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sexta-feira, novembro 30

De olhos bem abertos


Um breve apagão de 4 horas de duração em um bairro nobre transforma o cenário em praça de guerra. Cerca de 60 pessoas aproveitaram a falta de iluminação pública no Edson Queiroz, próximo ao shopping Iguatemi e assaltaram quem aparecia pela frente. A ação era rápida. De armas em punhos de alguns, a turba aproveitou a hora de grande movimento de veículos na área e levaram celulares, carteiras, bolsas e relógios de pedestres e motoristas que transitavam em velocidade de tartaruga por conta do engarrafamento. O máximo que o policiamento mínimo presente fez foi deter quatro jovens, mas nenhum pertence foi recuperado. A tática consistia em tomar os objetos e passar imediatamente para algumas meninas que acompanhavam o arrastão.

Os mesmos arautos de sempre clamam por mais segurança. Pedem um ação mais enérgica do estado na prisão de infratores e a interrupção da escalada do tráfico de drogas. Afinal de contas um dócil povo teve o seu caráter mudado somente a partir da introdução de derivados da coca no mercado de drogas local. É culpa do crack a necessidade de roubos atrás de roubos para assegurar o consumo dos viciados. São necessárias somente algumas baforadas para se ficar absolutamente dependente das pelotinhas que são encontradas agora facilmente nas mãos dos traficas na favela mais próxima de sua casa.

Os mais saudosos pedem de volta o tempo em que se podia andar em paz, a qualquer hora do dia ou da noite pelas ruas desertas, ou não, da cidade. Culpam os políticos corruptos que nada mais querem a não ser a locupletação fácil nas burras do poder. Uma vez interrompido o fluxo do tráfico, boa parte dos problemas advindos deste comércio, como diria Mano Brown, estariam sanados.

Eu tenho outra visão. A droga é somente o efeito catalisador dos eventos. Se a fome dá para enganar, o vício não. Este empurra na psiquê de seus usuários que ou se chega à droga ou não há felicidade no mundo real. Os efeitos alcançados são a única possibilidade de se vislumbrar o paraíso.

Lembro-me de um filme que mostra um ataque de mortos-vivos sobre a população sadia. A reação é a eliminação a tiros ou golpes de facão de todo o agressor perceptivelmente transformado por um vírus alienígena. Não há saída ou clemência. Somos nós ou eles. Ou o desejo de carne humana é saciado ou todos viram alvo de metralhadoras na próxima esquina.
No mundo real, a visão das vítimas da violência ainda não chega a perceber as levas de viciados como monstros tirados de um trailler. Mas está bem perto desse dia chegar. Essas mesmas pessoas que hoje saem atacando a tudo e a todos, ou seus pais, um dia foram dóceis, capazes de repetir que são pobres, porém honestos. Que são tão honrados moralmente, ou mais até do que os habitués freqüentadores dos mais acesos points da babilônia citadina.

E as pessoas que agora estão ilhadas em seus condomínios com segurança high-tec 24 horas por dia nada mais querem que estes cidadãos de quinta categoria, desprezados quando pedem um trocado, voltem para o seu estado de mansidão original. Que fiquem esperando meses a fio, até a próxima construção de um espigão de apartamentos de 400 metros quadrados, quadras esportivas, sauna, piscina, e todos os badulaques da sofisticada construção civil necessite de um pedreiro, um encanador, um eletricista. Que a próxima filha do ricão precise de 4 babás para o seu filhinho e que se contente com o salário mínimo e nunca tire nem uma colher de leite em pó para levar ao seu lar onde quatro dos seus próprios filhos sobrevivem em meio a condições miseráveis.

Ninguém quer ver esta "gentalha" que inferniza as ruas, praias e praças como seu igual. Alguns sonham com a volta de grupos de extermínios, se é que eles ainda não existem. Afinal de contas, em um passado não tão distante eles já foram tão dóceis e só gostaram de admirar das calçadas ou de um ônibus apinhado os nossos carrões com ar condicionado, dvd, air bag, GPS e os todos os penduricalhos tecnológicos que assanham o consumismo mundial.


Ninguém quer crer que o bombardeio de publicidade sempre cercado de vistosas, desejadas e sensuais mulheres também incita as paixões daqueles que recebem por mês menos da metade do preço de um bolsa ou um tênis de grife. Talvez, a tão condenada droga que pulula lares ricos e pobres, que semeia guerras de gangues e mata de overdose filhos de desembargadores e capitalistas selvagens seja apenas um catalizador rumo a uma situação de tal forma insustentável que fará com que os homens no topo da pirâmide finalmente se humanizarem um pouco. Esta é a luz do fim do túnel que vislumbro. Mesmo que demore décadas, ou séculos. Um pouco mais de afeto para os que tanto necessitam de uma mão amiga.

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