quinta-feira, julho 15

Underground Railroad

 


Desde que os integrantes da academia do Oscar foram duramente criticados em 2016, ano em que somente atores e atrizes brancos foram indicados ao prêmio, o cenário das artes cênicas tem proporcionado maior participação de minorias nas produções de cinema e séries. O caso mais emblemático foi o filme coreano "Parasita" ter sido contemplado com o Oscar de melhor filme em 2020. Um filme rodado em língua não anglófona vencia a principal categoria pela primeira vez, sendo agraciado ainda em outras três categorias.

Também foi grande o número de filmes e séries com importantes indicações nas principais premiações de arte. Entre estes, neste ano, podemos citar "Judas e o Messias Negro", "Estados Unidos vs Billie Holiday", "A Voz Suprema do Blues" e "Uma Noite em Miami", quatro produções do ano passado, que tiveram protagonistas negros e disputaram os principais prêmios. Entre as séries, podemos apontar "Lovecraft Country" e "Small axe", que estiveram indicadas entre as melhores de 2020.

Na esteira desse plot twist da indústria de entretenimento audiovisual, surge neste ano a série "The Underground Railroad". É a história de Cora, nascida numa fazenda do racista e escravagista estado da Geórgia (EUA), no século XIX. Ela foi abandonada pela mãe Mabel e desprezada é até pelos seus pares. Caesar, que um dia vislumbrou a liberdade, mas foi traído, tenta convencê-la a fugir.

Cora só se convence ao ver uma cena insuportável e, que, para o espectador, é igualmente difícil: a execução aplicada como castigo em um escravizado. Ainda assim, é nítido que a direção evita o prolongamento além do necessário, a violência extrema, o tempo todo. A vítima daquele ato mantém sua dignidade. Indignos são os brancos, os donos da fazenda, os espectadores voluntários. A situação fica muito evidente porque Cora decide, a partir dali, que é melhor morrer tentando fugir do que ficar. E, assim, a série prefere justamente mostrar o terror e a raiva no rosto de quem é obrigado a assistir, ou seja, os outros escravizados.

Revisão histórica

"The Underground Railroad"  é uma história de brutalidade, crueldade, violência, preconceito e racismo, mas também de sobrevivência, triunfo e beleza. Seu compromisso era recontextualizar como o norteamericano vê esse período de sua história e como pessoas negras como ele mesmo enxergam seus ancestrais.  Cora e Caesar escapam, tendo no encalço o caçador de escravos e seu fiel escudeiro, o pequeno menino negro Homer, provavelmente o personagem mais impenetrável da série, já que se trata de um negro totalmente apoiador da barbárie protagonizada pelos brancos. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Ridgeway está particularmente interessado em capturar Cora, porque vê na fuga de sua mãe, Mabel, um grande fracasso de sua carreira . A relação de Cora com a mãe é uma das maneiras pelas quais a minissérie diverge de tantos outros filmes e séries anteriores. A razão maior da vida de Cora é provar para a mãe que ela era merecedora de ter sido salva e que, mesmo tendo sido abandonada por Mabel, é capaz de conquistar sua liberdade sozinha. Cora tem, pois, um conflito além da sua vontade e uma necessidade de escapar da escravidão.

Saiba mais

A maior parte dos episódios recebe o nome da parada onde Cora se encontra: Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee, Indiana. Em cada passo, há violências, preconceitos e humilhações de diferentes tipos. Mas também esperanças, alegrias, amores, aliados, alguns deles brancos, mas em sua maioria negros, como Royal.

"The Underground Railroad" é uma minissérie sobre fantasmas. Sobre pessoas que estavam lá e construíram o país, mas não tiveram direito a nomes próprios, a nacionalidades, a tradições, a amores, a cuidar de seus filhos, a funerais dignos. Que foram apagadas da história. Mas que vivem em seus descendentes, na força de sua cultura e na sua resiliência para sobreviver então, e agora, a tudo isso.

A minissérie é formada por dez episódios de uma hora cada e pode ser assistida no streaming Amazon Prime Video.

Serviço: "The Underground Railroad". 

Criada por Barry Jenkins.

 Elenco: Thuso Mbedu, Chase W. Dillon, William Jackson Harper. Nacionalidade: EUA. 

Em exibição no streaming Amazon Prime Video.

JS

domingo, abril 12

Ciência X Política




Está muito claro, até para o olhar mais desavisado, que estão se esgrimando no cenário nacional duas narrativas em meio a esta pandemia. Uma científica e outra política. A que se respalda na ciência aponta que é necessário para frear a evolução do surto mundial o isolamento social. Não que isso possa deter completamente a disseminação do novo coronavírus, mas cria hiatos temporais, o chamado achatamento da curva, evitando que os hospitais de acolhimento aos enfermos fiquem abarrotados, com pacientes morrendo na fila à espera de um leito. É esse o discurso científico aceito em quase a totalidade dos 185 países e territórios já atingidos.

O discurso político adota o viés oposto. A fome que seria provocada pelo desemprego decorrente da paralisação dos setores produtivos é um mal bem maior, e, mesmo a custa da morte de alguns, os postos de trabalho devem ser mantidos na ativa. Isto seria impossível com o isolamento social. Afastados do convívio apenas as pessoas em situação de risco, portadores de comorbidades e obesos, deixando os novos e saudáveis circulando normalmente nas urbes.

É claro que quem adota essa estratégia já tem o discurso na ponta da língua, passado o pico da crise. Após a intempérie sanitária, vai afirmar, diante da impossibilidade de se provar o contrário, que as mortes mesmo com todo isolamento jamais seriam evitadas. E se a máquina da economia continuasse funcionando, os estragos seriam menores, haja vista que os empregos ficariam preservados, negócios gerariam rendas e o mercado fortalecido diante das oportunidades geradas pela crise.

O discurso político antagônico ao científico continua fortalecido, já que ainda não cessaram manifestações em sua defesa. Vide carreatas no eixo Rio-SP, ocorridas no último sábado. Resta saber o quão resistente ele será. Em tempos de terraplanistas, até mesmo desfiles intermináveis de caixões fúnebres nos cenários urbanos seriam incapazes de deter essa lógica de terra arrasada? Particulamente, tenho minhas dúvidas. Ainda mais que possuímos uma gigante população cristã sob os títeres de pastores, sempre mantendo a esperança de um acontecimento sobrenatural, capaz de deter qualquer malefício.

Dentro de mim ainda há esperança no bom senso, nas possibilidades científicas da cura, de uma sequela poderosa nesse discurso político que se irmana ao ódio. No entanto, não passa de esperança já que as vozes mais sensatas estão sendo sempre obscurecidas pela pouca audiência, e pelos algozes das boas ideias, que insistem em disseminar fake news nas redes sociais. Que alguma força superior ilumine os que ainda insistem em viver as trevas das cavernas, é o que desejo.

quinta-feira, agosto 10

A vida líquida e o absurdo do suicídio de Hannah Baker

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.”

Assim pensa e expõe Albert Camus, na abertura do Mito de Sísifo. As primeiras linhas do primeiro capítulo “O absurdo do suicídio”.  O filósofo existencialista tratou dessa questão que hoje se atualiza com extrema velocidade e profusão. Há uma baleia azul na Europa Oriental, que convida os desavisados a realizar 50 tarefas, encerrando com a tirada da vida do participante. Há uma série Netflix, 13 reasons why, que trata do suicídio de Hannah Baker como uma questão social, envolvendo vários atores (não no sentido cenográfico, mas de participantes da ação). Na produção, ao longo de 13 capítulos, que correspondem a 13 lados de fitas cassetes gravadas, com explicações da sua tomada de decisão, ela procura apontar razões exteriores que a encaminharam para a morte. 

“Há muitas causas para o suicídio, e nem sempre as causas mais aparentes foram as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão. O que desencadeia a crise é quase incontrolável”.  Aponta Camus. O personagem Hannah, no entanto, parece desafiar a assertiva do argelino.  Ela é muito metódica em apontar cada momento que, ao longo da sua breve existência (se mata aos 16), a levou ao desenlace fatal. A morte é a saída para o peso da vida que nem todo mundo é capaz de suportar sobre os ombros.  O tema é geralmente evitado pelos veículos de comunicação para impedir a propagação da ideia. Raramente, algum noticiário se refere a suicídio, salvo se a vítima tiver uma relevância exponencial na sociedade. O suicida é tratado, não raras vezes, como fruto de um distúrbio mental, uma depressão, ou alguma demência para além do controle da própria vida.  “Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos”. (Camus).

