Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, fevereiro 15

Drive


Se a gente assistir sem se preocupar em saber alguma coisa previamente, nem acompanhar os créditos, vai ficar pensando que acabou de assistir um filme de Tarantino, ou do Fincher. Ele tem uma pegada que não é muito comum na maioria dos thrillers de ação hollywoodianos, e talvez esteja aí a sua maior virtude. Meritos para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.

O roteiro coloca como pratagonista um mecânico de carros, que nas horas vagas é doublê em Hollywood e sonha em ser piloto de corrida, que não tem nome, e e chamado durante a trama apenas por kid (menino) por alguns dos outros personagens. Ele nos é apresentado como motorista de assaltos na cenas iniciais. Trabalha com eficiência, do tipo que impõe uma série de normas aos seus contratantes.

Nada se sabe de sua vida. Nem há nenhuma preocupação em construção de um tipo psicológico. Ele apenas é do jeito que é. Um cara de poucas palavras, que se dedica a suas atividades, mas ao mesmo tempo é capaz de transmitir uma ternura a sua vizinha e o filho dela. Ela é simpática aos seus acenos de gentileza. Garçonete em uma lanchonete, cria o filho só, enquanto o pai dele cumpre pena em algum presídio.

A história segue sem fazer juizos de valor. Não há os bons. Todos têm suas culpas a esconder, inclusive a garçonete, que se envolve emocionamente com o driver. E esconde o caso do seu relacionamento conjugal, quando este deixa a prisão. A questão dramática passa a ser se kid vai ou não ficar com a garçonete e seu filho.

A trama toma rumo de filme de ação quando quando o marido da vizinha é solto e ameçado violentamente por ex-companheiros de trapaças para regressar ao crime. Uma antiga dívida tem de ser paga com fruto de roubo. O kid se propõe a ajudar, para evitar que a sua vizinha e o filho dela sejam vítimas dos chefões da bandidagem.

A coisa vai ficando mais uma vez enrolada, porque não se trata de um crime comum. É um roubo a outro mafioso que é realizado, e o protagonista se percebe em um olho de furacão. Como uma casca de cebola, os fatos vão sendo apresentados como uma crise cada vez maior, onde a vida de ninguém está a salvo. Ameaças surgem de todos os lados. O clime fica cada vez mais tenso, até a cena final.

Vale destacar ainda a trilha sonora de Drive. Fantástica. É como se a história estivesse sendo contada pela música e tivesse uma trilha visual, de tão intensa e pertinente, ao mesmo tempo que não é reduntante, não se propõe apenas a criar um clima. Pelo que li na net, deve tá estreando no cinema após o carnaval. Pode assistir, se gostar de filme de suspense.

O filme tem alguma coisa de Selvagem da Motocicleta, do Coppola, que assisti faz tempo. Quem tiver visto, vai entender a referência que eu falo. Valeu a dica, mais uma vez, Anna!

Título original: Drive
Lançamento: 2011
País: EUA
Direção: Nicolas Winding Refn
Atores: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks.
Duração: 100 min

segunda-feira, janeiro 9

Um conto chinês



Minha professora de roteiro Juliana Reis falou que depois de Freud nenhuma personagem de qualquer história pode ficar sem uma explicação sobre os seus comportamentos. É preciso dar algum sentido a aquela personalidade. Em Um Conto Chinês, o roteiro procura explicar Roberto (Roberto Darin), um personagem misantropo, de mau com a vida, e extremamente metódico, ao ponto de apagar a luz religiosamente somente quando o relógio assinala 23 horas, nem um segundo a mais ou a menos; como um trauma com a guerra das Malvinas. Onde combateu, nos meados dos anos 80.

Dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, Roberto nunca tem tempo para ninguém. Solitário em seu estabelecimento, está sempre ocupado com o estoque ou o atendimento de algum cliente. Nunca troca um número de palavras além do necessário, estritamente necessário. Tudo segue a mais monótona rotina, até que durante um tempo de folga, quando se diverte solitariamente vendo aviões descendo no aeroporto (que coisa mais paulista!), depara-se com um chinês sendo expulso de um taxi, depois de ser assaltado.

