domingo, janeiro 9

Da série é por isso que não leio jornal III

Nas páginas de política de O Povo de hoje foi publicada mais uma pérola. Uma canhestra tentativa de manual de xadrez. Pra que isso? Será que alguém consegue jogar só seguindo essa aberração?


"Rei: move-se para todas as direções, mas só uma casa.


Dama: é a peça mais poderosa. Defende o rei.


Bispo: move-se pela diagonal, sendo que nunca poderá mudar a cor das casas em que se encontra. Seu valor é considerado superior ao do cavalo.


Cavalo: é a única peça que pode pular sobre as outras, tanto as suas quanto as adversárias.


Torre: movimenta-se em direção reta pelas colunas ou fileiras. A torre tem mais valor que bispo e cavalo.


Peão: movimenta-se apenas uma casa para frente e captura outros peões e peças em diagonal".

sábado, janeiro 8

As viagens de Gulliver


Quando li o livro As Viagens de Gulliver, escrito por Jonathan Swift, no século XVIII, era ainda criança. Até que achei divertido. E ainda criança assisti uma das versões cinematográficas da história. Já não gostei tanto assim. Mas a produção atual, lançada em 2010 e que estreia no Brasil na próxima sexta-feira consegue ser muito pior. A menos que você seja fã incondicional do ator canastrão Jeff Black, quer quer transformar tudo o tempo todo em rock, vai conseguir ver alguma graça. Até um clássico escrito a quase 300 anos é pontuado por riffs de guitarra, entoados, claro, por Black que faz o personagem protagonista.

A história do filme se inicia em uma editora, onde o Gulliver (Black) é o entregador de correspondência que se apaixona pela bela chefe de redação. Bem ao estilo dos filmes de Renato Aragão. Em tese, o feio e gordo personagem principal não teria nenhuma chance com a mocinha. Acontece para impressioná-la ele se diz autor de artigos sobre viagens que realizou ao longo da vida. Ela pede para ver seus escritos. Espertamente, o caricato Gulliver se utiliza do crtl+c , crtl+V e monta uns textos extraídos na Internet que impressionam a editora pela qualidade. Ato contínuo, sem desconfiar de nada, mando-o para Bermudas para produzir alguma nova coisa que possa ser utilizado em manuais de turismo.

A velho e sacado triângulo das Bermudas, local mistificado como de acontecimentos estranhos, bizarros e inexplicados coloca Gulliver e seu barco alugado na rota para Liliput, terra de um povo minúsculo, como todos estamos carecas de saber. O gigante é preso, se liberta e apaga um incendio com uma michada, tornando-se heroi reverenciado por toda a população, menos um general, que quer desposar a mão de uma princesa, transformada em amiga de Gulliver. O personagem título aproveita-se do atraso e desconhecimento cultural daquela gente e passa a ser "autor" de vários clássicos como Guerra nas Estrelas, Titanic e até uma versão reduzida com grupo Kiss, interpretados em palco de teatro.

Sem graça, mal ajambrado e enfadonho, o filme não se furta ainda de exibir todos os trejeitos faciais de Black já por demais explorados em outras produções igualmente fracas do ator. Não sei porque eu assisti este filme, porque eu já sabia que não prestava. Melhor procurar outra coisa pra fazer.


Dirigido por Rob Letterman (do também fraco “Monstros vs. Alienígenas”), “As Viagens de Gulliver” ainda tem uma versão em 3D. É demais para minha paciência.

sexta-feira, janeiro 7

Um pouco do mundo real

Achei interessante essa análise publicada pelo site Terra. Acho que já devo ter escrito coisa semelhante aqui, em algum post. São pensamentos parecidos, muito parecidos com os meus, e que merecem ser lidos, digeridos, e percebidos.

