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segunda-feira, março 28

Em Uso

Nada não. Só para não perder o espaço. Hoje vi que uma amiga blogueira, que faleceu há alguns anos, teve o seu blog desativado. Uma pena, gostava de dar uma olhada pra matar a saudade. Hoje, nem mais isso.

Mas estou querendo voltar a escrever por aqui. Afinal, 70 mil hits não é algo que se jogue fora. Uma disciplina de jornalismo na web tem me motivado.


domingo, julho 15

Para Roma, com amor - Woody Allen




Para quem gosta de Woody Allen interpretando a si mesmo em seus filmes, Para Roma, com amor, traz o diretor-ator em grande estilo. Mas em doses homeopática, uma vez que a produção reúne quatro estórias, em formato de esquetes que não se tangenciam em nenhum momento, senão por acontecerem todas em território romano. E, como sempre em películas rodadas em solo europeu, com personagens americanos. É divertido, descompromissado, e sem muitas referências intelectuais como o anterior Meia Noite em Paris. Um Woody Allen que retoma um humor que não chega a ser ácido, nem pastelão, que é capaz de arrancar boas risadas da plateia, e também produzir piadas que não vão além de um sorriso de canto de boca. Vale.

Os esquetes mostram a jovem Hayley americana (Pill), que, em viagem turística à Itália, conhece o advogado ativista italiano de esquerda Michelangelo (Parenti). Logo, os pais da moça, Jerry e Phyllis (Allen e Davis), viajam para Roma e Jerry, um diretor de ópera aposentado, fica encantado ao ouvir a voz de tenor de Giancarlo (Armiliato), pai de Michelangelo – até que percebe que o sujeito só consegue cantar sob o chuveiro. Enquanto isso, em outro ponto da cidade, o arquiteto americano Jack (Baldwin) despede-se da esposa para fazer um passeio solitário pelo bairro no qual morou quando jovem – e lá conhece John (Eisenberg), um estudante que o leva para conhecer sua namorada Sally (Gerwig), cuja amiga Monica (Page) acaba de chegar dos Estados Unidos, despertando o interesse do rapaz e levando Jack, cuja natureza discutirei adiante, a aconselhá-lo. Já numa terceira história, passamos a acompanhar o comum Leopoldo (Benigni), que subitamente se vê alçado à fama sem compreender exatamente a razão, ao passo que, na última trama criada por Allen, vemos um jovem casal que, chegando a Roma, se separa momentaneamente levando a uma série de confusões: enquanto ele (Tiberi) recebe parentes que confundem a prostituta Anna (Cruz) com sua esposa, a moça (Mastronardi) se envolve com um renomado astro do cinema italiano.


Em todas as estórias há um ponto em comum. Como são representadas no imaginário dos personagens  o que seria a realidade pessoal de cada um. Em cada esquete percebemos realidades distorcidas pelos desejos de seus personagens, ou então mecanismos fazem a interpretação do mundo real ser mais palatável.


Vamos, a partir daqui, abordá-los com spoilers



LEOPOLDO


Entre as mais estranhas distorções está a transformação de Leopoldo em um pop star, ou sexy simbol, a sua escolha. Do nada, como por encanto, ele passa a ser visto pelos meios de comunicação como alguém que deva ser reverenciado. A partir daí, tudo o que faz se transforma em notícia para os seus fãs ávidos por informações sobre o seu astro de ocasião. Nada nos é mostrado sobre a ascensão meteórica ao panteão olimpiano de nosso personagem-protagonista, mas tão somente os impactos causados pela glorificação do seu ser. Ele passa a não ter mais privacidade, a ser entrevistado sobre o que comeu no almoço, comparece a programas de entrevistas, e passa a ser feericamente a ser assediado por mulheres que querem seus préstimos sexuais. Seus dias de glórias são pontuados por uma limousine a sua disposição e um motorista que passa a ser o seu alter ego. Desaba-se rosário de lamentações sobre a perseguição de paparazzis, e Leopoldo passa a desejar sua antiga vida de volta. É um caso ter de passar por esses momentos!