Não tendo outra coisa a fazer, Roberto acaba socorrendo Jun, o chinês que não fala uma gota de espanhol, mas que irá transformar a sua vida. O estrangeiro está em busca de seu tio que residiria em Buenos Aires. Só que não é encontrado no endereço que tinha. Já havia deixado o local há mais de dois anos. Roberto tenta então deixá-lo na embaixada ou na delegacia de polícia, sem sucesso. O jeito é levá-lo para casa, a muito contragosto. Por alguma razão inexplicável, aquele ser birracento, revoltado com o mundo acolhe o chinês em sua casa e se vê obrigado a mudar a sua rotina e começa lentamente ele mesmo também se transformar, por forças das circunstâncias.

O filme continua com uma busca incessante ao tio de Jun, que não sabe aonde está. Nem mesmo se está em algum lugar. Este é o pano de fundo que dá cenário às alterações que vão ocorrendo a passos lentos na vida de Roberto. Como todo filme baseado em fatos reais, a gente percebe problemas, como a falta de nós dramáticos que dêem alguma movimentação maior às cenas. Tudo é muito seco, e até mesmo a escolha da trilha sonora é preocupante. É a única alteração que se percebe na evolução da história. Como se a música extradiegética quisesse mostrar alguma mudança que de fato não acontece na tela.

Dos filmes que assisti com Darin, esse seja talvez seja o mais fraco. Nada que se aproxime do maravilhoso Segredo dos Seus olhos ou de o Pai da Noiva. Eu debito isso, em grande parte, ao fato de ser baseado em fatos reais. A realidade não raras vezes carece da dramaticidade que uma produção cinematográfica precisa para fugir dos lugares comuns. É o tipo de filme que ninguém precisa assistir, salvo por mera curiosidade. Cinema argentino também tem suas produções medíocres, é minha conclusão.

quarta-feira, janeiro 4

Amor a toda prova


Amor a toda a prova certamente não seria o filme que eu escolheria para ver, se não tivesse uma boa dica. O ator-protagonista Cal (Steve Carell) tende a me afastar de qualquer produção que participe. Não porque me dou alguma maior importância a interpretações, mas porque os papeis que ele desempenha, os bobões de meia idade, só existem em filmes que não me atraem. Mas a pessoa que me indicou, a Anna, sabe o que fala.

A história inicia-se mostrando um casal com 25 anos de enlace jantando em um restaurante, quando a esposa Emily ( Julianne Moore) pede o divórcio. Cal, um sujeito um tanto quanto malamanhado, capaz de combinar terno com tênis cafonas, surpreende-se e imagina-se chifrado, o que é confirmado logo em seguida. E não se aquieta enquanto não conta a novidade para dois dos seus três filhos, sem economizar no sentido das frases que usa nas explicações. O amigo de trabalho de Emily estava fazendo a tarefa que ele próprio parecia não dar mais conta.

O tênis de cal assume um simbolismo próprio. Ele representa todo o desleixo e a acomodação do personagem com aquela vidinha perfeita, ao lado da mulher amada, sua primeira namorada, conhecida ainda no tempo de colégio. Aquele ritmo monocórdio, sem surpresas e modorrento parece ter entediado sobremaneira a vida de Emily, que buscou nos braços de seu colega de trabalho algum tempero para si. A situação nos é apresentada de tal forma que não há como tomar partido. Se por um lado nos compadecemos pela montanha russa que passa a viver Cal, sem a sua amada, não tiramos dela o direito de buscar sensações que a preencha.

Os diretores Glenn Ficarra e John Requa também se utilizam de outro simbolismo que me chamou a atenção. O jardim da casa do casal. Mesmo depois de separados, Cal continua a secretamente a cuidar do ambiente, noite a dentro, meio que para se redimir da falta de zelo que teve com a própria esposa, e demonstrando o sentimento que ainda nutre por ela.

Não tendo outro coisa a fazer, Cal passa a ser freqüentador contumaz de um bar, usando as mesmos trajes desarrumados de sempre, e contando para todos quantos chegassem perto a sua trágica história de amor desfeito. O garanhão do bar se compadece com a tragédia, e o ensina a canalizar as suas energias a atividades de conquista sexual, não sem antes assessorá-lo na compra e roupas mais adequadas para o seu novo modus vivendi. De marido abandonado transforma-se em objeto de desejo, a partir de orientações passadas por Jacob (Ryan Gosling).