O Mito de Sísifo escrito em 1942, durante o período da guerra, quando a França estava invadida pelas forças nazistas. Com certeza, aquele não foi um período fácil para a população francesa, notadamente os mais jovens. Mas se hoje, não há guerras no mundo ocidental, não no sentido convencionalmente declarada, parece sobrar motivos para a angústia, o desespero, a frustração e tragédias. A vida social é ambiente hostil, quer seja na escola, no trabalho, na família, na igreja, no estádio de futebol ou no clube. O capitalismo dividindo as nações entre winners e losers (ganhadores e perdedores).  Até mesmo as religiões, que em passado próximo já serviu de abrigo para os desvalidos, hoje aponta a falta de fé como o único fator do fracasso. A teologia da prosperidade, caminho fácil para líderes religiosos aferirem lucros e compensações financeiras, diz claramente que apenas os que crêem vão ter a oportunidade de sair do poço sem fundo onde enfiaram as suas próprias existências.  Se está desempregado, se está enfermo, meteu-se com drogas, não se aflija. Entregue o seu coração a Jesus e todos os seus caminhos se abrirão, amém. Se nada melhorar para você, é porque você está em mãos malignas. Pague alguma pequena fortuna para ter direito a uma sessão de exorcismo particular. Não conseguir a tão sonhada redenção não é culpa de mais ninguém a não ser sua mesmo.  Nada tem a ver com a crise capitalista instalada no país, com a retirada de direitos sociais históricos, ou com a ganância dos exploradores rentistas. Assuma a sua culpa pessoal, por mais desesperador que isso possa ser. E se por algum motivo, a dor for demasiada, e se matar, saiba que as profundezas do inferno lhe espera.

“As acusações lançadas sobre a vítima não se tornam mais verdadeiras por serem proferidas em coro. A verdade estava e permanece do lado da vítima”, cita Zigmunt Bauman, em Vida líquida (2005). A julgar pelas fortes indicações, a causa primeva do suicídio não é um impulso interior. Não se trata de um distúrbio mental. Deve haver dispositivos que antes de se instalar o desejo à morte, foram as condições de possibilidade do florescimento da vontade de autodestruição, que surjam por questões externas. “Para validar a perda da vida, o propósito deve oferecer ao herói um valor maior que todas as alegrias de continuar vivendo sobre a terra”.  (idem,idem).

Em 1970, o psicólogo canadense Bruce Alexander, da Universidade de Simon Fraser (Columbia Britânica), já havia identificado, através de estudos com ratos, a origem dos distúrbios mentais que levam ao consumo de drogas, que em muitos casos chegam a ser um problema fatal. Conta a lenda que, antes do experimento, ele já tinha observado que soldados americanos que haviam se viciado em heroína nos campos de batalha no Vietnam, e ao retornarem ao convívio familiar e social, rapidamente deixavam o vício sem nenhuma terapia. Os ratinhos de laboratório foram induzidos a consumir heroína através da ração de água, e logo em seguida foi dada aos bichinhos viciados, postos em confinamento, a opção de beber água pura, em vez da mistura com heroína. Viciados que estavam, praticamente todos preferiam saciar seus desejos com a mistura água/narcótico.
A experiência teve uma virada quando o psicólogo criou um grande parque de diversões, com diversos brinquedos para ratos, colocando todos os “viciados” no mesmo ambiente, devolvendo todos, assim, ao convívio social, mas mantida a opção de escolha entre a água pura e a mistura com heroína. Eles rapidamente abandonaram o “vício” e retornaram à vida saudável. É o ecossistema em que o espécime está inserido a causa primeira do desajuste. O descompasso entre o que seria uma vida feliz e as agruras impostas são os gatilhos que empurram para o precipício do vício, que também se transforma em uma única fonte, mínima que seja, se satisfação e prazer. Sair do ambiente hostil e perigoso e ser envolto em afetividades e prazeres outros funciona bem melhor do que qualquer terapia para a cura dos vícios, ao que indica o estudo do canadense.
Zygmunt Balman, destaca que “os mártires são pessoas que enfrentam desvantagens esmagadoras. Não apenas no sentido de que sua morte é quase certa, mas também que é seu derradeiro sacrifício provavelmente não será valorizado pelos espectadores”. Parece que é esse o caminho que Hannah trilha. Diante de tantas situações extremamente desagradáveis e degradantes que enfrenta, sem nunca conseguir comunicar o seu verdadeiro estado de espírito, ela não consegue encontrar uma saída, ou pelo menos vislumbrar alguma esperança que possa a retomar alguma dignidade para sua própria vida. Perdeu totalmente a falta de comunicação entre o seu verdadeiro eu, que quer ser aceita, e o mundo exterior que só lhe apresenta situações desconfortáveis e extremamente doloridas. A busca da auto imolação é como se fosse o seu último grito de desespero diante de um mundo pesado que a sufoca de maneira insofismável. Nem a busca de um conselheiro escolar, que possa dar uma nova direção e salvá-la do sacrifício a que se impõe, é alentador. Só escuta dele que se ela não tem como desafiar seus agressores, só resta a ela se conformar com o sofrimento e fazer de conta que a sua própria vida não existe, que as agruras são coisas do passado e não constitutivas do seu próprio eu. Mas como dizer para si mesmo que  a sua vida absurda não é real?
            “Ser um indivíduo é ser igual a todos do grupo”, assinala Balman. Mas Hannah, por mais que tente, não chega a esse estágio. Em sua escola, os mais próximos são os primeiros a fazer pouco caso dela. Seu “crush” que conseguiu fotografá-la em um momento íntimo, exibe o troféu aos colegas e logo a imagem é distribuída pelas redes sociais. O ultraje é o mais amplo possível, com piadinhas ditas em corredores. Olhares furtivos e cochichos entre os pares têm efeitos devastadores. De desconhecida da turma, já que havia se transferido recentemente para a escola, passa a ser a “menina fácil”, que dá “mole” para qualquer um. Ela não se sente assim, mas a sucessão de eventos que se seguem não a deixa fugir dessa aura de preconceitos, maledicências e boullyings abertos e declarados. Outros meninos se aproximam apenas para obter facilidades sexuais. Ela não é mais uma igual. “Ser indivíduo significa ser igual a todos do grupo” (Balman, idem) . É a estranha,  e a única possibilidade é se isolar, quando possível, ou quando não, devido às atividades escolares, se escudar em uma couraça de indiferença a tudo que a cerca. Mas isso está longe de ser uma tarefa fácil quando se tem 16 anos, quando os mais próximos arrumam motivos para desdenhar dela. Não é mais possível a ser indivíduo igual a todos do grupo.

O temor que mais momentos indesejáveis repitam na sua vida amplia ao máximo a sua sensibilidade negativa a quem quer que se aproxime. Tanto é assim que Clay, uma das raras pessoas em toda série que realmente nutre por ela bons sentimentos, ou pelo menos aparenta nutrir, é repelido veementente ao buscar uma maior intimidade, mesmo que honesto em seus propósitos. Hannah já não vê mais como baixar a guarda, diante de tantos infortúnios sofridos nas mãos de adolescentes masculinos e femininos. “A individualidade...precisa da sociedade simultaneamente como berço e como destino..”(Balman, idem). O machismo expresso na série, nega a sociabilidade com a jovem.  Ao contrário, mostra, enfaticamente, que mulheres são seres de segunda classe que devem girar em torno dos desejos e atividades masculinos. Afinal de contas, elas não passam em “cheerleaders”, enquanto eles são os astros dos times da escolas, os merecedores de todos os incensos e festejos. Transar com o ídolo do basquete ou dobasebol é o máximo que as meninas podem almejar. Não há lugares de liderança ou de honra para o sexo feminino no meio escolar americano.

A tragédia só se aprofunda, sem uma alternativa de fuga. A rota traçada para a morte segue inabalável na vida de Hannah. Depois de ser estuprada pela estrela do time de basquete, a protagonista define o seu fim em uma banheira de sua casa, com os pulsos cortados. Assim como Antígona, que mesmo sabendo que seria condenada a morte por enterrar o seu irmão, A adolescente prefere sair do mundo a continuar carregando todo o peso que sua curta existência resolveu por sobre os seus ombros. “O caminho que leva à identidade é uma batalha em curso e uma luta interminável entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança” (Balman). A batalha é perdida. É tarde, Hannah é morta.

