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terça-feira, novembro 25

Entre o real e o imaginário


Estamos a pouco mais de um mês da posse de Barack Obama. Muita coisa se pensou, se disse, se escreveu sobre o assunto que na minha modesta opinião será julgado pela história como um dos principais acontecimentos do século XXI. Deve disputar a primazia com a destruição das torres gêmeas de Nova Iorque. O novo presidente não é só o primeiro negro a chegar ao principal cargo político do mundo.

É também o primeiro homem de origem africana ocupar a presidência de um país ocidental. Coincidentemente, o fato acontece exatamente na nação considerada a mais racista de todas, da atualidade, já que a África do Sul aboliu o apartheid há alguns anos e a Alemanha deu as costas ao seu passado nazista. Nas aparências, pelo menos é assim.
Os mais otimistas falam que é o começo do fim de todo o racismo, ou melhor, do etnocentrismo, que se estabeleceu no planeta.

É essa a idéia que passa, principalmente quando um discurso de vitória de Obama é acompanhado pelas lágrimas de Jesse Jackson, que por duas vezes tentou sem sucesso ser o candidato dos democratas à presidência. E Colin Powell, até então republicano, virou de lado, muito provavelmente movido por questões étnicas. Parece que aquele país dividido entre segregadores e segregados, discriminantes e discriminados finalmente encontrou o caminho da paz social, com fraternidade entre as diversas etnias. De aparências também se vive.


Bem, pode até ser que seja assim. Mas é bom lembrar que independente de Barack ter saído vencedor com a torcida da maioria da humanidade, o democrata conquistou apenas três por cento dos votos a mais do necessário para vencer as eleições. 53 a 47% significa uma margem muito estreita. Seria de se esperar uma vitória acachapante, em face da crise econômica gerada no seio do governo republicano de Bush e todo o descrédito que esse presidente incorpora. Um mentiroso de marca maior, flagrado inventando estórias para invadir um desarmado Iraque em busca tão somente petróleo, uma vez que era de seu conhecimento a total inexistência de armas químicas.. Nunca um presidente foi tão impopular, desde que inventaram pesquisa de opinião e isso já vai séculos.

É claro que a vitória de Obama se reveste de simbolismos os mais diversos. Há menos de 50 anos, os bronzeados norteamericanos não podiam entrar em escolas de brancos, rezar em igrejas de brancos ou sentar-se ao lado de brancos nos ônibus. O penúltimo presidente democrata, Jimmy Carter, hoje dirigente de uma ONG que constrói casas para os pobres, mesmo considerado um liberal, era freqüentador de igreja segregacionista, o que nos idos de 70 foi considerado uma heresia aos ditames liberais de seu partido. Mais ou menos.

Um negro, descendente de queniano, filho de mãe branca, criado por um padrasto asiático é o que se pode chamar de presidente globalizado. Tão globalizado quanto a morte da princesa Diana. Uma inglesa, que namorava um egípcio, morta em um acidente de carro alemão, guiado por um motorista belga, em uma cidade francesa. Que nem o Lula, primeiro operário a chegar ao poder no Brasil, não acredito que as coisas fiquem mais fáceis para os negros chegarem ao poder, como não creio que as portas das instituições governamentais estejam mais abertas para a classe trabalhadora. Apenas um pé foi colocado na soleira.

O importante agora é não deixar que a reação se organize e venha querer debitar alguma falha que possa vir a acontecer na genética do novo presidente.
Não creio que haja grandes mudanças a partir de 2 de janeiro, quando o Obama tomará posse. Não acredito que as relações internacionais dos Estados Unidos sejam tão melhor do que as atuais, mas com certeza devem melhorar, porque pior não dá.

Não acho que a face dos Estados Unidos irá se transformar ao ponto de extinguir o antiamericanismo que reina mundo a fora. Não tenho porque pensar que o aquecimento global é página virada e que a natureza vai continuar de pé ao longo dos próximos séculos. Mas certo estou de que a vitória deste negro vai trazer a todos nós muitas reflexões e possibilidades de novos sonhos até então impensados.

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