Apesar de sua nova vida sexualmente satisfatória, Cal não deixa de pensar na sua agora ex-esposa, nem de continuar zelando pelo jardim. Emily também não está feliz em sua nova condição, e procura conter a tristeza fazendo chamadas telefônicas para o ex-marido somente para jogar conversa fora, inventando razões triviais, como ligar o aquecedor da casa, que somente ele saberia.

O roteiro é bem amarrado, com subtramas interessantes: o filho do casal que se apaixona pela babysitter que por sua vez apaixona-se por Cal e a virada na vida de Jacob, que finalmente, depois de traçar todas no bar encontra o amor de sua vida. O final é previsível, mas as viradas inteligentes que acontecem dão um bom brilho a essa produção despretenciosa, e nos causam algumas surpresas ao longo da história. Os clichês que surgem, como um discurso na escola do filho, são facilmente digeríveis, basta não ser tão exigente, já que o gênero comédia romântica não consegue mesmo escapar de alguns. No final, nos é mostrado que mesmo com o desgaste das rotinas, na previsibilidade e monotonia da realidade de um casamento é ainda possível se resgatar e atualizar velhos sentimentos, quando se há disposição para isso.

Gostei de ter assistido. Valeu Anna!

sexta-feira, dezembro 30

As canções



Pessoas simples, histórias comuns, emoções semelhantes, permeadas por músicas em sua maioria vitrolões. As canções, de Eduardo Coutinho, poderia ser batizando de Sentimentos. O diretor desse documentário lança um olhar delicado, poético e sensível sobre momentos marcados por canções de cada personagem real que nos é apresentado através do filme. São pessoas anônimas mas com passagens universais de suas vidas. Perdas, amores desfeitos, relacionamentos impossíveis e efêmeros, mas que no entanto marcaram para toda vida, respectivamente acompanhados de uma trilha sonora.

Sentados em uma cadeira sobre um palco, tendo como pano de fundo cortinas, os personagens-pessoas desfiam suas histórias, e cantam as músicas, sem nenhum acompanhamento instrumental, que ajudam a avivar o momento e as emoções. Não raro, vertem lágrimas impulsionados pelas lembranças. É comovente para qualquer um as cenas mostradas, meio que força a nós, plateia passiva, a buscar em nosso interior experiências correlatas nossas, ou em pessoas que fazem nosso cotidiano. Eu particularmente, me vi remetido em muitos momentos. E quase que canto uma velha música.

São apenas 90 minutos que passam incrivelmente rápido. E uma fala me chamou a atenção. “Como ter lembranças sem música?” Em mim, não funciona exatamente assim. Há muitas coisas vivas, que ainda preciso acrescentar uma trilha a elas. Mas, sem dúvida, assim como os cheiros, a música fala diretamente ao coração.

Infelizmente, não há uma cultura de se assistir documentários. Uma sala de exibição praticamente vazia, na única sessão do dia é um tanto quanto melancólico. Principalmente quando a gente identifica tanta qualidade na produção que assistiu. Realmente lindo.

PS. Algumas pessoas me falaram de outros filmes, que poderiam figurar entre os 10 melhores. Acontece que não incluí os que vi em 2010, como Cisne negro, Bravura Indômita e outros, que foram disponibilizados antes de chegar às salas do país.

segunda-feira, dezembro 26

Tudo pelo poder

Confesso que fui atraído por críticas positivas. Cinco estrelas de Villaça não são poucas coisas, pelo menos em tese. Mas a produção Tudo pelo poder (Ides of march) me surpreendeu negativamente. Não sei aonde viram qualidade nesse filme para considerá-lo um os prováveis indicados ao Oscar. Mas com tanta porcaria que já conseguiu essa láurea, é possível. George Clooney que dirige e coadjuva esse filme tem o seu lugar no olimpo hollywoodiano.

A história conta os incidentes de uma campanha primária do partido democrata do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos Mike Morris (Clooney). Os republicanos, na altura do campeonato, estão praticamente sepultados e vencer a refrega interna assegura a Casa Branca ao vencedor. Morris é dono do discurso mais progressista, daqueles que quer secundar algumas questões como religiosidade, direitos civis para homossexuais, defendendo um país igualitário para todos. Só que se vê ameaçado de perder a prévia e vive o dilema entre a derrota e fazer um acordo com um governador ambicioso e conservador para chegar ao seu objetivo. Opta pelo segundo, é claro, para justificar o título.

