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terça-feira, agosto 8

Handmaid's Tale e o fundamentalismo religioso no Brasil

A moda agora é assistir séries, fazer maratonas, ficar final de semana totalmente dedicado aos capítulos de uma nova temporada. Apelos e serviços não faltam. Tudo ao alcance de uma assinatura de uma operadora de TV por Internet. Com tanta demanda, a quantidade de bagulhos aumentou exponencialmente, também. Porcarias para todos os gostos, salvo raras exceções.

Handmaid’s tale é uma dessas produções que estão bem acima da média. Pelo menos a primeira temporada que foi disponibilizada apenas através de serviços considerados piratas, no Brasil. Se quiserem descrições sobre o conteúdo, há esse link no Wikipédia. Mas a reflexão mais importante, não é bem esclarecida nos sites que encontrei.

A história trata de uma distopia em um futuro próximo, onde o poder é assumido por fundamentalistas cristãos,  que adotam a bíblia como o código de ética da sociedade. É criada uma sociedade falocentrista, onde as mulheres sequer tem direito a propriedade ou ao trabalho. Como a sociedade está declinando por conta da baixa taxa de natalidade, homens da estrutura do poder, casados com esposas inférteis, são autorizados a estuprar suas aias (mulheres de classes inferiores). O ato recebe o nome de cerimônia, e é assistido pela esposa do casal, que “abençoa” a relação em nome de uma maternidade, que irá assumir, com o sequestro da criança de sua legítima mãe.  

A bíblia é o eixo que ordena a sociedade e seus novos costumes. A relação extraconjugal é justificada através do patriarca Abraão, que também teve relações com a sua escrava. A mulher tem um papel totalmente secundário. Algumas são casadas e administram as suas casas, e as demais são serviçais não remuneradas, com os úteros apropriados pelo Estado, que define como, quando e aonde elas irão copular, com o objetivo de apenas gerar filhos para a sociedade patriarcal.

Para mim, a série, é baseada em um livro premonitório escrito há 32 anos. Na época em que foi escrito,  o Talibã sequer havia chegado ao poder. A instrumentalização das crenças e do mito da existência de um ser supremo, metafísico, onisciente é levada às últimas consequências na obra ficcional, como já acontece em alguns países mulçumanos.   
   
A lei que vale não é exatamente o que está escrito, mas a interpretação que se dá ao texto reconhecido como religioso. Assim, é fácil demonizar o inimigo, e glorificar os seus aliados. A guerra civil nos Estados Unidos, que promove o surgimento da república de Gileade, fundou-se de forma progressiva. Primeiro, as mulheres foram proibidas de ter propriedades e de trabalhar, em seguida, iniciaram-se as perseguições aos dissidentes, assim como ocorreu aos judeus na Alemanha. Em terceiro, com a vitória política e militar, instaura-se uma ditadura religiosa.


Infelizmente, no Brasil, já se pode ver passos sendo dados na direção do fundamentalismo religioso, a quem tem um olhar mais atento. O primeiro passo dado é a criação de novos conceitos que desqualifiquem o inimigo. Como “escola sem partido”, que é a forma de bloquear qualquer possibilidade de informações sobre sistemas políticos de esquerda, e a “ideologia de gênero”, que tenta reduzir a meros comportamentos a diversidade cultural. Claro que todo isso condenando movimentos políticos de esquerda e de emancipações das minorias. Ainda está distante o Brasil se transformar em uma Gileade, mas quando há gente que quer o retorno de uma ditadura militar no Brasil, e um proselitista de torturas pode chegar ao poder, talvez a distância não seja tão grande assim.

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