Referências
Vida Líquida. BAUMAN, Zigmunt. 3ª Edição. Rio de Janeiro, Zahar, 2009
O mito de Sísifo. CAMUS, Albert. 2ª Edição. Rio de Janeiro, Record, 2004
Bruce Alexander e o mito do vício. http://www.naopossoevitar.com.br/2009/07/experimentos-em-psicologia-bruce-alexander-e-o-mito-do-vicio.html

terça-feira, agosto 8

Handmaid's Tale e o fundamentalismo religioso no Brasil

A moda agora é assistir séries, fazer maratonas, ficar final de semana totalmente dedicado aos capítulos de uma nova temporada. Apelos e serviços não faltam. Tudo ao alcance de uma assinatura de uma operadora de TV por Internet. Com tanta demanda, a quantidade de bagulhos aumentou exponencialmente, também. Porcarias para todos os gostos, salvo raras exceções.

Handmaid’s tale é uma dessas produções que estão bem acima da média. Pelo menos a primeira temporada que foi disponibilizada apenas através de serviços considerados piratas, no Brasil. Se quiserem descrições sobre o conteúdo, há esse link no Wikipédia. Mas a reflexão mais importante, não é bem esclarecida nos sites que encontrei.

A história trata de uma distopia em um futuro próximo, onde o poder é assumido por fundamentalistas cristãos,  que adotam a bíblia como o código de ética da sociedade. É criada uma sociedade falocentrista, onde as mulheres sequer tem direito a propriedade ou ao trabalho. Como a sociedade está declinando por conta da baixa taxa de natalidade, homens da estrutura do poder, casados com esposas inférteis, são autorizados a estuprar suas aias (mulheres de classes inferiores). O ato recebe o nome de cerimônia, e é assistido pela esposa do casal, que “abençoa” a relação em nome de uma maternidade, que irá assumir, com o sequestro da criança de sua legítima mãe.  

A bíblia é o eixo que ordena a sociedade e seus novos costumes. A relação extraconjugal é justificada através do patriarca Abraão, que também teve relações com a sua escrava. A mulher tem um papel totalmente secundário. Algumas são casadas e administram as suas casas, e as demais são serviçais não remuneradas, com os úteros apropriados pelo Estado, que define como, quando e aonde elas irão copular, com o objetivo de apenas gerar filhos para a sociedade patriarcal.

Para mim, a série, é baseada em um livro premonitório escrito há 32 anos. Na época em que foi escrito,  o Talibã sequer havia chegado ao poder. A instrumentalização das crenças e do mito da existência de um ser supremo, metafísico, onisciente é levada às últimas consequências na obra ficcional, como já acontece em alguns países mulçumanos.   
   
A lei que vale não é exatamente o que está escrito, mas a interpretação que se dá ao texto reconhecido como religioso. Assim, é fácil demonizar o inimigo, e glorificar os seus aliados. A guerra civil nos Estados Unidos, que promove o surgimento da república de Gileade, fundou-se de forma progressiva. Primeiro, as mulheres foram proibidas de ter propriedades e de trabalhar, em seguida, iniciaram-se as perseguições aos dissidentes, assim como ocorreu aos judeus na Alemanha. Em terceiro, com a vitória política e militar, instaura-se uma ditadura religiosa.


Infelizmente, no Brasil, já se pode ver passos sendo dados na direção do fundamentalismo religioso, a quem tem um olhar mais atento. O primeiro passo dado é a criação de novos conceitos que desqualifiquem o inimigo. Como “escola sem partido”, que é a forma de bloquear qualquer possibilidade de informações sobre sistemas políticos de esquerda, e a “ideologia de gênero”, que tenta reduzir a meros comportamentos a diversidade cultural. Claro que todo isso condenando movimentos políticos de esquerda e de emancipações das minorias. Ainda está distante o Brasil se transformar em uma Gileade, mas quando há gente que quer o retorno de uma ditadura militar no Brasil, e um proselitista de torturas pode chegar ao poder, talvez a distância não seja tão grande assim.

segunda-feira, maio 1

O valor da vida


Tempos estranhos e sombrios esses.  Faz algum tempo, que venho percebendo as tentativas de eliminação de marcos históricos. Não só de conquistas sociais, como as leis trabalhistas e previdência social, que estão sendo dizimadas, deixando grande parte da população perplexa e sem saber a quem recorrer. Outra parte, até que está gostando. Sabe aquele ditado de derrubar a casa só pra fazer poeira pro vizinho? Meio isso o que está acontecendo, fora a "faxina étnica" nos aeroportos e outros recintos que vinham sendo permeados pela emergente classe C. O sonho acabou?

A sanha e o desejo de pseudo gestores que assumiram postos políticos em suprimir o passado e criar uma realidade alternativa (termo inventado para subverter a lógica da mentira) são avassaladores. Em Sampa, a a arte o primeiro alvo do iconoclasta. Paisagens grafitadas viraram cenário cinza e insípido, apenas pelo desejo de apagar os marcos anteriores. Não é por desprezar as obras artísticas que isso foi feito. Exatamente o contrário. É por entender o quanto as obras formam o imaginário que elas são destruídas. É preciso atacar qualquer sinal de que já houve vida inteligente no passado. Só o futuro interessa a aqueles que querem subverter uma lógica social pré-existente.

Ciclovias criadas para proteger um transporte não poluente, rápido e barato com objetivo de deslocar um grande contingente da população, vão se transformando em sucata. Nada do antigo presta, e deve ser destruído o mais rápido possível para abrir espaço ao novo tempo. Mesmo que à custa de vidas, não importa. Ser bom gestor é ser capaz de devolver uma cidade ao atraso, dando-lhe a aparência de algo moderno. Então, se houve redução de velocidade e de vida nas rodovias, mas isso não faz parte do novo universo diegético, a carnificina em forma de liberação dos limites deve retornar. E todos acharam moderno, como moderno é a desqualificação do valor da vida.

(Ao meu amigo Jayme que me estimulou o retorno)

segunda-feira, março 28

Em Uso

Nada não. Só para não perder o espaço. Hoje vi que uma amiga blogueira, que faleceu há alguns anos, teve o seu blog desativado. Uma pena, gostava de dar uma olhada pra matar a saudade. Hoje, nem mais isso.

Mas estou querendo voltar a escrever por aqui. Afinal, 70 mil hits não é algo que se jogue fora. Uma disciplina de jornalismo na web tem me motivado.


domingo, julho 15

Para Roma, com amor - Woody Allen




Para quem gosta de Woody Allen interpretando a si mesmo em seus filmes, Para Roma, com amor, traz o diretor-ator em grande estilo. Mas em doses homeopática, uma vez que a produção reúne quatro estórias, em formato de esquetes que não se tangenciam em nenhum momento, senão por acontecerem todas em território romano. E, como sempre em películas rodadas em solo europeu, com personagens americanos. É divertido, descompromissado, e sem muitas referências intelectuais como o anterior Meia Noite em Paris. Um Woody Allen que retoma um humor que não chega a ser ácido, nem pastelão, que é capaz de arrancar boas risadas da plateia, e também produzir piadas que não vão além de um sorriso de canto de boca. Vale.

Os esquetes mostram a jovem Hayley americana (Pill), que, em viagem turística à Itália, conhece o advogado ativista italiano de esquerda Michelangelo (Parenti). Logo, os pais da moça, Jerry e Phyllis (Allen e Davis), viajam para Roma e Jerry, um diretor de ópera aposentado, fica encantado ao ouvir a voz de tenor de Giancarlo (Armiliato), pai de Michelangelo – até que percebe que o sujeito só consegue cantar sob o chuveiro. Enquanto isso, em outro ponto da cidade, o arquiteto americano Jack (Baldwin) despede-se da esposa para fazer um passeio solitário pelo bairro no qual morou quando jovem – e lá conhece John (Eisenberg), um estudante que o leva para conhecer sua namorada Sally (Gerwig), cuja amiga Monica (Page) acaba de chegar dos Estados Unidos, despertando o interesse do rapaz e levando Jack, cuja natureza discutirei adiante, a aconselhá-lo. Já numa terceira história, passamos a acompanhar o comum Leopoldo (Benigni), que subitamente se vê alçado à fama sem compreender exatamente a razão, ao passo que, na última trama criada por Allen, vemos um jovem casal que, chegando a Roma, se separa momentaneamente levando a uma série de confusões: enquanto ele (Tiberi) recebe parentes que confundem a prostituta Anna (Cruz) com sua esposa, a moça (Mastronardi) se envolve com um renomado astro do cinema italiano.


