga blogueira, que faleceu há alguns anos, teve o seu blog desativado. Uma pena, gostava de dar uma olhada pra matar a saudade. Hoje, nem mais isso.

Mas estou querendo voltar a escrever por aqui. Afinal, 70 mil hits não é algo que se jogue fora. Uma disciplina de jornalismo na web tem me motivado.


domingo, julho 15

Para Roma, com amor - Woody Allen




Para quem gosta de Woody Allen interpretando a si mesmo em seus filmes, Para Roma, com amor, traz o diretor-ator em grande estilo. Mas em doses homeopática, uma vez que a produção reúne quatro estórias, em formato de esquetes que não se tangenciam em nenhum momento, senão por acontecerem todas em território romano. E, como sempre em películas rodadas em solo europeu, com personagens americanos. É divertido, descompromissado, e sem muitas referências intelectuais como o anterior Meia Noite em Paris. Um Woody Allen que retoma um humor que não chega a ser ácido, nem pastelão, que é capaz de arrancar boas risadas da plateia, e também produzir piadas que não vão além de um sorriso de canto de boca. Vale.

Os esquetes mostram a jovem Hayley americana (Pill), que, em viagem turística à Itália, conhece o advogado ativista italiano de esquerda Michelangelo (Parenti). Logo, os pais da moça, Jerry e Phyllis (Allen e Davis), viajam para Roma e Jerry, um diretor de ópera aposentado, fica encantado ao ouvir a voz de tenor de Giancarlo (Armiliato), pai de Michelangelo – até que percebe que o sujeito só consegue cantar sob o chuveiro. Enquanto isso, em outro ponto da cidade, o arquiteto americano Jack (Baldwin) despede-se da esposa para fazer um passeio solitário pelo bairro no qual morou quando jovem – e lá conhece John (Eisenberg), um estudante que o leva para conhecer sua namorada Sally (Gerwig), cuja amiga Monica (Page) acaba de chegar dos Estados Unidos, despertando o interesse do rapaz e levando Jack, cuja natureza discutirei adiante, a aconselhá-lo. Já numa terceira história, passamos a acompanhar o comum Leopoldo (Benigni), que subitamente se vê alçado à fama sem compreender exatamente a razão, ao passo que, na última trama criada por Allen, vemos um jovem casal que, chegando a Roma, se separa momentaneamente levando a uma série de confusões: enquanto ele (Tiberi) recebe parentes que confundem a prostituta Anna (Cruz) com sua esposa, a moça (Mastronardi) se envolve com um renomado astro do cinema italiano.


Em todas as estórias há um ponto em comum. Como são representadas no imaginário dos personagens  o que seria a realidade pessoal de cada um. Em cada esquete percebemos realidades distorcidas pelos desejos de seus personagens, ou então mecanismos fazem a interpretação do mundo real ser mais palatável.


Vamos, a partir daqui, abordá-los com spoilers



LEOPOLDO


Entre as mais estranhas distorções está a transformação de Leopoldo em um pop star, ou sexy simbol, a sua escolha. Do nada, como por encanto, ele passa a ser visto pelos meios de comunicação como alguém que deva ser reverenciado. A partir daí, tudo o que faz se transforma em notícia para os seus fãs ávidos por informações sobre o seu astro de ocasião. Nada nos é mostrado sobre a ascensão meteórica ao panteão olimpiano de nosso personagem-protagonista, mas tão somente os impactos causados pela glorificação do seu ser. Ele passa a não ter mais privacidade, a ser entrevistado sobre o que comeu no almoço, comparece a programas de entrevistas, e passa a ser feericamente a ser assediado por mulheres que querem seus préstimos sexuais. Seus dias de glórias são pontuados por uma limousine a sua disposição e um motorista que passa a ser o seu alter ego. Desaba-se rosário de lamentações sobre a perseguição de paparazzis, e Leopoldo passa a desejar sua antiga vida de volta. É um caso ter de passar por esses momentos!