Leopoldo é uma crítica ao mundo da fama. Em momentos hiláricos, o esquete nos leva a alguma reflexão sobre o quanto são idiotizadas as pessoas que se derramam em paixões pelos seus ídolos. Em especial, a groupies, mas também aos que são alavancados ao status de famosos, que desfrutam de todas as benesses que a fama pode trazer, mas que não param de reclamar dos veículos de comunicação que os expõem. A fama que põe o feijão na mesa é rapidamente transformada em algo nefasto, mas que ninguém quer perder, sob pena de também lançar na vala tudo o que conquistou com esforço, ou não.  E o fim da fama, que acontece todo dia para alguém, não é algo que ninguém procura, mas que está fadado a acontecer por conta de decisões meramente midiáticas.

JERRY

Jerry é o diretor de ópera aposentado que rejeita a sua condição. Considera-se morto em vida por não praticar mais o seu ofício. Não tem na sua carta de apresentação nenhum grande sucesso. Pelo contrário. Conseguiu fracassar em peças óbvias por buscar inovações que foram rejeitadas tanto pela crítica como pelo público. "Um homem a frente do seu tempo", como repetia muitas vezes, para justificar os reveses profissionais. Mas descobre uma bela oportunidade de retornar à ativa ao ouvir Giancarlo, o pai de seu genro, cantando liricamente ao tomar banho. Abraça a oportunidade de voltar à direção de ópera com o seu astro recém descoberto.

Uma dificuldade então surge em seu caminho, Giancarlo só consegue as interpretações em alto nível quando está se banhando. Jerry, para contornar o problema, coloca-o sob um chuveiro em todas as cenas ele aparece cantando, causando a ira dos críticos, ao mesmo tempo que arrancava palmas das plateias. Aqui vai uma alfinetada nos intelectuais que menosprezam determinadas obras artísticas de gosto popular. Esse esquete também traz um antigo conhecido de filmes do diretor, onde as ideologias de esquerda e de direita se antagonizam e ambas soam como absolutamente imbecis e desprovidas de racionalidade.

JOHN

Qual o tamanho de nossas convicções amorosas? É o que este esquete procura discutir, com fortes doses de humor. John se diz apaixonado por sua namorada Sally, e incapaz de trocá-la por qualquer outra pessoa, muito menos pela amiga dela, Monica, que vai visitá-la após um romance desfeito. Monica não conseguiu demover seu ex-namorado de suas inclinações homossexuais. Apesar de inúmeras tentativas.

John conhece na rua o arquiteto de shoppings Jack, que sem que nos seja dada nenhuma sinalização sobre isso, passa a ser o grilo falante de John, como que destituído de sua fisicalidade, pois está presente até em cenas insuspeitas,  antecipando cada passo que John irá dar rumo a uma paixão desenfreada por Monica, apesar de todas as rejeições anunciadas. Funciona meio como que um pedido de desculpas de todos homens que um dia foram infiéis e pensaram em cometer loucuras em nome de um novo amor que surge


NOIVOS

Por fim, há o esquete em que um casal de noivos chegam a Roma, e ela consegue se perder dele por conta de uma ida ao cabeleireiro. Não queria receber os parentes de seu consorte sem se preparar esteticamente para tal. Só que ela se perde no meio do caminho, enquanto uma prostituta se enfronha no quarto deles, e se passa pela noiva, para evitar um constrangimento maior perante os parentes, que chegam ao hotel, onde eles estão hospedados.

Em meio a um labirinto de ruas e vielas, a noiva não reconhece as ruas e não consegue retornar ao hotel de onde saiu. Bela que é, um famoso ator italiano se sente atraido por ela, e passa a assediá-la, no mesmo restaurante em que estão o seu noivo, a prostituta que se passa por ela e os parentes do noivo. Cenas hilárias brotam desse quadro non sense.


