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sábado, setembro 6

Circo de horrores

Há um tempo assisti a um filme muito bom, chamava-se Johnny vai a guerra, único filme roteirizado e dirigido pelo escritor Dalton Trumbo. Conta a história de um soldado que durante a primeira guerra mundial foi atingido por uma explosão e ficou reduzido a apenas o torso, sem braços, pernas, cego, surdo e sem face. Foi mantido vivo apenas para estudo científico e era sempre dopado quando entra em convulsão, que na realidade era um esforço para ser entendido. Perto do final do filme o soldado Johnny consegue finalmente estabelecer contato com o mundo através de uma enfermeira que entendia código morse. Seu único pedido foi ser posto em um desses circos de horrores que eram muito comuns no final do século XIX e início do século XX. Ele queria ser exibido como uma resultante da estupidez da guerra, ao lado de anões, homens elefantes, mulheres barbadas, para que todos refletissem sobre o que a beligêrancia era capaz de fazer com a humanidade. É claro que os senhores militares rejeitaram a proposta.

É mais ou menos como eu vejo essas para-olimpíadas. Um grande circo de horrores. Pessoas amputadas jogando voleibol em mini-quadras com redes coladas no chão, cegos se chutando em imaginárias partidas de futebol, aleijados levando quedas de suas cadeiras de rodas simulando partidas de basquete, e por aí vai. O espetáculo é ao meus olhos um quadro dantesco.

Sei que há os árduos defensores dessas atividades para-esportivas, que alegam ser este um meio de reintegração social, uma esperança de uma vida normal na para os deficientes. E até acho que possa ser. Mas na minha precária avaliação, não é assim que se resolve um problema tão delicado. Basta lembrar que uma olimpíada reúne apenas uns 15 mil atletas de alta performance quando a população mundial é de 6 bilhões. Ou seja, a grande maioria continua só na torcida.

Em vez de se criar essa falsa integração de aleijados, cegos, retardados mentais através de pseudos esportes, mais honesto seria integrá-los efetivamente ao meio social como qualquer cidadão comum. Dar a eles o direito de trabalhar, estudar, se deslocar em suas cidades, ingressar em locais públicos, enfim, ser um igual a todos nós, mesmo tendo de superar alguns desafios.

Enquanto se fala de um Brasil sendo uma potência para-olímpica, conquistando a 15ª posição no ranking de medalhas, posto bem mais acima do que os nossos atletas olímpicos, um cadeirante é incapaz de atravessar uma rua da maioria das cidades do Brasil simplesmente porque as calçadas não são rebaixadas. E quando são, há sempre um carro estacionado junto ao rebaixamento impedindo o acesso. Os deficientes auditivos só têm direito a duas horas de programação de televisão usando a tecla sap, e a literatura disponível em áudio ou braille é mínima. Em Fortaleza, cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes, há apenas uma escola para surdos-mudos e uma escola para cegos. Na maioria das praças esportivas, cinemas, teatros, bibliotecas não há sequer meios de acesso. Na própria Assembléia Legislativa, batizada pomposamente de casa do povo, o elevador dedicado aos deficientes fica constantemente desligado, e para acioná-lo é necessário descobrir aonde e com quem está a chave.

Enquanto a situação não muda no país, continuamos torcendo no circo de horrores, transmitido especialmente através das TVs por assinatura.

PS. Não sou politicamente correto e acho que esse politicamente correto tão defendido em verso e em prosa é uma farsa.

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