Idos de março, tradução literal, seria um nome mais honesto para o filme. Tudo pelo poder não faz juz. Idos de março seria uma alusão ao assassinato de Julio Cesar pelo senado romano, a partir de uma traição. Só que em Tudo pelo poder não acontece exatamente uma, que apesar de se assemelhar como tal, trata-se de uma queda de braço entre o coordenador da campanha Paul Zara (Seymour Hoffman) e o assessor de imprensa Sthepen Meyers (Ryan Goslin), segundo homem na hierarquia da campanha. Em política, traições são desconsideradas na disputa pelo poder. Na realidade, são mais vistas como realinhamento de forças.

Fazendo-se de protagonista do filme, Meyers é de uma ingenuidade a toda prova. Primeiro, aceita o convite para o encontro com o coordenador de campanha adversário, que aparentemente tenta seduzi-lo, vendendo a ideia de que Meyers estaria do lado perdedor e que poderia se sair melhor mudando de lado. É óbvio que isso é um desespero. Onde já se viu alguém que está vislumbrando a vitória cooptar mais gente para dividir os louros? Não convenceu o assessor espertinho ser tão ingênuo de uma hora para outra.

Não quero aqui entregar toda a trama, para quem quiser ainda conferir. Mas os lances que se joga nesta disputa política são todos tão óbvios que não falta a estagiariazinha sedutora-seduzida do candidato. Parece que toda eleição tem de ter uma. Nas campanhas aqui, isso não causou problema. Também de uma infantilidade a toda prova a relação entre o assessor e a jornalista de um grande periódico. Quem minimamente conhece os meandros dessas relações não dorme no ponto, nem se deixa apanhar de cobertor curto.

Mas essas falhas no roteiro, demonstrando muita ingenuidade não é o mais grave. A história é arrastada e perde-se em nódulos dramáticos desinteressantes ao mesmo tempo em que muitas questões não ficam claras. Tais como a existência de um certo bilhete, que se transforma no pivô de uma chantagem. Somente o óbvio do óbvio é evidente, como: em brigas pelo poder não há como se preservar relações de afetividade.

quarta-feira, junho 29

Meia Noite em Paris


Woody Allen volta a ser Woody Allen no Meia Noite em Paris. O personagem protagonista é visivelmente o diretor-roteirista, se tivesse uns 50 anos a menos. Como o tempo passou, ele escalou Owen Wilson para o papel de Gil Pender, um roteirista hollywoodiano que se encontra infeliz com a sua condição escritor de filmes rasos, porém de sucesso, para as produtoras de cinema da California. Quer mudar o seu destino e viaja a Paris, ao lado de noiva e futuros sogros buscando inspiração para concluir o seu primeiro romance para não precisar mais se envolver com a indústria do show business de Los Angeles.

Porém não são só os roteiros que escreve que não o satisfazem. Às vésperas do casamento, demonstra uma certa tibieza com a sua decisão de ir ao altar, porém com uma alguma resignação. Afinal todos têm diferenças entre si, ele e a noiva também. Nada mais que isso. Os futuros sogros não gostam do quase genro, surgem diferenças até de ordem política. Eles são republicanos, em toda a extensão que isso representa e o protagonista, não. Bem woody Allen mostrando de forma escrachada toda a defesa empedernida do way of life da América que os americanos Wasp ainda se apegam. O diretor trata com ironia deslavada as tentativas dos sogros ianques de desqualificar a cultura francesa, sempre se colocando em um pedestal acima.

O desconforto que o roteirista tem com as produções de Hollywood são de ordem intelectual. Ele é bem remunerado e a noiva o incentiva a continuar na carreira. Porém ele não quer voltar a trabalhar em obras sem nenhuma profundidade ou qualidade artística. Woody Allen também despreza esse cinema da costa oeste. Tanto é assim que nunca foi buscar as estatuetas da academia que já arrematou. Prefere Nova Iorque ou paragens europeias.

Em Paris , Gil e a noiva Inez (Rachel Mc Adams) tem o azar (ou a sorte) de encontrar um ex-professor dela, Paul (Michael Sheen) que arrota cultura insinuando-se ser superior aos demais seres vivos. Porém, não demonstra nenhuma empatia com as obras visitadas ou com os autores. Prefere fazer descrições, empulhar dados e desfiar datas a falar sobre a essência das pinturas, arquiteturas ou esculturas. É claro que Inez, republicana como ela, se derrete com aquele ar blasé do professor. Gil, visivelmente descontente com a situação, busca programações alternativas e se desgarra da noiva durante as noites parisienses.