Vale salientar que as cenas de cada esquete não obedecem a linearidade, onde os cortes funcionam como um pulo de uma história a outra, tornando o desenvolvimento mais dinâmico. Em nenhum momento há perda de clareza por conta dos recursos utilizados.







segunda-feira, julho 9

Dentes Caninos - Lanthinos

Este filme grego, de estreia do diretor Yorgos Lanthinos, disputou o Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, em 2011. A gente pode dizer que ele é no mínimo estranho. Conta a história de um casal e seus três filhos jovens (duas moças e un rapaz), entre adolescentes e jovem adulto, que vivem no mais completo isolamento. Somente o pai sai de casa diariamente, para trabalhar, deixando todos os demais sem nenhum contato com o mundo exterior, nem mesmo através de rádio, televisão, ou até mesmo música. Telefone ou livros, nem pensar. 


A única forma de aprendizado dos filhos se dá através de fitas gravadas pelos próprios pais, que ensinam palavras com o sentido distorcido. Uma busca de manter a dominação total através da linguagem. Carabina é um pássaro, e Zumbi é uma pequena flor amarela, na livre associação de sentido, criando um mundo artificial. Os aviões que cruzam o céu são apresentados como se fossem de brinquedo, e que volta e meia caem um no quintal. Para alegria daqueles jovens idiotizados. A únicas imagens possíveis de serem vistas numa antiga TV são as que eles mesmo produzem em câmeras de videocassete. 


A paranoia do pai é manter os filhos afastados de todos os possíveis perigos que o mundo exterior possa apresentar. Ele forja um mito de que só é possível deixar a casa de carro. E para dirigir o carro, os jovens precisam atingir a idade em que o dentes caninos vão cair e serem substituídos por outros. Um mito que perdura. O único ser estranho que adentra ao lar é uma vigilante da fábrica em que o pai trabalha, contratada para satisfazer os desejos sexuais do filho mais velho. Ela sempre chega vendada ao local onde a casa está encravada, bem a esmo. Não há vizinhos, e tudo funciona sob o mais rigoroso controle do pai. 


A história assume contornos do Mito da Caverna de Platão, ou de Matrix, dos irmãos Wachowski, onde o verdadeiro mundo é totalmente velado aos filhos, com a diferença que não existe a pílula vermelha a ser tomada.Também tem umas pinceladas de George Orwell, que em 1984 nos apresenta a Novilíngua, transformando o sentido das palavras. Mas o controle nunca chega a ser total, como sempre nos mostra as tradições. Um sentimento de liberdade há de brotar, mesmo onde a tirania é suprema. 

As diversões dos jovens sempre se voltam para algum tipo de crueldade. Há algo de sádico ou de masoquismo no ar. Logo no início do filme, a mais jovem mobiliza os demais para uma disputa sobre quem consegue manter o dedo por mais tempo aparando a água de uma torneira de água quente. O roteiro do filme parece querer mostrar que até mesmo quando se procura controlar os pensamentos das pessoas, alguma forma de violência é gerada. 

A questão dramática de fundo é. Esses jovens vão ficar submetidos ao jugo do pai, que é psicoticamente movido pela boa intenção de defender os filhos do resto do mundo. Ou será que eles vão tentar uma fuga? O sentimento de liberdade, inerante em todos os seres humanos irá um dia surgir no coração daqueles pobres coitados? 

 Daqui para frente, vamos de spoiler. A vontade de se ver livre daquele ambiente aparentemente estéril mas carregado pelo desejos dominadores do pai se fortalece quando a agente de segurança contratada para servir ao rapaz é duramente dispensada porque teria concedido um filme para menina mais nova, mediante chantagem. Diante a demissão, o pai resolve criar um ambiente promíscuo onde os filhos realizem seus desejos sexuais. Só que ele não esperava que a filha mais velha, que é servida com objeto sexual do irmão tivesse uma reação tão repulsiva, ao ponto de não querer mais permanecer naquela casa. O sexo tem o papel de catalisador, como em toda a história da humanidade, e mobiliza a fuga da menina, daquele ambiente, mostrando a completa impossibilidade de se prever a reação das pessoas diante dessas situações. O que pode ser visto como uma coisa agradável é capaz se transformar  se transformar no pior dos infernos, dependendo de como ele é representado subjetivamente. Para homens e mulheres, a sexualidade tem contornos distintos, como pretende passar Dentes Caninos.