Em todas as estórias há um ponto em comum. Como são representadas no imaginário dos personagens  o que seria a realidade pessoal de cada um. Em cada esquete percebemos realidades distorcidas pelos desejos de seus personagens, ou então mecanismos fazem a interpretação do mundo real ser mais palatável.


Vamos, a partir daqui, abordá-los com spoilers



LEOPOLDO


Entre as mais estranhas distorções está a transformação de Leopoldo em um pop star, ou sexy simbol, a sua escolha. Do nada, como por encanto, ele passa a ser visto pelos meios de comunicação como alguém que deva ser reverenciado. A partir daí, tudo o que faz se transforma em notícia para os seus fãs ávidos por informações sobre o seu astro de ocasião. Nada nos é mostrado sobre a ascensão meteórica ao panteão olimpiano de nosso personagem-protagonista, mas tão somente os impactos causados pela glorificação do seu ser. Ele passa a não ter mais privacidade, a ser entrevistado sobre o que comeu no almoço, comparece a programas de entrevistas, e passa a ser feericamente a ser assediado por mulheres que querem seus préstimos sexuais. Seus dias de glórias são pontuados por uma limousine a sua disposição e um motorista que passa a ser o seu alter ego. Desaba-se rosário de lamentações sobre a perseguição de paparazzis, e Leopoldo passa a desejar sua antiga vida de volta. É um caso ter de passar por esses momentos!


Leopoldo é uma crítica ao mundo da fama. Em momentos hiláricos, o esquete nos leva a alguma reflexão sobre o quanto são idiotizadas as pessoas que se derramam em paixões pelos seus ídolos. Em especial, a groupies, mas também aos que são alavancados ao status de famosos, que desfrutam de todas as benesses que a fama pode trazer, mas que não param de reclamar dos veículos de comunicação que os expõem. A fama que põe o feijão na mesa é rapidamente transformada em algo nefasto, mas que ninguém quer perder, sob pena de também lançar na vala tudo o que conquistou com esforço, ou não.  E o fim da fama, que acontece todo dia para alguém, não é algo que ninguém procura, mas que está fadado a acontecer por conta de decisões meramente midiáticas.

JERRY

Jerry é o diretor de ópera aposentado que rejeita a sua condição. Considera-se morto em vida por não praticar mais o seu ofício. Não tem na sua carta de apresentação nenhum grande sucesso. Pelo contrário. Conseguiu fracassar em peças óbvias por buscar inovações que foram rejeitadas tanto pela crítica como pelo público. "Um homem a frente do seu tempo", como repetia muitas vezes, para justificar os reveses profissionais. Mas descobre uma bela oportunidade de retornar à ativa ao ouvir Giancarlo, o pai de seu genro, cantando liricamente ao tomar banho. Abraça a oportunidade de voltar à direção de ópera com o seu astro recém descoberto.

Uma dificuldade então surge em seu caminho, Giancarlo só consegue as interpretações em alto nível quando está se banhando. Jerry, para contornar o problema, coloca-o sob um chuveiro em todas as cenas ele aparece cantando, causando a ira dos críticos, ao mesmo tempo que arrancava palmas das plateias. Aqui vai uma alfinetada nos intelectuais que menosprezam determinadas obras artísticas de gosto popular. Esse esquete também traz um antigo conhecido de filmes do diretor, onde as ideologias de esquerda e de direita se antagonizam e ambas soam como absolutamente imbecis e desprovidas de racionalidade.

JOHN

Qual o tamanho de nossas convicções amorosas? É o que este esquete procura discutir, com fortes doses de humor. John se diz apaixonado por sua namorada Sally, e incapaz de trocá-la por qualquer outra pessoa, muito menos pela amiga dela, Monica, que vai visitá-la após um romance desfeito. Monica não conseguiu demover seu ex-namorado de suas inclinações homossexuais. Apesar de inúmeras tentativas.

John conhece na rua o arquiteto de shoppings Jack, que sem que nos seja dada nenhuma sinalização sobre isso, passa a ser o grilo falante de John, como que destituído de sua fisicalidade, pois está presente até em cenas insuspeitas,  antecipando cada passo que John irá dar rumo a uma paixão desenfreada por Monica, apesar de todas as rejeições anunciadas. Funciona meio como que um pedido de desculpas de todos homens que um dia foram infiéis e pensaram em cometer loucuras em nome de um novo amor que surge


NOIVOS

Por fim, há o esquete em que um casal de noivos chegam a Roma, e ela consegue se perder dele por conta de uma ida ao cabeleireiro. Não queria receber os parentes de seu consorte sem se preparar esteticamente para tal. Só que ela se perde no meio do caminho, enquanto uma prostituta se enfronha no quarto deles, e se passa pela noiva, para evitar um constrangimento maior perante os parentes, que chegam ao hotel, onde eles estão hospedados.

Em meio a um labirinto de ruas e vielas, a noiva não reconhece as ruas e não consegue retornar ao hotel de onde saiu. Bela que é, um famoso ator italiano se sente atraido por ela, e passa a assediá-la, no mesmo restaurante em que estão o seu noivo, a prostituta que se passa por ela e os parentes do noivo. Cenas hilárias brotam desse quadro non sense.


Vale salientar que as cenas de cada esquete não obedecem a linearidade, onde os cortes funcionam como um pulo de uma história a outra, tornando o desenvolvimento mais dinâmico. Em nenhum momento há perda de clareza por conta dos recursos utilizados.







segunda-feira, julho 9

Dentes Caninos - Lanthinos

Este filme grego, de estreia do diretor Yorgos Lanthinos, disputou o Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, em 2011. A gente pode dizer que ele é no mínimo estranho. Conta a história de um casal e seus três filhos jovens (duas moças e un rapaz), entre adolescentes e jovem adulto, que vivem no mais completo isolamento. Somente o pai sai de casa diariamente, para trabalhar, deixando todos os demais sem nenhum contato com o mundo exterior, nem mesmo através de rádio, televisão, ou até mesmo música. Telefone ou livros, nem pensar. 


A única forma de aprendizado dos filhos se dá através de fitas gravadas pelos próprios pais, que ensinam palavras com o sentido distorcido. Uma busca de manter a dominação total através da linguagem. Carabina é um pássaro, e Zumbi é uma pequena flor amarela, na livre associação de sentido, criando um mundo artificial. Os aviões que cruzam o céu são apresentados como se fossem de brinquedo, e que volta e meia caem um no quintal. Para alegria daqueles jovens idiotizados. A únicas imagens possíveis de serem vistas numa antiga TV são as que eles mesmo produzem em câmeras de videocassete. 


A paranoia do pai é manter os filhos afastados de todos os possíveis perigos que o mundo exterior possa apresentar. Ele forja um mito de que só é possível deixar a casa de carro. E para dirigir o carro, os jovens precisam atingir a idade em que o dentes caninos vão cair e serem substituídos por outros. Um mito que perdura. O único ser estranho que adentra ao lar é uma vigilante da fábrica em que o pai trabalha, contratada para satisfazer os desejos sexuais do filho mais velho. Ela sempre chega vendada ao local onde a casa está encravada, bem a esmo. Não há vizinhos, e tudo funciona sob o mais rigoroso controle do pai. 


A história assume contornos do Mito da Caverna de Platão, ou de Matrix, dos irmãos Wachowski, onde o verdadeiro mundo é totalmente velado aos filhos, com a diferença que não existe a pílula vermelha a ser tomada.Também tem umas pinceladas de George Orwell, que em 1984 nos apresenta a Novilíngua, transformando o sentido das palavras. Mas o controle nunca chega a ser total, como sempre nos mostra as tradições. Um sentimento de liberdade há de brotar, mesmo onde a tirania é suprema. 

As diversões dos jovens sempre se voltam para algum tipo de crueldade. Há algo de sádico ou de masoquismo no ar. Logo no início do filme, a mais jovem mobiliza os demais para uma disputa sobre quem consegue manter o dedo por mais tempo aparando a água de uma torneira de água quente. O roteiro do filme parece querer mostrar que até mesmo quando se procura controlar os pensamentos das pessoas, alguma forma de violência é gerada. 

A questão dramática de fundo é. Esses jovens vão ficar submetidos ao jugo do pai, que é psicoticamente movido pela boa intenção de defender os filhos do resto do mundo. Ou será que eles vão tentar uma fuga? O sentimento de liberdade, inerante em todos os seres humanos irá um dia surgir no coração daqueles pobres coitados? 