Por uma sociologia da Era Lula

Fernando Borges/Especial/Terra
Lula recebe as chaves da cidade de São Bernardo do Campo
Lula recebe as chaves da cidade de São Bernardo do Campo

Edmilson Lopes Júnior
De Natal (RN)

No final da década de 1950, Wright Mills, um dos mais brilhantes cientistas sociais norte-americanos da segunda metade do século XX, chamava à atenção, em uma obra intitulada A imaginação sociológica, para o fato de que as pessoas tendem a reclamar dos seus problemas cotidianos buscando causas explicativas no seu entorno imediato. Para ele, a maioria das não consegue estabelecer relações causais entre os sofrimentos vivenciados individualmente e as estruturas sociais mais amplas, expressas em tendências econômicas, dinâmicas demográficas e relações de classes, dentre outras. Ao contrário do que pensava o grande sociólogo não são apenas as "pessoas comuns" que agem assim. Ultimamente tem sido essa também essa a reação de muitos dos que se pretendem analistas do mundo social no Brasil. Em especial quando o objeto de análise diz respeito, direta ou indiretamente, ao governo do agora ex-presidente Lula.

Na última semana, marcada pela despedida de um presidente com inéditos 87% de avaliação positiva por parte da população, assistimos ou lemos os nossos "bem pensantes", especialmente aqueles auto-identificados como "cientistas políticos", produzindo lugares-comuns e vendendo-os como análises científicas. Nestas, via de regra, a popularidade do ex-presidente resultaria de sua "capacidade de comunicação", dos ventos favoráveis da economia internacional e do Programa Bolsa-Família. Platitudes e lugares-comuns substituem, assim, a necessidade de perscrutar com mais rigor a realidade.

Poucos analistas se preocuparam em produzir alguma explicação para o espantoso fato de que a popularidade do ex-presidente tenha ocorrido concomitante a uma das mais agressivas reações dos principais órgãos da imprensa nativa a um Presidente da República. Para usar surrado bordão, nunca antes na história deste país um mandatário foi tão hostilizado, quando não ridicularizado, como o Lula durante os últimos oito anos.

Como o bolsa-família, o Prouni e as políticas de micro-créditos, dentre outros instrumentos de transferência de renda, não atingem, nem de longe, aquele contingente populacional que, a cada nova pesquisa, identificava o Governo Lula como "ótimo" e "bom", restou aos "bem-pensantes" apelar para o velho preconceito de classe: os "de baixo" não teriam muito apreço pela ética. Ou pelas instituições democráticas.

Houve quem chamasse a atenção para o "carisma" do ex-presidente. Mas este foi definido como uma característica pessoal. Mesmo gente que citava Max Weber, autor de célebre elaboração sobre a "dominação carismática", esquecia que, para o pensador alemão do início do século, carisma, na vida política, é um fenômeno relacional, não uma particularidade desse ou daquele indivíduo. Analisar os motivos e reações dos "seguidores" do líder supostamente "carismático" é sempre o exercício mais importante. Exatamente o que era apenas superficialmente tocado.

Os "bem-pensantes" esqueceram as pessoas. E estas, ao contrário do supõem os que se alimentam dos próprios preconceitos que secretam, são reflexivas. Fazem comparações e escolhas. Entre um lado que fazia discursos "em defesa da ética", mas ainda ontem praticara uma selvagem "privataria", e o lado que apresentava políticas sociais que tiraram 15 milhões da pobreza, incluíram milhares de jovens no ensino superior e provocaram um positivo curto-circuito em economias locais de recantos esquecidos desde sempre, as pessoas escolheram o segundo.

Novos atores entraram em cena. Tornaram-se visíveis. Mais do que isso, cidadãos. E, em conseqüência, também consumidores. Abarrotaram as ruas de comércio popular, mas também os shoppings e os aeroportos. Não poucos ficaram incomodados com essas novas companhias nos seus espaços. Afinal, "praias" durante tanto tempo exclusivas foram "invadidas".

O incômodo de alguns setores tradicionais ante a emergência desses novos cidadãos alimentou a narrativa preconceituosa dominante na imprensa. Os bem-pensantes contribuíam com suas "análises" a respeito do "populismo". Os menos sofisticados falavam em "bolsa-esmola"...