A direção do filme é competente, mas conservadora. A história se desenrola de forma linear e harmônica, com cortes de cenas secos e pouco poéticos. Talvez para manter o espírito árido, quase asséptico, que é buscado pelo pai, durante toda a história. Isso não impede que também seja gerado um clima tenso e nervoso, que acompanha todo o desenvolvimento do roteiro, que demonstra claramente que a insanidade do pai percorre todo aquele ambiente. Não é uma história fácil de ser digerida, mas capaz de gerar conceitos polissêmicos e um certo estranhamento em algum desavisado. Achei interessante.  

quinta-feira, junho 28

Deus da Carnificina - Polanski

De repente é como eu estivesse de volta a uma sala de cinema exibindo um filme do Fassbinder, que gostava muito de produções baseadas em peças teatrais, com roteiros desenvolvidos em um único ambiente. É assim que desenvolve-se O Deus da Carnificina (Carnage), do diretor Roman Polanski, inteiramente baseado na peça com o mesmo nome, de Yasmina Reza, roteirista e atriz francesa.  Fazia tempo que não assistia nada em formato de plot teatral.

A história conta, como bem sabem aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a peça, o encontro entre dois casais, de meia idade, que tiveram seus filhos envolvidos em um conflito de adolescentes. Aos 11 anos de idade, o filho de Alan (Christopher Waltz) e Nancy (Kate Winslet) agrediu o filho de Michael (John Reilly) e Penélope (Jodie Foster), com uma vara de bambu. As razões do desentendimento são irrelevantes, nem sequer são apresentadas pelo filme. A única coisa que se sabe além da agressão é que dois dentes do agredido foram lesionados, mas as reparações serão cobertas pelo seguro de saúde.

O que o filme procura mostrar é a diferença de abordagem que o problema traz. E são quatro pontos de vista que parecem convergir para o ponto da civilidade e da possibilidade de uma convivência pacífica pós conflito, ao mesmo tempo que são diametralmente opostos quando melhor esmiuçados. Tanto pelo lado sexista. Os homens consideram normal que meninos, ingressando na puberdade, possam deixar aflorar o seu lado agressivo, e até formar gangues para demonstrar a sua ascendência sobre os demais  meninos do mesmo grupo e sobre  grupos adversários, enquanto que as mulheres abominam qualquer tipo de comportamento inamistoso, e remetem tais práticas a falhas de educação paterna.

Com o aprofundamento das diferenças entre todos, aos poucos vai se deslindando o que pareciam casais harmoniosos. Alan, um advogado aparentemente bem sucedido e sua esposa, Nancy, uma corretora de imóveis, mostram a sua face de uma relação já desgastada pelo tempo, onde a vida profissional já sufocou completamente a relação. Com efeito, durante toda o desenrolar da história, no interior do apartamento de Michael e Nancy, o diálogo entre os quatro é constantemente interrompido por ligações telefônicas de um cliente de Alan. Este não tem o menor pudor de voltar toda a sua atenção para o celular, enquanto os demais se perturbam com isso, ou fingem que não. Essas interrupções, a princípio, chegaram até mesmo me irritar, mas depois tornam-se hilárias. Assim como as constantes idas e vindas do casal visitante até a porta do elevador, para em seguida, por qualquer motivo, voltarem ao apartamento. E sempre por razões diferentes.

Polanski resolveu localizar a cena na cidade de Nova Iorque, meio querendo dizer aos americanos que não precisa voltar para o país para  filmar novos filmes. Assim com Lars Von Trier, que adora cutucar o ianques, no território deles, sem nunca ter cruzado o Atlântico. Mas acho que ele também quis dar um ar de cosmopolita às questões abordadas no roteiro. Nada melhor que a cidade americana, possuidora de uma diversidade cultural ímpar.