 Daqui para frente, vamos de spoiler. A vontade de se ver livre daquele ambiente aparentemente estéril mas carregado pelo desejos dominadores do pai se fortalece quando a agente de segurança contratada para servir ao rapaz é duramente dispensada porque teria concedido um filme para menina mais nova, mediante chantagem. Diante a demissão, o pai resolve criar um ambiente promíscuo onde os filhos realizem seus desejos sexuais. Só que ele não esperava que a filha mais velha, que é servida com objeto sexual do irmão tivesse uma reação tão repulsiva, ao ponto de não querer mais permanecer naquela casa. O sexo tem o papel de catalisador, como em toda a história da humanidade, e mobiliza a fuga da menina, daquele ambiente, mostrando a completa impossibilidade de se prever a reação das pessoas diante dessas situações. O que pode ser visto como uma coisa agradável é capaz se transformar  se transformar no pior dos infernos, dependendo de como ele é representado subjetivamente. Para homens e mulheres, a sexualidade tem contornos distintos, como pretende passar Dentes Caninos.

A direção do filme é competente, mas conservadora. A história se desenrola de forma linear e harmônica, com cortes de cenas secos e pouco poéticos. Talvez para manter o espírito árido, quase asséptico, que é buscado pelo pai, durante toda a história. Isso não impede que também seja gerado um clima tenso e nervoso, que acompanha todo o desenvolvimento do roteiro, que demonstra claramente que a insanidade do pai percorre todo aquele ambiente. Não é uma história fácil de ser digerida, mas capaz de gerar conceitos polissêmicos e um certo estranhamento em algum desavisado. Achei interessante.  

quinta-feira, junho 28

Deus da Carnificina - Polanski

De repente é como eu estivesse de volta a uma sala de cinema exibindo um filme do Fassbinder, que gostava muito de produções baseadas em peças teatrais, com roteiros desenvolvidos em um único ambiente. É assim que desenvolve-se O Deus da Carnificina (Carnage), do diretor Roman Polanski, inteiramente baseado na peça com o mesmo nome, de Yasmina Reza, roteirista e atriz francesa.  Fazia tempo que não assistia nada em formato de plot teatral.

A história conta, como bem sabem aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a peça, o encontro entre dois casais, de meia idade, que tiveram seus filhos envolvidos em um conflito de adolescentes. Aos 11 anos de idade, o filho de Alan (Christopher Waltz) e Nancy (Kate Winslet) agrediu o filho de Michael (John Reilly) e Penélope (Jodie Foster), com uma vara de bambu. As razões do desentendimento são irrelevantes, nem sequer são apresentadas pelo filme. A única coisa que se sabe além da agressão é que dois dentes do agredido foram lesionados, mas as reparações serão cobertas pelo seguro de saúde.

O que o filme procura mostrar é a diferença de abordagem que o problema traz. E são quatro pontos de vista que parecem convergir para o ponto da civilidade e da possibilidade de uma convivência pacífica pós conflito, ao mesmo tempo que são diametralmente opostos quando melhor esmiuçados. Tanto pelo lado sexista. Os homens consideram normal que meninos, ingressando na puberdade, possam deixar aflorar o seu lado agressivo, e até formar gangues para demonstrar a sua ascendência sobre os demais  meninos do mesmo grupo e sobre  grupos adversários, enquanto que as mulheres abominam qualquer tipo de comportamento inamistoso, e remetem tais práticas a falhas de educação paterna.

Com o aprofundamento das diferenças entre todos, aos poucos vai se deslindando o que pareciam casais harmoniosos. Alan, um advogado aparentemente bem sucedido e sua esposa, Nancy, uma corretora de imóveis, mostram a sua face de uma relação já desgastada pelo tempo, onde a vida profissional já sufocou completamente a relação. Com efeito, durante toda o desenrolar da história, no interior do apartamento de Michael e Nancy, o diálogo entre os quatro é constantemente interrompido por ligações telefônicas de um cliente de Alan. Este não tem o menor pudor de voltar toda a sua atenção para o celular, enquanto os demais se perturbam com isso, ou fingem que não. Essas interrupções, a princípio, chegaram até mesmo me irritar, mas depois tornam-se hilárias. Assim como as constantes idas e vindas do casal visitante até a porta do elevador, para em seguida, por qualquer motivo, voltarem ao apartamento. E sempre por razões diferentes.

Polanski resolveu localizar a cena na cidade de Nova Iorque, meio querendo dizer aos americanos que não precisa voltar para o país para  filmar novos filmes. Assim com Lars Von Trier, que adora cutucar o ianques, no território deles, sem nunca ter cruzado o Atlântico. Mas acho que ele também quis dar um ar de cosmopolita às questões abordadas no roteiro. Nada melhor que a cidade americana, possuidora de uma diversidade cultural ímpar.

O Rei da Carnificina é o que se pode chamar de comédia, apesar de as piadas em nenhum momento arrancarem nenhum riso. Só sorrisos de canto de boca, mesmo porque sua força, como qualquer peça teatral, está nos diálogos. Não que a câmera não estivesse beirando a perfeição, conseguindo quebrar, com os seus movimentos, uma provável monotonia de uma filmagem quase que totalmente em um só ambiente. Certamente, não é o melhor de Polanski, que já nos deu obras como Chinatown, Tess, O Pianista, Oliver Twist, Dança dos Vampiros e Faca na Água, mas é divertido.


sexta-feira, junho 8

Prometheus de Ridley Scott

Um libelo feminista, onde duas mulheres estão no comando, e tomam todas as decisões, apesar de inconvenientes para alguns homens. Uma delas mostra, inclusive, como é capaz de se desfazer de uma gravidez indesejável. Uma visão freudiana poderia reduzir Prometheus, de Ridley Scott, a isso. A história, no entanto, nos remete aos principais segredos ainda não revelados  da humanidade. Quem somos, de onde viemos e por que estamos aqui. É claro que não se trata de um estudo científico ou filosófico. Scott apenas aponta uma direção, de forma absolutamente ficcional. Em sua abordagem cinematográfica, a humanidade foi gerada a partir de DNAs alienígenas, o que só transferiria a origem da vida para outro ponto do universo.

A história tem início em um passado incerto, quando um ser humanóide de outro planeta, às margens de uma catarata, resolve se decompor, ingerindo uma determinada substância com esse poder, liberando o seu DNA, sob as vistas de uma nave alienígena. Isso sugere, então que o ser humano, que viria surgir alguns milênios depois, teria essa origem. Inevitável a comparação com 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Com um diferencial, já que na história original, de Arthur C Clarke, é sugerido que foram os seres de outro planeta que induziram o desenvolvimento da capacidade intelectiva humana, sem haver doação de material genético.

Assim como em 2001, os alienígenas também deixaram pistas para serem localizados. Os monólitos da scifi de Kubrick são substituídos por desenhos em cavernas e artefatos arqueológicos. Estes dariam a posição exata no universo, de onde teria se originado a missão alien que trouxe consigo a possibilidade do povoamento da terra. E são os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que não amavam as mulheres) e seu namorado (noivo?, marido?) Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) quem matam a charada e convencem a um megamilionário à beira da morte, que a a expedição vale a pena.

A viagem para o planeta indicado por imagens pré-históricas, provavelmente produzidas pelos aliens que originaram a humanidade, é feita em animação suspensa por longos dois anos e alguns meses, sendo administrada por um robô de forma humana David que tem capacidades múltiplas. Mais uma referência ao 2001 e seu supercomputador Hall. E como o seu antepassado ficcional, ele tem também a capacidade de melar algumas situações, criando nódulos dramáticos indispensáveis à trama.

Na nave Prometheus surje também questões como quais são as prioridades da missão. Se esta deve preservar o caráter meramente científico, na busca pela origem da humanidade ou se há perspectivas econômicas a serem salvaguardadas. Elizabeth pelo lado da ciência e Meredith Vickers (Charlize Theron), herdeira do capitalista que financiou a expedição, se antagonizam, inclusive sobre quem é o verdadeiro comando da missão. Meio previsível saber para que lado a produção cinematográfica vai pender, diante do histórico recente de desfechos de situações semelhantes na indústria de Hollywood.

