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domingo, março 27

Sonho Tcheco


Não sou muto afeito a documentários. Tenho sempre a impressão que a história poderia ser mais objetiva, contada em menos tempo e que a direção enxerta passagens supérfluas apenas para o filme chegar a longa metragem. Com o Sonho Tcheco também é assim, mas apesar disso é bem interessante por abordar uma questão que diz respeito a todos. A nossa relação com o consumo e como os nossos impulsos reagem diante de determinadas possibilidades de compra.

Sonho Tcheco não é um filme novo. Foi rodado em 2003, pelos estudantes de cinema na Universidade de Praga Vít Klusák e Filip Remunda, como trabalho de termino de curso. A dupla resolveu documentar uma campanha publicitária de um novo e irreal supermercado, o Sonho Tcheco, desde a sua concepção até a inauguração, que na realidade é o fim de uma farsa. Os diretores não sabiam o que de fato iria acontecer, nem mesmo quais eram os seus objetivos, conforme contam na produção.

A encenação é completa. Os diretores travestem-se de gerentes de supermercado usando Hugo Boss, rótulos de produtos são criados e uma campanha publicitária em larga escala inunda Praga. Outdoors, busdoors, cartazes, rádio e televisão anunciam para o dia 31 de maio a inauguração do estabelecimento comercial, praticando preços bem mais baixos que a concorrência. É claro que tal notícia, como em qualquer outra cidade, iria causar consequências, iria atrair supostos clientes. meio óbvio. É claro que muita gente seria enganada.

Vale destacar que na República Tcheca, como mostra o filme, e talvez seja essa a maior virtude da película, o consumo é um hábito que beira a idolatria pela população. Depois de décadas com o mercado tutelado pelo estado, em tempos que conseguir produtos de primeira necessidade em quantidades mínimas demandava horas e horas em filas intermináveis, a possibilidade de ter quase tudo à mão era motivo de festa. Famílias se divertem com o consumo, ao ponto de passar o dia todo percorrendo gôndolas em hipermercados.

Também é digno de nota o momento político que o país atravessava, às vésperas de um plebiscito, onde se vendia que o ingresso na Comunidade Europeia seria o melhor dos ceus. Isso não fica muito claro, mas é passada a ideia de que os diretores não concordariam com a adesão da população, acreditando haver engodo na campanha política em curso. Tapeação talvez nas mesmas proporções de um supermercado imaginário documentado pelo filme. Quem quiser assistir, há sites na internet que disponibilizam. Vale a pena.

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