O Rei da Carnificina é o que se pode chamar de comédia, apesar de as piadas em nenhum momento arrancarem nenhum riso. Só sorrisos de canto de boca, mesmo porque sua força, como qualquer peça teatral, está nos diálogos. Não que a câmera não estivesse beirando a perfeição, conseguindo quebrar, com os seus movimentos, uma provável monotonia de uma filmagem quase que totalmente em um só ambiente. Certamente, não é o melhor de Polanski, que já nos deu obras como Chinatown, Tess, O Pianista, Oliver Twist, Dança dos Vampiros e Faca na Água, mas é divertido.


sexta-feira, junho 8

Prometheus de Ridley Scott

Um libelo feminista, onde duas mulheres estão no comando, e tomam todas as decisões, apesar de inconvenientes para alguns homens. Uma delas mostra, inclusive, como é capaz de se desfazer de uma gravidez indesejável. Uma visão freudiana poderia reduzir Prometheus, de Ridley Scott, a isso. A história, no entanto, nos remete aos principais segredos ainda não revelados  da humanidade. Quem somos, de onde viemos e por que estamos aqui. É claro que não se trata de um estudo científico ou filosófico. Scott apenas aponta uma direção, de forma absolutamente ficcional. Em sua abordagem cinematográfica, a humanidade foi gerada a partir de DNAs alienígenas, o que só transferiria a origem da vida para outro ponto do universo.

A história tem início em um passado incerto, quando um ser humanóide de outro planeta, às margens de uma catarata, resolve se decompor, ingerindo uma determinada substância com esse poder, liberando o seu DNA, sob as vistas de uma nave alienígena. Isso sugere, então que o ser humano, que viria surgir alguns milênios depois, teria essa origem. Inevitável a comparação com 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Com um diferencial, já que na história original, de Arthur C Clarke, é sugerido que foram os seres de outro planeta que induziram o desenvolvimento da capacidade intelectiva humana, sem haver doação de material genético.

Assim como em 2001, os alienígenas também deixaram pistas para serem localizados. Os monólitos da scifi de Kubrick são substituídos por desenhos em cavernas e artefatos arqueológicos. Estes dariam a posição exata no universo, de onde teria se originado a missão alien que trouxe consigo a possibilidade do povoamento da terra. E são os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que não amavam as mulheres) e seu namorado (noivo?, marido?) Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) quem matam a charada e convencem a um megamilionário à beira da morte, que a a expedição vale a pena.

A viagem para o planeta indicado por imagens pré-históricas, provavelmente produzidas pelos aliens que originaram a humanidade, é feita em animação suspensa por longos dois anos e alguns meses, sendo administrada por um robô de forma humana David que tem capacidades múltiplas. Mais uma referência ao 2001 e seu supercomputador Hall. E como o seu antepassado ficcional, ele tem também a capacidade de melar algumas situações, criando nódulos dramáticos indispensáveis à trama.

Na nave Prometheus surje também questões como quais são as prioridades da missão. Se esta deve preservar o caráter meramente científico, na busca pela origem da humanidade ou se há perspectivas econômicas a serem salvaguardadas. Elizabeth pelo lado da ciência e Meredith Vickers (Charlize Theron), herdeira do capitalista que financiou a expedição, se antagonizam, inclusive sobre quem é o verdadeiro comando da missão. Meio previsível saber para que lado a produção cinematográfica vai pender, diante do histórico recente de desfechos de situações semelhantes na indústria de Hollywood.

Daqui para frente, vão alguns spoillers. A expedição ao chegar ao planeta indicado, se depara com o que seria uma nave alien camuflada. A camuflagem só é percebida com o desenrolar da trama. Aparentemente deserta, e no interior de uma grande formação rochosa, aos poucos vai se descobrindo que há formas de vida no local. É também encontrado uma câmara de animação suspensa do que seriam os nossos progenitores genéticos. Um único ser dessa espécie teria sobrevivido a algum tipo de extermínio, que a princípio não está exatamente claro. Mas depois se descobre que foi provocado pela espécime que se consagrou em Alien, o oitavo passageiro, o inimigo número um da tenente Ripley.