Depois de tomar alguns vinhos em um determinado bar da capital francesa, Gil se ver surpreendido por um carro antigo com aparência de recém saído de fábrica que lhe oferece carona. Não se relutar, ele aceita o convite e descobre que os seus hostess são nada menos que o casal Fitzgerald, que o leva para uma série de lugares, onde o protagonista conhece pessoas como Hemingway, Salvador Dali, Pablo Picasso, T.S. Eliott, e Gertrude Stein, que aceita ler o seu livro e oferecer sugestões para melhorá-lo. Afinal, há muitas diferenças entre roteiros rasos e obras literárias de qualidade e Gil ainda está inseguro quanto aos seus dotes literários. Gertrude era amiga pessoal de Picasso, Matisse, James Joyce e Hemingway e uma espécie de alterego de todos.

Gil se vê entre dois mundos. Aquele que ele tanto sonhava e que julgava ser o maior momento da evolução humana, os anos 20, na cidade que considera o modelo para humanidade, Paris, e o tempo real, onde uma noiva meio ou muito sem sal o aguarda para uma vida em que já está acostumado a levar e que apesar de tudo, acostumou-se e vive sem sobressaltos.

O contato com uma outra realidade possível lhe põe dúvidas. Acho que da mesma natureza das que teve quando resolveu separar-se de Mia Farrow e passou a viver com a enteada Soon Yi. O desfecho a partir daí torna-se previsível, principalmente porque foi impulsionado por incidentes de natureza carnal. Ele tem que decidir entre continuar com a sua vidinha ou se aventurar mudando-se para Paris e todas as representações que isso significa.

O filme é bastante instigante e nos leva a pensar sobre vidas possíveis, e a certeza que de só saberemos sobre o que iremos escolher. Os "ses" se perdem na linha do tempo. Muito bom filme, que não poupa nem os medalhões da cultura mundial, dando-lhes traços caricatas. Impagável Dalí sempre tão preocupado com as formas dos rinocerontes.

PS. Filme digno de um oscar, que nunca ganhará por ser um desafeto da academia.

sexta-feira, junho 24

Matador em Perigo e Assassinato à Preço Fixo



Depois de Homens com Cheiro de Flor, do Joe Pimentel, mais dois filmes sobre pistolagem me chegaram aos olhos, por esses dias. Matador em Perigo e Assassino à Preço Fixo. O primeiro é um triller de ação, refilmagem de uma produção de 1972, interpretado pelo sempre cara de mau Charles Bronson. O segundo, uma comédia.

Mas os dois tem uma coisa em comum: procuram fazer com que o público se identifique com o matador. Acho que isso tem a ver com o momento em que os Estados Unidos passam, se obrigando a promover assassinatos em vários pontos do planeta. Aliás, penso que nunca existiu um tempo em que os americanos não estivesse à caça de alguém fartamente estampado como inimigo da humanidade.

Em Assassino à Preço Fixo, o sempre canastrão Jason Statham faz o que está tão acostumado a repetir nas telas: exibição de músculos, alguma arte marcial, a impessoal expressão facial que serve tanto para mostrar felicidade, tristeza, alegria ou raiva. Quem já assistiu qualquer interpretação(?) desse ator viu todas. O assassino codinome o Mecânico, interpretado por ele, inicia o filme promovendo um assassinato contratado a preço de ouro na Colômbia. Claro, o inimigo deve ser controlador de algum cartel de coca, apesar de isso não ficar explícito. Nada mais justificado do que assassinar em território estrangeiro e nenhum julgamento formal um traficante.

Logo após esse assassinato que abre o filme, o Mecânico é contratado para dar cabo ao seu antigo contratante, sobre a alegação de que ele estaria pondo em risco a indústria de homicídios. É um velho amigo seu, mas fazer o quê, quem paga, tem direito ao serviço. O matador cumpre a missão, mas só depois descobre que foi enganado. E aí passa a perseguir os seus contratantes. Pronto, o filme é esse. Um caçada com todos os requintes de estúdio e de efeitos especiais que Hollywood permite. Tudo feito às claras e sem a menor preocupação com o aparelho estatal. Polícia não aparece sem como coadjuvante. Para quem gosta do gênero, boa sorte, ideologias à parte.