Passado o vendaval das fortes emoções provocadas pela presença de Lula no centro do palco, é tempo de se produzir uma rigorosa e crítica sociologia da "Era Lula". Quem desejar assumir essa tarefa deve se lembrar de um alerta, formulada há décadas por outro grande cientista social, este brasileiro, que apontava a necessidade de superarmos análises que apenas "arranham a superfície" dos fenômenos. Refiro-me a Florestan Fernandes, alguém que desdenhava, com ironia corrosiva, o mundo pintado pelos bem-pensantes.

Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

quarta-feira, janeiro 5

Scott Pilgrim Contra o Mundo


Scott Pilgrim Contra o Mundo é bem interessante. baseado na história em quadrinhos de mesmo nome, não é um filme para quem está procurando mais do que uma boa diversão. Tem um roteiro dinâmico, criativo e a direção usa uma linguagem transposta dos videogames e dos comics. Alguma coisa como uma evolução de última geração do seriado Batman que era exibido há milhares de anos na TV. Pode-se ver e ouvir onomatopeias cercadas de realces gráficos. Também utiliza de hipertexto para dar mais dinâmica, clareza e humor às cenas. Se não é cabeça também, definitivamente, não é uma película comum.


A produção conta a história, que se passa em Toronto, Canadá, de Scott um garoto cronologicamente recém saído da adolescência, com seus vinte e poucos anos, mas que na prática continua com todos os seus arroubos juvenis. Ele não sabe nem o que quer fazer da vida. Diz que está entre um emprego e outro, naquele momento, mas também integra uma banda de rock que tem dúvidas quanto à possibilidade de sucesso musical do grupo. Enquanto isso arruma uma namorada chinesa ainda no colegial, fato esse que é condenado por todos os seus amigos e até por sua irmã, que diariamente recebe informações de um amigo gay de Scott, sobre a vida de seu irmão.

A bela chinesinha e Scott até que se dão bem. Gostam de jogos de videogame e ela, de cara, se encanta com o grupo musical de Scott. Os amigos, todos, acham aquilo ridículo, face a "monstruosa" diferença de idade entre os dois. E não fazem nenhum esforço para ambientá-la, apesar de todos dias ela ser platéia dos ensaios da banda. A tensão sobre o protagonista cresce quando ele resolve se encantar por Ramona Flowers, uma menina tipo descolada e de uma natureza diferente das demais por ser novaiorquina. Toronto é um centro muito pacato onde as coisas não acontecem, pelo que mostra o roteiro.

A menina não oferece resistência ao assédio de Scott e aí começam a surgir os problemas dele. Ele terá de enfrentar os sete ex-namorados maus de Ramona em desafios semelhantes aos de videogames. Os movimentos das lutas em que se envolve repetem às coreografias vistas em telas de games como mortal kombat, Street Fighters e Tekken. E ao final de cada enfrentamento, quado o oponente é derrrotado o vencedor recebe um prêmio em moedas, que despencam do ar. Tudo isso gerando uma dose de humor, e não deixando que o filme descambe para a violência gratuita. Não, esse não é filme para fãs de Stollone, Steve Seagal ou Chuky Norris.

Os combates são uma espécie de tirada de onda com a crença juvenil de que todos os ex-namorados até das garotas mais descoladas são idiotas. Somente o atual tem um diferencial de qualidade que permite a entrega. Como se para se chegar à maturidade a menina precisa antes conhecer uma série de canalhas. Scott Contra O Mundo inova na linguagem, apesar de algumas ideias já terem sido usadas em outros filmes como Zumbilândia. É divertido, leve e tem um final bem interessante. Mas deve ser entendido com descontração e leveza. Para deleite da geração gamers. E o título faz bem juz ao que grande parte dos adolescente sentem nessa idade. Todos são contra eles.

Há quem diga que esse filme deve ser indicado ao Oscar. Como bem falou Pablo Vilaça. Eu não creio que chegue a tanto. Mas, afinal, o que é mesmo o Oscar?