David, em uma das idas até a nave, recolhe um material alienígena, e faz com que o namorado de Elizabeth ingira desavisadamente. Uma atitude que pareceu um mero experimento, mas que trouxe repercussões danosas a todos. Charlie se transforma em um ser altamente destrutivo, e assassina alguns tripulantes, reduzindo drasticamente a população.

O megamilionário caquético, que se passava por morto, na realidade ainda está vivo dentro da nave, e participa de uma nova ida para a nave alien, com o objetivo de despertar o ser encapsulado. O velhinho tem a ambição de encontrar uma fórmula de longevidade e prorrogar a sua miserável existência, e se possível com um pouco mais de qualidade. Ou seja, o que seria filantropia, passa a configurar uma ambição sem tamanhos.


Mas o despertar do espécime humanóide se mostra um erro. O ser é altamente hostil e passa a matar todos os que estão em sua volta, chegando a separar a cabeça do corpo do robô. A outra parte da expedição, que aguarda na Prometheus, assiste a tudo. Vickers ordena a decolagem imediata da nave, abandonando o restante da tripulação sobrevivente do acesso de cólera do alien. Também é descoberto que aquela nave seria uma arma de destruição em massa apontada para a terra. Parece que os “nossos criadores”, não teriam gostado do resultado alcançado.

O grande mérito do filme é a sua capacidade de gerar tensões. David, logo de início dá mostras do seu desapego a qualquer diretriz que coloque a vida da tripulação como prioridade. Mas não chega a demonstrar a paranóia delirante de Hall ou de outros intelectos eletrônicos que piram o cabeção, tão comuns em produções scifi. Ele é também a chave da sobrevivência de Elizabeth, deixando de lado o maniqueísmo onde há um lado essencialmente bom e outro inapelavelmente ruim. Achei uma sacada esse desfecho. Mas também aparece a questão salvar a pele ou a humanidade. Que achei meio clichê, mas orgânica para o desfecho da história, que se propõe a ser a protogênese de Alien o oitavo passageiro.

A estória, mesmo com as semelhanças com 2001, uma odisseia no espaço é instigante, e não faltam cargas de suspense, e alguma escatologia própria de Scott, que nos pede alguma fortaleza de nossos estômagos. Foi uma boa diversão. Só que o 3D é absolutamente dispensável, sob todos os aspectos. Só um jeitinho de os distribuidores cobrarem a mais por um produto que custa a metade.

sexta-feira, fevereiro 24

O Artista


Interessante a ideia de que estão fazendo deste filme. A originalidade de voltar ao passado de forma tão contundente. Algo como a paradona da Mangueira. Original por não fazer exatamente nada de novo, só devolver o silêncio pré-existente ao publico. Rodado em preto e branco e em dimensões 6x9, afrontando o formato wide screen popularizado até pelas televisões de lcd, led, plasma e outros tecnologias de ponta, O Artista ousa, fazendo o mais retrôs dos filmes da atualidade. E por isso mesmo consegue ser indicado ao Oscar, que será entregue no próximo domingo.

A história é simples e angustiante. Um ator de muito sucesso do cinema mudo se vê numa encruzilhada ao surgir o cinema falado. De espírito conservador, não vê a novidade da época como uma promessa revolucionária, e recusa-se a aderir a nova era do cinema. Aposta tudo na sua imagem que fazia muito sucesso nas telas e dá as costas ao estudio quando este ingressa nas produções sonorizadas.

Após rejeitar a ideia de atuar em um filme falado, no início dos anos 30, George Valentin investe em sua própria produção muda. O fracasso é retumbante, o que lhe leva à falência. De ator famoso, super vaidoso, passa a ostracismo rapidamente, o que o obriga a vender todos os seus bens. O seu motorista e secretário pessoal está há um ano sem receber salário. O casamento, que não era esses balaios todos, se desmonta totalmente e só resta a ele a bebedeira. Interessante ver uma cena em que ele sai de uma sala de projeção vazia onde é exibido o seu filme e o cartaz que emoldura a cena é "lonely man", ou alguma coisa assim...