Daqui para frente, vão alguns spoillers. A expedição ao chegar ao planeta indicado, se depara com o que seria uma nave alien camuflada. A camuflagem só é percebida com o desenrolar da trama. Aparentemente deserta, e no interior de uma grande formação rochosa, aos poucos vai se descobrindo que há formas de vida no local. É também encontrado uma câmara de animação suspensa do que seriam os nossos progenitores genéticos. Um único ser dessa espécie teria sobrevivido a algum tipo de extermínio, que a princípio não está exatamente claro. Mas depois se descobre que foi provocado pela espécime que se consagrou em Alien, o oitavo passageiro, o inimigo número um da tenente Ripley.

David, em uma das idas até a nave, recolhe um material alienígena, e faz com que o namorado de Elizabeth ingira desavisadamente. Uma atitude que pareceu um mero experimento, mas que trouxe repercussões danosas a todos. Charlie se transforma em um ser altamente destrutivo, e assassina alguns tripulantes, reduzindo drasticamente a população.

O megamilionário caquético, que se passava por morto, na realidade ainda está vivo dentro da nave, e participa de uma nova ida para a nave alien, com o objetivo de despertar o ser encapsulado. O velhinho tem a ambição de encontrar uma fórmula de longevidade e prorrogar a sua miserável existência, e se possível com um pouco mais de qualidade. Ou seja, o que seria filantropia, passa a configurar uma ambição sem tamanhos.


Mas o despertar do espécime humanóide se mostra um erro. O ser é altamente hostil e passa a matar todos os que estão em sua volta, chegando a separar a cabeça do corpo do robô. A outra parte da expedição, que aguarda na Prometheus, assiste a tudo. Vickers ordena a decolagem imediata da nave, abandonando o restante da tripulação sobrevivente do acesso de cólera do alien. Também é descoberto que aquela nave seria uma arma de destruição em massa apontada para a terra. Parece que os “nossos criadores”, não teriam gostado do resultado alcançado.

O grande mérito do filme é a sua capacidade de gerar tensões. David, logo de início dá mostras do seu desapego a qualquer diretriz que coloque a vida da tripulação como prioridade. Mas não chega a demonstrar a paranóia delirante de Hall ou de outros intelectos eletrônicos que piram o cabeção, tão comuns em produções scifi. Ele é também a chave da sobrevivência de Elizabeth, deixando de lado o maniqueísmo onde há um lado essencialmente bom e outro inapelavelmente ruim. Achei uma sacada esse desfecho. Mas também aparece a questão salvar a pele ou a humanidade. Que achei meio clichê, mas orgânica para o desfecho da história, que se propõe a ser a protogênese de Alien o oitavo passageiro.

A estória, mesmo com as semelhanças com 2001, uma odisseia no espaço é instigante, e não faltam cargas de suspense, e alguma escatologia própria de Scott, que nos pede alguma fortaleza de nossos estômagos. Foi uma boa diversão. Só que o 3D é absolutamente dispensável, sob todos os aspectos. Só um jeitinho de os distribuidores cobrarem a mais por um produto que custa a metade.

sexta-feira, fevereiro 24

O Artista


Interessante a ideia de que estão fazendo deste filme. A originalidade de voltar ao passado de forma tão contundente. Algo como a paradona da Mangueira. Original por não fazer exatamente nada de novo, só devolver o silêncio pré-existente ao publico. Rodado em preto e branco e em dimensões 6x9, afrontando o formato wide screen popularizado até pelas televisões de lcd, led, plasma e outros tecnologias de ponta, O Artista ousa, fazendo o mais retrôs dos filmes da atualidade. E por isso mesmo consegue ser indicado ao Oscar, que será entregue no próximo domingo.

A história é simples e angustiante. Um ator de muito sucesso do cinema mudo se vê numa encruzilhada ao surgir o cinema falado. De espírito conservador, não vê a novidade da época como uma promessa revolucionária, e recusa-se a aderir a nova era do cinema. Aposta tudo na sua imagem que fazia muito sucesso nas telas e dá as costas ao estudio quando este ingressa nas produções sonorizadas.

Após rejeitar a ideia de atuar em um filme falado, no início dos anos 30, George Valentin investe em sua própria produção muda. O fracasso é retumbante, o que lhe leva à falência. De ator famoso, super vaidoso, passa a ostracismo rapidamente, o que o obriga a vender todos os seus bens. O seu motorista e secretário pessoal está há um ano sem receber salário. O casamento, que não era esses balaios todos, se desmonta totalmente e só resta a ele a bebedeira. Interessante ver uma cena em que ele sai de uma sala de projeção vazia onde é exibido o seu filme e o cartaz que emoldura a cena é "lonely man", ou alguma coisa assim...

Mas nem tudo está perdido na vida Valentin. Uma atriz que ele ajudou no início da carreira e passou sem dificuldades para o cinema falado quer ajudá-lo. Mas ele não está muito para aceitar o auxílio, porque no início da sua crise existencial ouviu dela palavras que o incomodaram muito.

Confesso que não foi uma coisa muito confortável assistir ao filme. A gente fica esperando a todo momento que a sonorização entre e nos devolva o conforto dos diálogos, sem a necessidade de subtitles. Mas não chega de ser interessante, embora não tenha nem de longe a lucidez e a graça de um Charlie Chaplin mudo. Também não sei se a mesma história se sustentaria de houvesse falas em O Artista. Tudo fica no exercício da imaginação. Mas, sinceramente, não podemos chamar esse filme de indispensável. Acho que em pouco tempo será esquecido, uma curiosidade que será lembrado somente pelos cinéfilos mais voltados a curiosidades do que a qualidade das produções.




Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch.

Direção: Michel Hazanavicius
Gênero: Romance, Comédia, Drama
Duração: 100 min.

quarta-feira, fevereiro 15

Drive


Se a gente assistir sem se preocupar em saber alguma coisa previamente, nem acompanhar os créditos, vai ficar pensando que acabou de assistir um filme de Tarantino, ou do Fincher. Ele tem uma pegada que não é muito comum na maioria dos thrillers de ação hollywoodianos, e talvez esteja aí a sua maior virtude. Meritos para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.

O roteiro coloca como pratagonista um mecânico de carros, que nas horas vagas é doublê em Hollywood e sonha em ser piloto de corrida, que não tem nome, e e chamado durante a trama apenas por kid (menino) por alguns dos outros personagens. Ele nos é apresentado como motorista de assaltos na cenas iniciais. Trabalha com eficiência, do tipo que impõe uma série de normas aos seus contratantes.

Nada se sabe de sua vida. Nem há nenhuma preocupação em construção de um tipo psicológico. Ele apenas é do jeito que é. Um cara de poucas palavras, que se dedica a suas atividades, mas ao mesmo tempo é capaz de transmitir uma ternura a sua vizinha e o filho dela. Ela é simpática aos seus acenos de gentileza. Garçonete em uma lanchonete, cria o filho só, enquanto o pai dele cumpre pena em algum presídio.

A história segue sem fazer juizos de valor. Não há os bons. Todos têm suas culpas a esconder, inclusive a garçonete, que se envolve emocionamente com o driver. E esconde o caso do seu relacionamento conjugal, quando este deixa a prisão. A questão dramática passa a ser se kid vai ou não ficar com a garçonete e seu filho.

A trama toma rumo de filme de ação quando quando o marido da vizinha é solto e ameçado violentamente por ex-companheiros de trapaças para regressar ao crime. Uma antiga dívida tem de ser paga com fruto de roubo. O kid se propõe a ajudar, para evitar que a sua vizinha e o filho dela sejam vítimas dos chefões da bandidagem.

A coisa vai ficando mais uma vez enrolada, porque não se trata de um crime comum. É um roubo a outro mafioso que é realizado, e o protagonista se percebe em um olho de furacão. Como uma casca de cebola, os fatos vão sendo apresentados como uma crise cada vez maior, onde a vida de ninguém está a salvo. Ameaças surgem de todos os lados. O clime fica cada vez mais tenso, até a cena final.

Vale destacar ainda a trilha sonora de Drive. Fantástica. É como se a história estivesse sendo contada pela música e tivesse uma trilha visual, de tão intensa e pertinente, ao mesmo tempo que não é reduntante, não se propõe apenas a criar um clima. Pelo que li na net, deve tá estreando no cinema após o carnaval. Pode assistir, se gostar de filme de suspense.

O filme tem alguma coisa de Selvagem da Motocicleta, do Coppola, que assisti faz tempo. Quem tiver visto, vai entender a referência que eu falo. Valeu a dica, mais uma vez, Anna!