Leopoldo é uma crítica ao mundo da fama. Em momentos hiláricos, o esquete nos leva a alguma reflexão sobre o quanto são idiotizadas as pessoas que se derramam em paixões pelos seus ídolos. Em especial, a groupies, mas também aos que são alavancados ao status de famosos, que desfrutam de todas as benesses que a fama pode trazer, mas que não param de reclamar dos veículos de comunicação que os expõem. A fama que põe o feijão na mesa é rapidamente transformada em algo nefasto, mas que ninguém quer perder, sob pena de também lançar na vala tudo o que conquistou com esforço, ou não.  E o fim da fama, que acontece todo dia para alguém, não é algo que ninguém procura, mas que está fadado a acontecer por conta de decisões meramente midiáticas.

JERRY

Jerry é o diretor de ópera aposentado que rejeita a sua condição. Considera-se morto em vida por não praticar mais o seu ofício. Não tem na sua carta de apresentação nenhum grande sucesso. Pelo contrário. Conseguiu fracassar em peças óbvias por buscar inovações que foram rejeitadas tanto pela crítica como pelo público. "Um homem a frente do seu tempo", como repetia muitas vezes, para justificar os reveses profissionais. Mas descobre uma bela oportunidade de retornar à ativa ao ouvir Giancarlo, o pai de seu genro, cantando liricamente ao tomar banho. Abraça a oportunidade de voltar à direção de ópera com o seu astro recém descoberto.

Uma dificuldade então surge em seu caminho, Giancarlo só consegue as interpretações em alto nível quando está se banhando. Jerry, para contornar o problema, coloca-o sob um chuveiro em todas as cenas ele aparece cantando, causando a ira dos críticos, ao mesmo tempo que arrancava palmas das plateias. Aqui vai uma alfinetada nos intelectuais que menosprezam determinadas obras artísticas de gosto popular. Esse esquete também traz um antigo conhecido de filmes do diretor, onde as ideologias de esquerda e de direita se antagonizam e ambas soam como absolutamente imbecis e desprovidas de racionalidade.

JOHN

Qual o tamanho de nossas convicções amorosas? É o que este esquete procura discutir, com fortes doses de humor. John se diz apaixonado por sua namorada Sally, e incapaz de trocá-la por qualquer outra pessoa, muito menos pela amiga dela, Monica, que vai visitá-la após um romance desfeito. Monica não conseguiu demover seu ex-namorado de suas inclinações homossexuais. Apesar de inúmeras tentativas.

John conhece na rua o arquiteto de shoppings Jack, que sem que nos seja dada nenhuma sinalização sobre isso, passa a ser o grilo falante de John, como que destituído de sua fisicalidade, pois está presente até em cenas insuspeitas,  antecipando cada passo que John irá dar rumo a uma paixão desenfreada por Monica, apesar de todas as rejeições anunciadas. Funciona meio como que um pedido de desculpas de todos homens que um dia foram infiéis e pensaram em cometer loucuras em nome de um novo amor que surge


NOIVOS

Por fim, há o esquete em que um casal de noivos chegam a Roma, e ela consegue se perder dele por conta de uma ida ao cabeleireiro. Não queria receber os parentes de seu consorte sem se preparar esteticamente para tal. Só que ela se perde no meio do caminho, enquanto uma prostituta se enfronha no quarto deles, e se passa pela noiva, para evitar um constrangimento maior perante os parentes, que chegam ao hotel, onde eles estão hospedados.

Em meio a um labirinto de ruas e vielas, a noiva não reconhece as ruas e não consegue retornar ao hotel de onde saiu. Bela que é, um famoso ator italiano se sente atraido por ela, e passa a assediá-la, no mesmo restaurante em que estão o seu noivo, a prostituta que se passa por ela e os parentes do noivo. Cenas hilárias brotam desse quadro non sense.


Vale salientar que as cenas de cada esquete não obedecem a linearidade, onde os cortes funcionam como um pulo de uma história a outra, tornando o desenvolvimento mais dinâmico. Em nenhum momento há perda de clareza por conta dos recursos utilizados.







segunda-feira, julho 9

Dentes Caninos - Lanthinos

Este filme grego, de estreia do diretor Yorgos Lanthinos, disputou o Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, em 2011. A gente pode dizer que ele é no mínimo estranho. Conta a história de um casal e seus três filhos jovens (duas moças e un rapaz), entre adolescentes e jovem adulto, que vivem no mais completo isolamento. Somente o pai sai de casa diariamente, para trabalhar, deixando todos os demais sem nenhum contato com o mundo exterior, nem mesmo através de rádio, televisão, ou até mesmo música. Telefone ou livros, nem pensar. 


