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domingo, novembro 23

Deslocada, estranha e aqui presente


Era o toque de campainha mais previsível que conhecia. Ao mesmo tempo, completamente envolto em mistério. A cada primeiro sábado de dezembro, ás vésperas de seu aniversário, Eva Peterson recebia um ramalhete de doze rosas, com remetente desconhecido. Era o porteiro avisando a chegada de uma encomenda endereçada a ela, rotina que se repetia há 10 anos. Nas primeiras três entregas, quando ainda era uma jornalista recém egressa dos bancos da universidade de jornalismo e da especialização, ainda se perturbava com aquela oferta de flores. Mas a cena, de tão repetitiva ficara enfadonha.

A princípio, nos primeiros anos, chegou a imaginar que pudesse ser algum pretendente. Afinal de contas, com vinte e poucos anos, o mercado amoroso ainda habitava o seu campo de preocupações de longo prazo. Porém depois de alguns casos dolorosos, pouco satisfatórios, decepcionantes, até, desistiu de investir nessa área e focou-se totalmente na profissão. Hoje, aos 35 anos, é uma jornalista econômica respeitável, com coluna em revista de circulação nacional e correspondente na capital cearense de um jornal de circulação nacional. Há alguns anos, seria inimaginável alguém da longínqua província de Fortaleza alcançar projeção nacional. Graças a Internet e a um blog, que criou despretensiosamente para comentar os acontecimentos econômicos do país, alcançou projeção nacional quando antecipou com bastante antecedência a crise econômica mundial de 2008. Conseguiu patrocinadores e recursos suficientes para adquirir um confortável porém compacto apartamento na avenida Beira Mar, o metro quadrado mais caro da cidade. O imóvel ainda não está totalmente quitado, mas as suas fontes de renda lhe asseguram uma generosa tranqüilidade em termos financeiros.

Com a exceção da crise econômica que a projetou, Eva Peterson não se destacava no meio jornalístico pelo ineditismo de seus comentários e artigos. A sua vantagem diante dos concorrentes estava situada na facilidade como lidava com a língua portuguesa (além de possuir fluidez no inglês, italiano, espanhol e francês). Seu estilo era poético e atraente. Vistoso sem ser rebuscado e sempre ancorado numa clareza cristalina como expunha as suas idéias. A entrada pecuniária do apartamento foi propiciada por vantajosos prêmios em dinheiro que recebeu em reportagens publicadas, desde quando ainda foca, economizados durante cinco anos.

Eva acreditava piamente que a sua trilha profissional foi facilitada pelo sobrenome que carrega. Filha de pai sueco que se apaixonou por sua mãe, cearense quando veio passar férias em Fortaleza há 40 anos. Naquela época ainda não se falava em turismo sexual, mais por estratégia de marketing turístico do Governo e do setor empresarial do que propriamente a inexistência da prática, hoje tão comum em todo o litoral brasileiro, principalmente. Peterson lhe dá um toque de sofisticação. Afinal, o Brasil ainda se curva, mesmo após mais de cinco séculos de história ao que vem do berço da civilização ocidental. Ainda mais quando se trata de uma grife vinda da Escandinávia. Já não mais havia nomes de jornalistas de fantasia, como foi tão comum no passado, quando jessildas da Silva se transformavam em Jessy Jungle, mas uma assinatura desta monta causava sempre uma boa impressão no interlocutor, via de regra um aculturado e com os olhos intelectuais voltados para o velho continente. De fato, o nome lhe fazia muito bem.

Seu pai, Ronnie Peterson, conheceu sua mãe Estrela na noite de Fortaleza, e logo se encantou com aquela morena de sorriso aberto e franco, dona de um belo shape, e transbordando simpatia por todos os poros. Aquele contraste cultural e a diferença de idade de quase 15 anos fez parte da magia e o levou a pensar em morar neste lado do Atlântico. Por aqui se instalou por dois anos, e conseguiu uma vaga de professor visitante na Universidade Federal do Ceará, o que lhe permitiu de exercer o seu ofício de professor de sociologia e antropologia cultural. Mas ao final do contrato temporário com a instituição, teve de retornar aos gélidos ares suecos, acompanhado de sua esposa. Eva nasceu em solo escandinavo, no breve intervalo entre o desembarque e o retorno de sua mãe ao Brasil dois anos depois. Estrela não se adaptou a aquele lugar tão diferente de sua cidade natal, principalmente por não conseguir estabelecer qualquer convívio social. A língua sueca não era nada amistosa para ela, e se irritava em não ser compreendida em seu inglês escolar. Dois anos, ainda, foi o extremo esforço que conseguiu alcançou. Estrela e Ronnie não chegaram a se separar legalmente.

Ronnie, ferido em seu orgulho de macho por não ter conseguido impor a sua vontade a sua esposa, ao ser abandonado entrou em depressão. Com dois meses surgiu um câncer de pulmão e pouco mais de um ano desde o retorno de Estrela, faleceu. Não sem deixar uma boa pensão a sua ainda legalmente esposa. Os recursos provenientes da península escandinava asseguraram a paz financeira para a vida de Estrela e para a boa educação formal de Eva. Estudou em bons colégios, mas foi uma aluna só mediana. Somente o português e a matemática eram suficientes para prender a menina e depois a adolescente aos estudos. A facilidade com as duas matérias lhe impôs a carreira de jornalista.

Como muitas de sua idade, na adolescência Eva era uma jovem atraente. A miscigenação sueco-brasileira lhe deixaram traços finos, pele alva, cabelos negros, porém de estatura não muito favorecida, herdada de sua mãe. Por isso, saltos altos desde tenra idade lhe fizeram companhia. A sua beleza, contudo, não passava despercebida em meio ao sexo oposto, e alguns namoricos com garotos de sua idade aconteceram. Nada que merecesse muita importância. A sua vocação para leituras criou um abismo intelectual entre eles e ela. Em pouco tempo, quando rompia os primeiros passos da atração física, meramente instintiva, logo a companhia masculina se transformava em algo enfadonho, cansativo. Seus interesses se voltavam a questões fora do campo mental de seus ficantes. Em pouco tempo, estava preferindo ocupar o seu tempo com outras atividades. Até dormir lhe era mais convidativo do que uma noite regada a bebidas e papos juvenis. As meninas nunca lhe atraíram, em qualquer sentido, portanto homossexualidade sempre esteve fora de questão. A maioria das meninas, para ela, eram cérebros desinteressantes que se voltavam apenas a planejar um casamento de status. De sorte que as companhias que lhe eram mais agradáveis ou não tinha interesse por ela ou não exerciam nenhum fascínio em seus hormônios.

Um comentário:

fatima disse...

Olá!! depois de alguns dias que não passo por aqui, eis o susto! Quem apagou a luz???

Explico, explico: é que sempre diminuo o brilho do monitor para poupar os olhos, e a questão fundamental ficou mais escura que o normal. Ave! Mas continua excelente.

Um abraço e luz pra vc.