Título original: Drive
Lançamento: 2011
País: EUA
Direção: Nicolas Winding Refn
Atores: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks.
Duração: 100 min

segunda-feira, janeiro 30

Histórias Cruzadas


Este é um filme que a gente assiste e fica entendendo porque foi indicado ao Oscar quando um meia boca como Descendentes está cotado com um dos favoritos? Mas faz muito tempo que eu desisti de querer ver sentido artístico nessas indicações. Tudo corre por conta do viés político comercial mesmo, creio.

Histórias cruzadas tem como principal cenário a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, principalmente nos estados do Sul, onde a história é ambientada. Na pequena cidade de Jackson, no Mississipi mora a jovem Eugenia Phelan, apelidada pelas amigas por Skeeter. Recém formada na universidade do Mississipi, ela quer ser escritora, e consegue um emprego no jornal local, com um baixo salário mas como forma de se manter.

Ao retornar para casa, Skeeter percebe que a sua antiga babá, e empregada doméstica de sua mãe já não está mais entre a sua família, e questiona o porquê. Afinal de contas algumas moças da região criavam laços de extrema afetividade com suas amas, uma vez que as mães, ao que consta só tinha mesmo o trabalho de parir de lançar as crias aos braços de suas domésticas.

As amas negras criavam as crianças brancas com um extremo afeto, substituindo, quase sempre o amor materno que era negado pelas jovens mães. Apesar disso, as meninas e meninos, ao crescer logo adotavamos modelos de seus pais biológicos de preconceitos e ares de superioridade em relação aos negros. Carga que herdaram dos tempos de escravatura, que se deu de forma muito mais acentuada no sul dos EUA.

Mas Skeeter não reproduziu o modelo, e a busca pelo destino de sua antiga ama não a deixa engolir respostas esfarradas de seus pais. Neste contexto, ela começa a observar, já com o olhar amadurecido, como as empregadas domésticas são tratadas em diversos lares. Mesmo deixando as suas casas para cuidar das dos brancos, elas têm um tratamento de subrraça. A liga das senhoras brancas exerce uma pressão doentia sobre todas, de forma preservar a discriminação histórica. Qualquer tentativa de conciliação é fator de repulsa severa.

Há também na cidade de Jackson a pressão em cima de todas as jovens solteiras. Arrumar um bom casamento deve prevalecer sob qualquer outro projeto de vida. Skeeter não se mosta satisfeita com esta questão, e até aceita se envolver com um certo primo de uma fulaninha, só para sair do cenário de solteiras irremediáveis, e até chega a se apaixonar pelo sujeito. Porém, desiste dele, quando percebe no parceiro a mesma sanha preconceituosa reinante no meio.

Numa tentativa de fazer algo para mudar a realidade daquela gente, e ao mesmo tempo lançar-se o mercado editorial, seu principal sonho de formação profissional, Skeeter começa a escrever sobre a vida das domésticas negras. A princípio encontra resistência por parte das negras, que temem represálias. A Ku Klux Khan existe e é forte naqueles primeiros anos da década de 60.

O filme realmente vale a pena ser visto, principalmente por nós terceiromundistas, que ainda dispomos de empregadas domésticas, e não raras vezes a tratamos como se nem humanos fossem. Essa discriminação eu mesmo pude presenciar na minha família, e tenho me esforçado para não repeti-la. Mas não sou eu quem posso julgar-me se estou no caminho certo, ou não.

Historias cruzadas também nos remete a todos outros episódios de nossa história, onde uma determinada etnia passa a sofrer a repulsa de algum outro setor majoritário, que detém a hegemonia do poder. Vide o holocausto dos judeus, na Segunda Guerra. E nem por isso a lição foi aprendida. Que o diga o palestino residente na Faixa de Gaza. Não se pode julgar todos os alemães por Hitler e seu séquito, assim como não pode se dizer que todo o Wasp (White, Anglo Saxonic, Protestant) seja ruim. A conquista pelos direitos civis foi dos negros americanos, mas há de se lembrar de que brancos que viram além dos modelos reproduzidos pelas gerações também se ombrearam nesta luta, que é de toda a humanidade. Ou pelo menos do lado sensato da humanidade.

Recomendo sem reservas.

Direção:
Tate Taylor

Roteiro:
Tate Taylor

Elenco:
Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Ahna O'Reilly, Allison Janney, Anna Camp, Chris Lowell, Cicely Tyson, Mike Vogel


quinta-feira, janeiro 12

Sob o domínio do medo

Straw dogs


Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs – cachorro de palha, em uma tradução literal) é uma refilmagem. O original é de 1971, dirigido Sam Peckinpah, com Dustin Hoffman interpretando o protagonista. Eu estava esperando assistir o antigo primeiro para só em seguida escrever sobre a nova versão de 2011. Já está no HD, ainda inédito aos meus olhos, mas vamos em frente. Este filme é pura tensão, desde o início. Que nos leva a uma desequilíbrio constante. Não dá para respirar tranquilo enquanto não chega ao fim.

A história conta a chegada de um roteirista de Hollywood, David Summer (James Mardsen), em uma pacata cidade do interior do sul dos Estados Unidos, com a sua esposa, Amy (Kate Bosworth) uma jovem atriz e, talvez a mais ilustre personalidade do lugarejo. Ela havia herdado uma propriedade do seu pai e resolveram passar uma temporada na cidade e aproveitar a tranquilidade da região. Nada como escrever um novo roteiro no silêncio do campo.

Mas a tão almejada tranquilidade rapidamente se dissipa. Logo que chegam ao local a Amy, considerada uma celebridade por todos da cidade, principalmente os homens, por seu trabalho em um seriado de TV, é visivelmente cobiçada. E ela não se nega de lançar boas doses de sensualidade ao meio, como se divertisse em atrair as atenções masculinas. Entre estas, a de um ex-namorado (Alexander Skarsgard), que se acha ainda no direito de se insinuar para Amy.

Na trama não falta também o valentão do bar, que não aceita o assédio de um homem, com distúrbios mentais a sua filha, e o espanca rotineiramente, sob o pretexto de mantê-lo afastado. Aparentemente descontextualizada, essa subtrama, no entanto, assume importância fundamental no desfecho da história, mostrando bastante engenhosidade na concepção do roteiro. Um inserção orgânica e convincente.

A tensão, mobilizada por Amy amplia-se de proporção a medida em que ela resolve provocar os quatro trabalhadores contratados para consertar a coberta da garagem de sua propriedade, entre esses o seu ex-namorado. Por conta de uma discussão com o marido, Amy troca-se de janela aberta, na altura do telhado, encarando aqueles homens, em trajes de serviço. Isso desperta a sanha machista dos trabalhadores que tramam de alguma forma satisfazer os instintos. A partir desse ponto, não há monotonia. O público antecipa o que está prestes a explodir, enquanto David apenas suspeita que algo não está correto, nas relações de sua esposa com os habitantes da cidade, notadamente os homens.

Os trabalhadores, com a evolução da história, sentem-se cada vez mais a vontade na propriedade, já que estão em maior número e são visivelmente mais condicionados fisicamente que o roteirista. Com isso, aprofunda-se um processo de intimidação e o cerco a Amy. E nada parece deter o curso dos acontecimentos, nos levando a um desfecho com forte carga dramática. Soma-se a isso, uma possível crise do casal, que volta e meia trocam acusações entre si. ele visto por ela como um covarde por não enfrentar os caras que a assediam e ele por considerar o comportamento de sua esposa excessivamente sensual, principalmente em uma cidade pequena, do sul dos EUA.

Vale aqui dizer que o filme original escandalizou o público e a crítica da época, por sua violência em cenas explícitas. A refilmagem, que foi baseado no mesmo livro Straw Dogs não deixa nada a desejar nesses dois itens. Apesar de os roteiristas serem outros, a montagem da história se deu de forma linear, meio que abandonando a tendência atual de histórias pontuadas de flashbacks, que muitas vezes me entediam. Um bom filme que merece ser visto por todos e principalmente por quem curte histórias contadas com primor.

Diretor: Rod Lurie
Elenco: Kate Bosworth, Alexander Skarsgård, James Marsden, James Woods, Dominic Purcell
Produção: Marc Frydman, Rod Lurie
Roteiro: Rod Lurie, baseado na obra de Gordon Williams
Fotografia: Alik Sakharov
Trilha Sonora: Larry Groupé
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Suspense

terça-feira, janeiro 10

Tomboy


Tomboy é a expressão em inglês que designa meninas que se vestem e se portam como meninos. E é assim que a protagonista deste filme, Laura (Zoé Héran) é, é apresentada. Logo na primeira cena, ela está com o pai, que dirige o carro, quando é colocada no coloco para assumir o volante, coisa que se faz, geralmente com os filhos e não com as filhas. A família está de mudança para os arredores de Paris.