A única forma de aprendizado dos filhos se dá através de fitas gravadas pelos próprios pais, que ensinam palavras com o sentido distorcido. Uma busca de manter a dominação total através da linguagem. Carabina é um pássaro, e Zumbi é uma pequena flor amarela, na livre associação de sentido, criando um mundo artificial. Os aviões que cruzam o céu são apresentados como se fossem de brinquedo, e que volta e meia caem um no quintal. Para alegria daqueles jovens idiotizados. A únicas imagens possíveis de serem vistas numa antiga TV são as que eles mesmo produzem em câmeras de videocassete. 


A paranoia do pai é manter os filhos afastados de todos os possíveis perigos que o mundo exterior possa apresentar. Ele forja um mito de que só é possível deixar a casa de carro. E para dirigir o carro, os jovens precisam atingir a idade em que o dentes caninos vão cair e serem substituídos por outros. Um mito que perdura. O único ser estranho que adentra ao lar é uma vigilante da fábrica em que o pai trabalha, contratada para satisfazer os desejos sexuais do filho mais velho. Ela sempre chega vendada ao local onde a casa está encravada, bem a esmo. Não há vizinhos, e tudo funciona sob o mais rigoroso controle do pai. 


A história assume contornos do Mito da Caverna de Platão, ou de Matrix, dos irmãos Wachowski, onde o verdadeiro mundo é totalmente velado aos filhos, com a diferença que não existe a pílula vermelha a ser tomada.Também tem umas pinceladas de George Orwell, que em 1984 nos apresenta a Novilíngua, transformando o sentido das palavras. Mas o controle nunca chega a ser total, como sempre nos mostra as tradições. Um sentimento de liberdade há de brotar, mesmo onde a tirania é suprema. 

As diversões dos jovens sempre se voltam para algum tipo de crueldade. Há algo de sádico ou de masoquismo no ar. Logo no início do filme, a mais jovem mobiliza os demais para uma disputa sobre quem consegue manter o dedo por mais tempo aparando a água de uma torneira de água quente. O roteiro do filme parece querer mostrar que até mesmo quando se procura controlar os pensamentos das pessoas, alguma forma de violência é gerada. 

A questão dramática de fundo é. Esses jovens vão ficar submetidos ao jugo do pai, que é psicoticamente movido pela boa intenção de defender os filhos do resto do mundo. Ou será que eles vão tentar uma fuga? O sentimento de liberdade, inerante em todos os seres humanos irá um dia surgir no coração daqueles pobres coitados? 

 Daqui para frente, vamos de spoiler. A vontade de se ver livre daquele ambiente aparentemente estéril mas carregado pelo desejos dominadores do pai se fortalece quando a agente de segurança contratada para servir ao rapaz é duramente dispensada porque teria concedido um filme para menina mais nova, mediante chantagem. Diante a demissão, o pai resolve criar um ambiente promíscuo onde os filhos realizem seus desejos sexuais. Só que ele não esperava que a filha mais velha, que é servida com objeto sexual do irmão tivesse uma reação tão repulsiva, ao ponto de não querer mais permanecer naquela casa. O sexo tem o papel de catalisador, como em toda a história da humanidade, e mobiliza a fuga da menina, daquele ambiente, mostrando a completa impossibilidade de se prever a reação das pessoas diante dessas situações. O que pode ser visto como uma coisa agradável é capaz se transformar  se transformar no pior dos infernos, dependendo de como ele é representado subjetivamente. Para homens e mulheres, a sexualidade tem contornos distintos, como pretende passar Dentes Caninos.