Matador em Perigo é mais divertido. Uma comédia onde o pistoleiro Victor Mainard ( Bill Nighy de Piratas do Caribe) passa-se por um lord inglês. Ou melhor, tenta ser esse lord, e até estuda francês. Mas ele não é o protagonista. Esse posto é ocupado por Rose (Emily Blunt de O Diabo Veste Prada), uma ladra inveterada, que rouba tudo que vê pela sempre. Ela resolve dar o seu golpe de mestre, vendendo uma falsificação de Van Gogh. Só que a tramoia é descoberta e o colecionador lesada contrata o pistoleiro para matá-la.

Porém, em vez de cumprir a sua tarefa, Mainard prefere defendê-la de outros pistoleiros, os próprios capangas do colecionador, que por conta e risco pretendiam executar Rose, numa tentativa de agradar o patrão. Após um tiroteio em um estacionamento de prédio, Rose e Mainard escapam em um carro e ela o contrata como segurança, sem saber que ele havia sido incubido de sua execução.

A comédia é bem divertida. E pelas informações não será levada as telas, se resumindo a DVDs em locadoras. Para ver sem compromisso.

Assisti também recentemente Sucker Punch, um filme estranho, que se alguém desejar posso comentar alguma coisa a respeito.


Matador em Perigo' (Wild target)

Elenco: Rupert Grint, Bill Nighy e Emily Blunt

A trama é uma refilmagem de Cible Emouvante, do diretor francês Pierre Salvadori.

Direção: Jonathan Lynn.




Assassino à Preço Fixo (The Mechanic)

Elenco:
Jason Statham, Ben Foster, Donald Sutherland, Jeff Chase, Joel Davis.

Direção: Simon West


PS. Também assisti o novo X-Men. Nada a comentar. Mais do mesmo.

quarta-feira, maio 4

O Ritual


Desde O Exorcista, filme baseado no livro do mesmo nome de William Peter Blatty e roteirizado pelo próprio autor. nenhum outro filme que tratasse no mesmo gênero despertou uma maior atenção do público. Talvez pela baixa qualidade das produções que se seguiram, ou pela previsibilidade do tema, que na década de 70 surgiu com um certo ar de ineditismo. E, para os costumes da época meio que escandalizou a opinião pública, notadamente porque em uma de suas cenas sugeriu a masturbação de uma adolescente de 12 anos, totalmente transfigurada pela possessão, com um crucifixo. Duas heresias em uma mesma cena, que deve ter sido a mais comentada nas rodinhas de cinéfilos.

Quase 40 anos depois, 38, para ser mais exato, é lançado O Ritual que também aborda posessão e exorcismo. Para quem já está acostumado a diariamente assistir pastores evangélicos promovendo seus cirquinhos particulares de horrores, botando para correr trancas ruas e exus inadvertidos e estimulando a fé pelo medo, de há muito o capeta não mete medo em quase niguém. Esse filme tem a árdua tarefa de reabilitar o exorcismo cinematográfico. E para tanto traz o sempre brilhante ator Athony Hopkins como o padre exorcista Lucas, um dos últimos dessa especialidade, que tem como tarefa devolver a fé e ao mesmo tempo treinar o noviço Michael Novak, vivido por Colin O'Donnoghue.

Michael está se preparando para ser padre, nos Estados Unidos, quando tem um acesso de falta de fé, dentro do seminário. Pede baixa da ordem, mas o seu superior pede para que ele faça uma última tentativa em busca de sua espiritualidade perdida. O esforço será fazer um curso de exorcismo em Roma. Ele aceita meio a contragosto, cedendo a uma chantagem. Se deixasse o seminário teria de reembolsar o investimento na sua educação feito pela ordem.

Em Roma, conhece a jornalista vivida por Alice Braga, por quem sente uma certa atração, que será cobrada pelo coisa-ruim, e o padre Lucas, seu mentor. Só que o exorcismo que presencia lhe soa pouco convincente. Ele, inclusive, sugere que o padre indique outro profissional para a vítima da posessão, uma jovem grávida pelo próprio pai, uma vez que ele identifica sinais claros de distúrbios psicológicos na adolescente.