Ao chegar em seu novo endereço, Laura assume para as crianças da vizinhança a personalidade masculina e se apresenta como Michel. A sua aparência e as vestimentas a auxiliam a desempenhar esse papel. Logo é aceita nas brincadeiras dos meninos e mais que aceita por Lisa, uma menina que se apaixona pelo novo “menino” do quarteirão.

Tomboy é bem rápido. Em pouco mais de 70 minutos toda a trama e desenvolvida, mostrando a vida de uma jovem, com pouco mais de 10 anos, que não aceita muito bem a sua condição feminina. Mas isso, no lar, passa a ser um segredo entre ela e a irmã mais nova. A questão da homossexualidade é só arranhada pela trama. Ela apenas demonstra uma satisfação mínima ao ser beijada por Lisa.

Por se tratar de uma criança, ficamos na dúvida se o papel masculino escolhido por Laura é apenas uma tentativa de ser aceita pelo grupo de meninos, ou se há mesmo inclinações mais acentuadas para o lesbianismo. O filme foge dessa questão, e procura apenas apresentar o caso, sem buscar origens ou respostas definitivas.

Roteirizado e dirigido por Celine Sciamma (Lírios D’água), Tomboy tem uma pegada suave, sem procurar nos desestabilizar de nossa função de público. Apesar de ter um cenário contemporâneo, o filme nos remete ao tempo que os pais eram capazes de dar o ajuste necessário à personalidade dos filhos, sem recorrer a psicólogos, ou ficar pondo as mãos nas cabeças e perguntando aonde erraram na educação de suas crias. É um filme interessante, mas que a sua maior virtude, não produzir julgamentos nem apontaram culpados, talvez seja também a sua maior fragilidade.

segunda-feira, janeiro 9

Um conto chinês



Minha professora de roteiro Juliana Reis falou que depois de Freud nenhuma personagem de qualquer história pode ficar sem uma explicação sobre os seus comportamentos. É preciso dar algum sentido a aquela personalidade. Em Um Conto Chinês, o roteiro procura explicar Roberto (Roberto Darin), um personagem misantropo, de mau com a vida, e extremamente metódico, ao ponto de apagar a luz religiosamente somente quando o relógio assinala 23 horas, nem um segundo a mais ou a menos; como um trauma com a guerra das Malvinas. Onde combateu, nos meados dos anos 80.

Dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, Roberto nunca tem tempo para ninguém. Solitário em seu estabelecimento, está sempre ocupado com o estoque ou o atendimento de algum cliente. Nunca troca um número de palavras além do necessário, estritamente necessário. Tudo segue a mais monótona rotina, até que durante um tempo de folga, quando se diverte solitariamente vendo aviões descendo no aeroporto (que coisa mais paulista!), depara-se com um chinês sendo expulso de um taxi, depois de ser assaltado.

Não tendo outra coisa a fazer, Roberto acaba socorrendo Jun, o chinês que não fala uma gota de espanhol, mas que irá transformar a sua vida. O estrangeiro está em busca de seu tio que residiria em Buenos Aires. Só que não é encontrado no endereço que tinha. Já havia deixado o local há mais de dois anos. Roberto tenta então deixá-lo na embaixada ou na delegacia de polícia, sem sucesso. O jeito é levá-lo para casa, a muito contragosto. Por alguma razão inexplicável, aquele ser birracento, revoltado com o mundo acolhe o chinês em sua casa e se vê obrigado a mudar a sua rotina e começa lentamente ele mesmo também se transformar, por forças das circunstâncias.

O filme continua com uma busca incessante ao tio de Jun, que não sabe aonde está. Nem mesmo se está em algum lugar. Este é o pano de fundo que dá cenário às alterações que vão ocorrendo a passos lentos na vida de Roberto. Como todo filme baseado em fatos reais, a gente percebe problemas, como a falta de nós dramáticos que dêem alguma movimentação maior às cenas. Tudo é muito seco, e até mesmo a escolha da trilha sonora é preocupante. É a única alteração que se percebe na evolução da história. Como se a música extradiegética quisesse mostrar alguma mudança que de fato não acontece na tela.

Dos filmes que assisti com Darin, esse seja talvez seja o mais fraco. Nada que se aproxime do maravilhoso Segredo dos Seus olhos ou de o Pai da Noiva. Eu debito isso, em grande parte, ao fato de ser baseado em fatos reais. A realidade não raras vezes carece da dramaticidade que uma produção cinematográfica precisa para fugir dos lugares comuns. É o tipo de filme que ninguém precisa assistir, salvo por mera curiosidade. Cinema argentino também tem suas produções medíocres, é minha conclusão.

domingo, janeiro 8

Precisamos falar sobre Kevin


We need talk about Kevin

Precisamos falar sobre Kevin é tenso. Desde as cenas iniciais. No princípio, nós somos levados ao desconforto e a desestabilidade a partir de ruídos diegéticos (contextualizados), como perfuratrizes, cortadeiras de grama, aspiradores de pó e outros equipamentos e ferramentas ruidosas. A partir daí, a relação conflituosa entre o filho Kevin e sua mãe Eva se encarrega de nos incomodar por toda a película, em uma narrativa não linear que não se preocupa em esclarecer os fatos que sugere ou exibe.

O filme, baseado no livro de mesmo nome, de Lionel Shriver, tem Eva Katchadourian (Tilda Swinton) como protagonista. Vivendo um casamento estável, tem a sua vida desequilibrada quando nasce o seu filho Kevin (Ezra Miller e Jasper Newell). Ela procura ser uma mãe normal, dando atenção e afeto à cria, mas o menino, desde a mais tenra idade, já demonstra todo o seu desapreço à mãe, ao mesmo tempo que demonstra um comportamento normal em relação ao pai, Franklim. Eva se preocupa com essa situação e chega a levar o filho a uma médico, temendo um autismo, que não é confirmado pelo diagnóstico.

Como a narrativa não segue a linha do tempo, as constantes idas e vindas do roteiro nos forçam a compor um quebra-cabeça para montarmos a história. Em todos os trechos há tensões e cenas expondo situações desagradáveis entre mãe e filho. Ele faz questão de demonstrar o desamor em vários momentos, quer quebrando lápis de ceras que lhe foram dados, quer pichando o quarto recém decorado dela. A situação é incômoda, mas Eva não desiste, e sempre procura contornar os conflitos.

A cada tentativa, uma nova frustração. Não adianta querer puxar conversa sobre trivialidades, jogar partidas de mini-golfe ou um jantar em um restaurante. Kevin só dá trégua uma única vez, quando adoece e aceita os afagos da mãe, ao mesmo tempo em que rejeita momentaneamente o pai, companheiro de todas as horas. Mas é coisa rápida, logo o mau humor com a mãe retorna.

Eva tem uma nova gravidez e uma filha, que logo passa a ser objeto de judiação de Kevin. As coisas não mudam até a adolescência, quando incidentes domésticos levam a perda de um olho da menina. Nada é muito esclarecido, suspeitas são quase evidenciadas, mas sempre paira dúvidas sobre responsabilidades. Eva continua se esforçando para ter uma relação normal com o filho mas a cada nova tentativa vem outra frustração.

E como tantos outros meninos desajustados, Kevin transforma-se em um serial killer em sua escola. E parece que ele foi o único responsável por isso. Tinha um lar ajustado, pais normais, mesmo assim, desenvolveu uma personalidade doentia, implacável, que o levou a premeditar assassinatos em série, usando um arco e flechas, que foram presentes do pai. Nem assim, a mãe foi capaz de abandoná-lo. A pergunta que fica: será que precisava ser assim e nada pode ser feito para se evitar uma tragédia? O filme é interessante, mas não aborda, nem se aprofunda nessas questões, como se houvesse uma certa inevitabilidade nos comportamentos de psicopatas. Eu não sei se é assim mesmo.

Mesmo evitando mostrar as cenas mais pesadas que acontecem ao longo da trama, Precisamos falar sobre Kevin não dá vida fácil ao público, que se vê em meio a situações de desconforto pela tensão que cada cena gera. É uma conversa que não acontece, apesar de sua urgência. Se estiver procurando diversão leve, não irá encontrar nesse filme, mas é uma trama bem interessante, apesar de deixar mais perguntas do que respostas ao final.

Agradeço a Aline, pela dica. =)