Direção: Edgar Wright Elenco: Anna Kendrick (Stacey Pilgrim), Mary Elizabeth Winstead, Kieran Culkin (Wallace Wells), Jason Schwartzman, Chris Evans (Lucas Lee), Michael Cera (Scott Pilgrim), Bill Hader

segunda-feira, janeiro 3

O olhar Invisível


Não sei o porquê de a maioria dos brasileiros gostar tanto de se rivalizar com os argentinos. Definitivamente, acho que devíamos procurar rivais mais à nossa altura. Não gosto do futebol argentino, considero os jogadores de lá um bando de catimbeiros sem esportividade, violentos e dissimulados. Mas em algumas áreas, reconheço, podemos nos deleitar com que os platinos têm produzido, como a música e o cinema.

No ano passado, o belo O Segredo dos Seus Olhos. dirigido por Juan Jose Campanella, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro merecidamente. Ele também dirigiu o elogiado O Filho da Noiva. É do diretor argentino Gaspar Noé o intrigante Irreversível e o também hermano Marcelo Piñeyro fez a direção do já considerado clássico Plata Quemada. Todos capazes de encher os olhos do cinéfilo mais exigente.

E ontem tiver a oportunidade de assistir o O Olhar Invisível dirigido por Diego Lerman, "arrentino" de 34 anos. Este filme foi exibido durante Fest Rio 2010, em outubro. Tendo como cenário de fundo os últimos anos da ditadura militar argentina, conta a história de uma preceptora, Maria Teresa (Julieta Zylberberg), funcionária de um tradicional colégio de Buenos Aires, que tem como principal função manter os alunos na linha. E linha, nos inícios nos anos 80, era a repetição do quadro de terror por qual passava toda a sociedade platina por aquelas épocas.

Os alunos são submetidos a uma disciplina semelhante a de militares. Meninos e meninas passam por revistas, como uma tropa. Os preceptores verificam toda a postura dos jovens, das meias aos colarinhos, passando pelo comprimento dos cabelos. Qualquer desalinho era notificado em caderneta.

Tendo como atribuição profissional cuidar da disciplina dos estudantes, onde até um beijo entre um aluno e uma aluna era alvo de repreensões, Maria Teresa, bonita e esguia, se amolda a uma personalidade anódina, mostrando sempre uma face rigorosa, beirando a cruel, para os alunos. Mas com muita sutileza da direção, outro personagem e apresentado ao público. Uma Maria reprimida, que teme a sua própria sexualidade. Sabe que a exposição de seus desejos poderá levá-la a uma perda de autoridade perante os alunos. Muito delicadamente, também é apresentada uma atração que Maria tem por um dos jovens. Ela sofre silenciosamente com isso, ao ponto de ocultar a compra de um perfume masculino apenas para, antes de dormir ter o cheiro do aluno para se deleitar.

Mas desejos latentes, quando não saciados, podem conduzir a comportamentos doentios. Por isso, ela leva ao chefe dos preceptores Carlos Biasutto (Omar Núñez) , um sujeito além da meia idade que nutre uma paixão por Maria Teresa, uma suspeita de que alunos estariam fumando escondidos. Recebe dele o aval para manter um olhar invísivel, que dá o título ao filme. Ela então sente-se abonada em conceder cores à sua fantasia de espionar os meninos no banheiro da escola. Diariamente, esconde-se em uma das cabines sanitárias de onde lança olhares furtivos. No local, mesmo se sentindo culpada por sua atitude, dá vazão aos seus instintos. Esse passa a ser o sentido da sua vida, como sugere o roteiro do filme, que dedica longos minutos ao que se passa no banheiro masculino da escola.

Toda a aridez e assepsia do local é sugerido pela câmera e pelas cores predominantemente cinzas e seus subtons. Cores vivas são evitadas, sugerindo a presença da ditatura no cotidiano daquelas pessoas. Neste ambiente, o chefe dos preceptores tenta seduzir Maria Tereza, mas não consegue trocar além de algumas cordialidades. Até um simples toque, durante uma conversa em um café, é evitado vigorosamente por Maria. A tentativa de aproximação passa por ele tentando convencê-la de tratá-lo pelo primeiro nome Carlos. Mas a jovem preceptora insiste inarredavelmente em um tratamento formal para desgosto do pretendente. Afinal, o que uma jovem na flor dos seus 23 anos iria querer com alguém provavelmente sexagenário?