Mas nem tudo está perdido na vida Valentin. Uma atriz que ele ajudou no início da carreira e passou sem dificuldades para o cinema falado quer ajudá-lo. Mas ele não está muito para aceitar o auxílio, porque no início da sua crise existencial ouviu dela palavras que o incomodaram muito.

Confesso que não foi uma coisa muito confortável assistir ao filme. A gente fica esperando a todo momento que a sonorização entre e nos devolva o conforto dos diálogos, sem a necessidade de subtitles. Mas não chega de ser interessante, embora não tenha nem de longe a lucidez e a graça de um Charlie Chaplin mudo. Também não sei se a mesma história se sustentaria de houvesse falas em O Artista. Tudo fica no exercício da imaginação. Mas, sinceramente, não podemos chamar esse filme de indispensável. Acho que em pouco tempo será esquecido, uma curiosidade que será lembrado somente pelos cinéfilos mais voltados a curiosidades do que a qualidade das produções.




Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch.

Direção: Michel Hazanavicius
Gênero: Romance, Comédia, Drama
Duração: 100 min.

quarta-feira, fevereiro 15

Drive


Se a gente assistir sem se preocupar em saber alguma coisa previamente, nem acompanhar os créditos, vai ficar pensando que acabou de assistir um filme de Tarantino, ou do Fincher. Ele tem uma pegada que não é muito comum na maioria dos thrillers de ação hollywoodianos, e talvez esteja aí a sua maior virtude. Meritos para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.

O roteiro coloca como pratagonista um mecânico de carros, que nas horas vagas é doublê em Hollywood e sonha em ser piloto de corrida, que não tem nome, e e chamado durante a trama apenas por kid (menino) por alguns dos outros personagens. Ele nos é apresentado como motorista de assaltos na cenas iniciais. Trabalha com eficiência, do tipo que impõe uma série de normas aos seus contratantes.

Nada se sabe de sua vida. Nem há nenhuma preocupação em construção de um tipo psicológico. Ele apenas é do jeito que é. Um cara de poucas palavras, que se dedica a suas atividades, mas ao mesmo tempo é capaz de transmitir uma ternura a sua vizinha e o filho dela. Ela é simpática aos seus acenos de gentileza. Garçonete em uma lanchonete, cria o filho só, enquanto o pai dele cumpre pena em algum presídio.

A história segue sem fazer juizos de valor. Não há os bons. Todos têm suas culpas a esconder, inclusive a garçonete, que se envolve emocionamente com o driver. E esconde o caso do seu relacionamento conjugal, quando este deixa a prisão. A questão dramática passa a ser se kid vai ou não ficar com a garçonete e seu filho.

A trama toma rumo de filme de ação quando quando o marido da vizinha é solto e ameçado violentamente por ex-companheiros de trapaças para regressar ao crime. Uma antiga dívida tem de ser paga com fruto de roubo. O kid se propõe a ajudar, para evitar que a sua vizinha e o filho dela sejam vítimas dos chefões da bandidagem.

A coisa vai ficando mais uma vez enrolada, porque não se trata de um crime comum. É um roubo a outro mafioso que é realizado, e o protagonista se percebe em um olho de furacão. Como uma casca de cebola, os fatos vão sendo apresentados como uma crise cada vez maior, onde a vida de ninguém está a salvo. Ameaças surgem de todos os lados. O clime fica cada vez mais tenso, até a cena final.

Vale destacar ainda a trilha sonora de Drive. Fantástica. É como se a história estivesse sendo contada pela música e tivesse uma trilha visual, de tão intensa e pertinente, ao mesmo tempo que não é reduntante, não se propõe apenas a criar um clima. Pelo que li na net, deve tá estreando no cinema após o carnaval. Pode assistir, se gostar de filme de suspense.

O filme tem alguma coisa de Selvagem da Motocicleta, do Coppola, que assisti faz tempo. Quem tiver visto, vai entender a referência que eu falo. Valeu a dica, mais uma vez, Anna!

Título original: Drive
Lançamento: 2011
País: EUA
Direção: Nicolas Winding Refn
Atores: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks.
Duração: 100 min