A direção do filme é competente, mas conservadora. A história se desenrola de forma linear e harmônica, com cortes de cenas secos e pouco poéticos. Talvez para manter o espírito árido, quase asséptico, que é buscado pelo pai, durante toda a história. Isso não impede que também seja gerado um clima tenso e nervoso, que acompanha todo o desenvolvimento do roteiro, que demonstra claramente que a insanidade do pai percorre todo aquele ambiente. Não é uma história fácil de ser digerida, mas capaz de gerar conceitos polissêmicos e um certo estranhamento em algum desavisado. Achei interessante.  

quinta-feira, junho 28

Deus da Carnificina - Polanski

De repente é como eu estivesse de volta a uma sala de cinema exibindo um filme do Fassbinder, que gostava muito de produções baseadas em peças teatrais, com roteiros desenvolvidos em um único ambiente. É assim que desenvolve-se O Deus da Carnificina (Carnage), do diretor Roman Polanski, inteiramente baseado na peça com o mesmo nome, de Yasmina Reza, roteirista e atriz francesa.  Fazia tempo que não assistia nada em formato de plot teatral.

A história conta, como bem sabem aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a peça, o encontro entre dois casais, de meia idade, que tiveram seus filhos envolvidos em um conflito de adolescentes. Aos 11 anos de idade, o filho de Alan (Christopher Waltz) e Nancy (Kate Winslet) agrediu o filho de Michael (John Reilly) e Penélope (Jodie Foster), com uma vara de bambu. As razões do desentendimento são irrelevantes, nem sequer são apresentadas pelo filme. A única coisa que se sabe além da agressão é que dois dentes do agredido foram lesionados, mas as reparações serão cobertas pelo seguro de saúde.

O que o filme procura mostrar é a diferença de abordagem que o problema traz. E são quatro pontos de vista que parecem convergir para o ponto da civilidade e da possibilidade de uma convivência pacífica pós conflito, ao mesmo tempo que são diametralmente opostos quando melhor esmiuçados. Tanto pelo lado sexista. Os homens consideram normal que meninos, ingressando na puberdade, possam deixar aflorar o seu lado agressivo, e até formar gangues para demonstrar a sua ascendência sobre os demais  meninos do mesmo grupo e sobre  grupos adversários, enquanto que as mulheres abominam qualquer tipo de comportamento inamistoso, e remetem tais práticas a falhas de educação paterna.

Com o aprofundamento das diferenças entre todos, aos poucos vai se deslindando o que pareciam casais harmoniosos. Alan, um advogado aparentemente bem sucedido e sua esposa, Nancy, uma corretora de imóveis, mostram a sua face de uma relação já desgastada pelo tempo, onde a vida profissional já sufocou completamente a relação. Com efeito, durante toda o desenrolar da história, no interior do apartamento de Michael e Nancy, o diálogo entre os quatro é constantemente interrompido por ligações telefônicas de um cliente de Alan. Este não tem o menor pudor de voltar toda a sua atenção para o celular, enquanto os demais se perturbam com isso, ou fingem que não. Essas interrupções, a princípio, chegaram até mesmo me irritar, mas depois tornam-se hilárias. Assim como as constantes idas e vindas do casal visitante até a porta do elevador, para em seguida, por qualquer motivo, voltarem ao apartamento. E sempre por razões diferentes.

Polanski resolveu localizar a cena na cidade de Nova Iorque, meio querendo dizer aos americanos que não precisa voltar para o país para  filmar novos filmes. Assim com Lars Von Trier, que adora cutucar o ianques, no território deles, sem nunca ter cruzado o Atlântico. Mas acho que ele também quis dar um ar de cosmopolita às questões abordadas no roteiro. Nada melhor que a cidade americana, possuidora de uma diversidade cultural ímpar.

O Rei da Carnificina é o que se pode chamar de comédia, apesar de as piadas em nenhum momento arrancarem nenhum riso. Só sorrisos de canto de boca, mesmo porque sua força, como qualquer peça teatral, está nos diálogos. Não que a câmera não estivesse beirando a perfeição, conseguindo quebrar, com os seus movimentos, uma provável monotonia de uma filmagem quase que totalmente em um só ambiente. Certamente, não é o melhor de Polanski, que já nos deu obras como Chinatown, Tess, O Pianista, Oliver Twist, Dança dos Vampiros e Faca na Água, mas é divertido.