O clima pesado do filme pode levar o público desavisado a uma certa angústia, já que quase nada é mostrado explicitamente. E ao contrário do que agora tem virado moda, não há nenhum recurso de voz narrativa em off para clarear o que está se passando no interior de Maria. A leveza da direção talvez seja o seu maior mérito.

Mas o final não é nada suave. O preceptor chefe descobre que Maria anda se esgueirando no banheiro masculino e passa a ter isso como um trunfo. Em um momento brutal ele a flagra dentro de um box, condena-a com toda a dureza possível, e aproveita a superioridade de posição e de condição para estrupa-la brutalmente. Ao final do ato, ainda diz para ela continuar diariamente com as suas zelosas investigações no banheiro masculino. Ferida em seus brios, em todos os sentidos, Maria o acerta com um estilete, pelas costas. O filme encerra com os apelos de socorro do algoz que se transforma em vítima. Até a morte do antagonista é sugerida, e não explícita. Como um tango trágico.

domingo, janeiro 2

Da série É por Isso Que Não Leio Jornal

No Jornal O Povo de hoje foi publicada essa pérola sem pé e sem cabeça.

Como evitar neve no Sri Lanka

Tal como aconteceu no roteiro do primeiro longa-metragem norte-americano da série Aeroporto (Airport), de George Seaton, em 1970, nevascas, uma ocorrência comum nas passagens de ano do Hemisfério Norte, mas extrapolando esta temporada na intensidade, possivelmente devido as consequências do aquecimento global, tumultuam o tráfego de aviões nos terminais aeroviários entre o Polo Norte e o Trópico de Câncer.

Um dia desses, causou estupefação a este autor assistir a um telejornal com imagens do gelo nas pistas de aeródromos da Europa. Taxiava na ocasião aeronave da SriLankan Airlines companhia de aviação civil do Sri Lanka, país denominado de Ceilão até 1972. O espanto decorreu de que, de 1983 a 2009, a ilha foi abalada por guerra civil na qual a minoria populacional tâmil tentou implantar uma nação em separado da maioria demográfica cingalesa, no Norte e no Nordeste do território. Um dos alvos dos guerrilheiros tâmeis eram os aeroplanos da SriLankan, sendo pelo menos um dinamitado ao meio no aeroporto da ex-capital Colombo. Atualmente, a sede de governo é Kotte, oito quilômetros a sudeste. Hoje, a SriLankan interliga o antigo Ceilão a 49 destinos em 31 países diferentes.


Antes da supracitada guerra civil, o Sri Lanka era talvez o país pobre mais bonito de se visitar. É só conferir nos cartões-postais. Numa época em que o inverno da Europa e da América do Norte complica chegadas e partidas nos aeroportos, bem que os viajantes com dinheiro, incluindo brasileiros, pudessem agendar o que os portugueses chamavam de Taprobana, citado na primeira estrofe de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. A influência lusitana foi tanta que, até hoje, há palavras decorrentes da presença portuguesa, incluindo de Colombo ao sobrenome Fonseka.


Foi o então Ceilão escolhido moradia para sempre do autor de 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odissey), o inglês Arthur C. Clarke (1916-2008). A ilha é berço também de um dos cineastas de maior importância do mundo, Lester James Peries, ativo a partir de 1956. Infelizmente, apenas um dos filmes dele teve apresentação no Brasil, A mansão do lago (Wekanda walawa), de 2002, adaptação da peça russa O jardim das cerejeiras, de Tchecov, exibido em uma das mostras internacionais de cinema em São Paulo.