O padre Lucas, com anos e anos de prática, milhares de exorcismos realizados, obviamente que não aceita a sugestão, e atribui o não reconhecimento da possessão à ausência de fé do noviço. Esse antagonismo entre professor e aluno amarra a trama e dar um ar de veracidade. E provas vão surgindo de lado a lado, até que Michael rende-se a pressão de ver o seu próprio mentor também possuído.

Eu calculo que esse filme tem também o objetivo de simbolicamente resgatar a fé dos adeptos do catolicismo, demonstrando que os seus próprios pastores são também passíveis de tentações, como tão bem foi mostrado pela imprensa mundial, em diversos e diversos casos de pedofilia. O demônio fixou residencia intramuros dos herdeiros de São Pedro. O filme vale para quem gosta do gênero.

PS . Perguntaram-me se o Bin Laden Morreu mesmo, ou não. Respondi que isso não faz nenhuma diferença porque mesmo se ele estiver vivo, jamais vai conseguir provar, dada a vontade irregreável da mídia mundial em querer referendar a versão do Grande Irmão Obama.

The Rite
EUA , 2011 - 114 min.
Suspense

Direção:
Mikael Håfström

Roteiro:
Michael Petroni

Elenco:
Anthony Hopkins, Colin O'Donoghue, Alice Braga, Ciarán Hinds, Toby Jones, Rutger Hauer, Marta Gastini, Maria Grazia Cucinotta, Arianna Veronesi, Andrea Calligari

sábado, abril 16

Sexo Sem Compromisso


Todas as relações entre homem e mulher que envolvam sexo, e que os contatos se repitam um certo número de vezes, inevitavelmente vai caminhar para um contrato estável, tendendo inexoravelmente para o conservadorismo da monogamia. Por mais super descolados que só e modernos que possam ser os parceiros.

É mais ou menos essa a tese que a roteirista Elizabeth Meriwether parece defender em Sexo Sem Compromisso, filme dirigido por Ivan Reitman (Ghostbusters, Ggotsbusters II, Minha Super Ex-Namorada). Assim como em Amor e Outras Drogas (de Edward Zwick), a protagonista não quer saber de se envolver com os caras, só relações fugazes que satisfaçam seus instintos. Nada além disso.

Emma Kurtzman (Natalie Portman) é uma médica recém formada que só pensa em sua vida profissional. Trata os seus relacionamentos de uma forma que se fosse homem seria machista. Não dá nenhuma importância aos parceiros, os quais tem a única tarefa de sastisfazê-la em momento de necessidade.

A história se inicia quando ela, ainda adolescente, encontra com Adam (Ashton Kutcher) em um acapamento de férias. O menino está sofrendo porque os pais estão se separando e ela procura consolá-lo, um tanto quanto sem jeito. Essa primeira cena tem como objetivo sinalizar que Adam é emotivo, e sofre com a situação de sua famiíla, enquanto Emma é a menina que não sabe lidar com os conflitos existenciais dos outros. Ela mesmo não sofre por isso.

Anos depois, que é mostrado desnecessariamente em letras garrafais, voltam a se encontrar em uma típica e ridícula festa de universidade e no enterro do pai de Emma, quando ela diz que se ele tiver sorte, nunca mais irão se encontrar, mais uma vez preparando para um suposto sofrimento que virá inapelavelmente.

Mas como todos esperam, o destino os unem novamente e eles tem a primeira transa, e fazem um acordo, por iniciativa de Emma. Nenhum envolvimento emocional só muto sexo e uma mínima dose de amizade. Afinal, a vida profissional dela, agora médica dividindo apartamento com colegas de profissão não dá tempo para romantismos, contratos de amor e fidelidade.

Adam (agora roteirista de tv) tem novo problema com o pai (kevin Kline). Dessa vez ele resolve ser corno de uma ex-namorada, que está vivendo com seu progenitor. Ele sofre com isso ao ponto de machucar a mão esmurrando uma porta, quando soube da notícia. A sua ex é retratada como uma perfeita idiota. Não consegui entender tanto sofrimento por tão pouco. Mas tudo bem, estamos em Hollywood. Afinal o objetivo da roteirista é tão somente reforçar a fragilidade emocional de Adam diante das imtempéries da vida. Emma mais uma vez desconfortavelmente o ajuda a segurar as pontas.

