Follow by Email

quarta-feira, junho 29

Meia Noite em Paris


Woody Allen volta a ser Woody Allen no Meia Noite em Paris. O personagem protagonista é visivelmente o diretor-roteirista, se tivesse uns 50 anos a menos. Como o tempo passou, ele escalou Owen Wilson para o papel de Gil Pender, um roteirista hollywoodiano que se encontra infeliz com a sua condição escritor de filmes rasos, porém de sucesso, para as produtoras de cinema da California. Quer mudar o seu destino e viaja a Paris, ao lado de noiva e futuros sogros buscando inspiração para concluir o seu primeiro romance para não precisar mais se envolver com a indústria do show business de Los Angeles.

Porém não são só os roteiros que escreve que não o satisfazem. Às vésperas do casamento, demonstra uma certa tibieza com a sua decisão de ir ao altar, porém com uma alguma resignação. Afinal todos têm diferenças entre si, ele e a noiva também. Nada mais que isso. Os futuros sogros não gostam do quase genro, surgem diferenças até de ordem política. Eles são republicanos, em toda a extensão que isso representa e o protagonista, não. Bem woody Allen mostrando de forma escrachada toda a defesa empedernida do way of life da América que os americanos Wasp ainda se apegam. O diretor trata com ironia deslavada as tentativas dos sogros ianques de desqualificar a cultura francesa, sempre se colocando em um pedestal acima.

O desconforto que o roteirista tem com as produções de Hollywood são de ordem intelectual. Ele é bem remunerado e a noiva o incentiva a continuar na carreira. Porém ele não quer voltar a trabalhar em obras sem nenhuma profundidade ou qualidade artística. Woody Allen também despreza esse cinema da costa oeste. Tanto é assim que nunca foi buscar as estatuetas da academia que já arrematou. Prefere Nova Iorque ou paragens europeias.

Em Paris , Gil e a noiva Inez (Rachel Mc Adams) tem o azar (ou a sorte) de encontrar um ex-professor dela, Paul (Michael Sheen) que arrota cultura insinuando-se ser superior aos demais seres vivos. Porém, não demonstra nenhuma empatia com as obras visitadas ou com os autores. Prefere fazer descrições, empulhar dados e desfiar datas a falar sobre a essência das pinturas, arquiteturas ou esculturas. É claro que Inez, republicana como ela, se derrete com aquele ar blasé do professor. Gil, visivelmente descontente com a situação, busca programações alternativas e se desgarra da noiva durante as noites parisienses.

Depois de tomar alguns vinhos em um determinado bar da capital francesa, Gil se ver surpreendido por um carro antigo com aparência de recém saído de fábrica que lhe oferece carona. Não se relutar, ele aceita o convite e descobre que os seus hostess são nada menos que o casal Fitzgerald, que o leva para uma série de lugares, onde o protagonista conhece pessoas como Hemingway, Salvador Dali, Pablo Picasso, T.S. Eliott, e Gertrude Stein, que aceita ler o seu livro e oferecer sugestões para melhorá-lo. Afinal, há muitas diferenças entre roteiros rasos e obras literárias de qualidade e Gil ainda está inseguro quanto aos seus dotes literários. Gertrude era amiga pessoal de Picasso, Matisse, James Joyce e Hemingway e uma espécie de alterego de todos.

Gil se vê entre dois mundos. Aquele que ele tanto sonhava e que julgava ser o maior momento da evolução humana, os anos 20, na cidade que considera o modelo para humanidade, Paris, e o tempo real, onde uma noiva meio ou muito sem sal o aguarda para uma vida em que já está acostumado a levar e que apesar de tudo, acostumou-se e vive sem sobressaltos.

O contato com uma outra realidade possível lhe põe dúvidas. Acho que da mesma natureza das que teve quando resolveu separar-se de Mia Farrow e passou a viver com a enteada Soon Yi. O desfecho a partir daí torna-se previsível, principalmente porque foi impulsionado por incidentes de natureza carnal. Ele tem que decidir entre continuar com a sua vidinha ou se aventurar mudando-se para Paris e todas as representações que isso significa.

O filme é bastante instigante e nos leva a pensar sobre vidas possíveis, e a certeza que de só saberemos sobre o que iremos escolher. Os "ses" se perdem na linha do tempo. Muito bom filme, que não poupa nem os medalhões da cultura mundial, dando-lhes traços caricatas. Impagável Dalí sempre tão preocupado com as formas dos rinocerontes.

PS. Filme digno de um oscar, que nunca ganhará por ser um desafeto da academia.

Um comentário:

Taíssa Cazumbá.:De Per Si:. disse...

Obrigada por existir!!!
Adoreiiii