Talvez a maior curiosidade sacro-turística do Sri Lanka seja o pico de Adão. Lenda local garante que após a expulsão do Paraíso, Adão escolheu a ilha para morar. No alto do monte, num mosteiro budista, existe uma pegada de dois metros de comprimento que os monges e os fiéis atribuem ser do próprio Sidarta Gautama. Cristãos a identificam como rastro de São Tomé. Além de muçulmanos preferirem ser marca de pé do próprio Adão.

Frederico Fontenele Farias

quinta-feira, dezembro 30

Cisne Negro


A dança tem sido pouco explorada no cinema, ultimamente. Freddie Astaire e Gene Kelly sairam de cena e deixaram um vácuo. De menos antigo (Gene e Freddie estiveram no auge nos anos 40-50) só me vem a cabeça os filmes Tango (1998) e Carmen (1983), ambos de Carlos Saura e Retratos da Vida (1981), de Claude Lelouch, que traz uma bela dança coreaografada ao som do Bolero de Ravel no final. Ou seja, nada de recente.

O Cisne Negro vem com muita propriedade preencher essa lacuna que não deveria existir. Principalmente para mim, que tenho uma grande admiração por dança. Sempre tive. Sempre gostei. É o que me faz me permanecer sentado diante de um musical hollywoodiano. Este filme, que deve ser lançado em janeiro no Brasil, segundo a publicidade tem no papel principal Natalie Portman, que guarda algumas semelhanças com o seu personagem Nina. Ambas iniciaram-se na dança aos quatro anos e no presente têm a mesma idade.

Nina mora em New York e já está com 28 anos quando surge a oportunidade de ser a primeira bailarina de sua companhia. Filha de mãe solteira que deixou o balé por ter engravidado Nina, provavelmente de seu diretor. O filme não deixa muito claro a paternidade da protagonista, mas sugere isso. Só que o convite para o principal posto do balé Cisne Negro é longe de ser um processo pacífico. Nina asissistiu a antiga primeira bailarina, Beth (Winona Ryder) ser defesnestrada, percebendo todo o jogo de poder e sexo que reina nessas escolhas.

Se ela já não era inteiramente normal, sofrendo nas mãos de uma mãe superprotetora, que teme ver a filha ser vítima de abusos sexuais por seus dirigentes, assim como deve ter acontecido em sua própria vida, seu estresse emocional vai a coeficientes máximos. É muito cobrada pelo diretor que quer uma Nina sensual, e não apenas tecnicamente mera apurada, como Nina demonstra nos ensaios. A pressão ampliar enormemente o temor do fracasso. Por mais que se esforce, não atinge o ponto de desinibição que o diretor Thomas Leroy (Vincent Cassel) deseja. Sua neurose amplia-se e o seu tic nervoso de arranhar as costas involuntariamente com as unhas torna-se cada vez mais angustiante.

A tensão só aumenta quando ela descobre que Lily, a bailarina que é alvo das atenções sexuais do diretor, vai nomeada sua primeira substituta. Nina já a via como rival, e passa a ter pânico em perder o posto, antes mesmo de sua estreia. Com o pânico vêm as alucinações. A direção de Daren Aronofsky decide em não deixar claro para o público o que é verdadeiramente fruto da imaginação de Nina ou realidade. As cenas se confundem demonstrando os efeitos de uma insegurança levada ao limites sobre uma mente que passou por uma educação castradora. Nina também demonstra seu desejo extremado em se transformar uma primeira bailarina quando, antes de assumir o posto, sorrateiramente subtraia alguns objetos da sua antecessora.

As cenas de tensão são intercaladas por plásticos ensaios do balé Cisne Negro. São como um bálsamo na inquietação que o desenrolar do filme provocou em mim. O Gran Finale é a estreia do Cisne Negro unindo a beleza do balé e toda a leva de sentimentos que a expectativa gera nos protagonistas do espetáculo. O final é um pouco previsível, mas não deixa de ter a grande sua beleza.

Curiosidade: O primeiro bailarino, Benjamin Millepied, que interpreta David no filme, e o príncipe, no Balé, é noivo de Natalie Portman, que está grávida do seu primeiro bebê.

O trailler pode ser visto aqui: Cisne negro