O filme segue acelerado, mostrando cenas rápidas de transas fugazes até que Adam pede a Emma uma noite romântica para comemorar seu aniversário. Tudo começa divertido e bem, até que se transforma em desastre quando fica excessivamente melodramático. Isso é tudo que Emma não tolera, não suporta, foge léguas. Assim, resolve não vê-lo mais novamente.

O ponto de virada é o casamento da irmã de Emma. Naquele ambiente emocionalmente ampliado, lhe vem um acesso de saudade e um desejo de ter também um envolvimento contratual com Adam, que ainda lhe diz algumas por telefone, como se não quisesse mais nada com ela. É Emma quem tem de ir a luta para conquistar o homem de sua vida. Afinal, ninguém é feliz sozinho. O final é o clichê de sempre, que tanto satisfaz as mentes e os corações femininos ( a maioria deles, pelo menos.

No filme há uma nuance que merece destaque. Um médico, amigo de Emma, que também quer conquistá-la tem um Toyota Prius, um carro ecológico, que possui motor a gasolina e elétrico. No final do filme é revelada uma relação homossexual dele. O veículo sinalizando seu lado totalflex. Achei criativo e bem sacado.

No Strings Attached

EUA , 2011 - 111 minutos
Comédia / Romance

Direção:
Ivan Reitman

Roteiro:
Elizabeth Meriwether e Michael Samonek

Elenco:
Natalie Portman, Ashton Kutcher, Kevin Kline, Cary Elwes, Greta Gerwig, Lake Bell, Olivia Thirby, Ludacris

segunda-feira, abril 11

Bruna Surfistinha


Terminei de ver e fiquei pensando que o único objetivo desse filme foi mesmo faturar grana tirando a roupa e colocando Débora Seco em cenas eróticas. O que não o faz, de todo. A história não me pareceu verossímil e pelas informações que circulam na Internet há muitas omissões, como se para preservar alguma dignidade da personagem protagonista.

Bruna Surfistinha é baseado em um livro do mesmo nome, que conta a história de Raquel, uma menina ainda na adolescência que resolve abandonar o lar de seus pais adotivos para ingressar de forma irreversivel na prostituição. No início, a personagem principal é mostrada como uma jovem não muito afeita aos estudos, que tem problemas de relacionamento com o pai e com o irmão. E sua mãe é uma chata que lhe cerca de todas e exageradas atenções.

No colégio particular é vista como meio estranha, sem muita facilidade de relacionamento, mais por sua timidez e complexos do que qualquer outra coisa. Isso, no entanto, não a impede de receber convite para ir "estudar" na casa de um colega bem abastado, que a seduz, e depois divulga as suas proezas com os colegas. É claro que Raquel é vítima da onda que a sua turma lhe arma.

As dificuldades de relacionamento em casa e a situação em que se meteu na escola a levam a sair de casa e procurar uma casa de prostituição. Não se vê com nenhuma outra possibilidade de emprego ou atividade remunerada. Não sabe fazer nada senão vender o próprio corpo, o que faz, a princípio com uma suportável matiz de sofrimento. Em breve, aprende todas as manhas do meio e se acha até mais esperta do que as outras suas colegas porque manuseia com razoável habilidade as ferramentas de Internet.

Daí para frente, a fita se perde em lugares comum: a sedução de um guarda de trânsito, o ingresso no mundo das drogas, a decadência, a volta por cima, e o suposto príncipe encantado que nunca vira sapo e está presente em toda a sua trajetória. Não falta ainda o libelo de que é melhor se prostituir e viver por conta própria a ter de ser sustentada por alguém, como lhe foi oferecido pelo bem de vida. Uma moral questionável, mas que é o climax do filme.

Muitas coisas não são explicadas, como a iniciação sexual de Raquel, a sua passagem pelas produções pornôs, e como ela lida com as suas escolhas. Há uma inquietante, pelo menos para mim, normalização dos padrões das prostitutas, sem trazer as questões sociais que o setor envolve. Sem dúvidas, sexo a dinheiro é tratado como uma atividade econômica e social como quaquer outra. Fiquei até pensando que irão lançar o Bruna 2, a Saga Continua.

PS. para quem está esperando grande coisa, Débora Seco é melhor vestida.