De repente é como eu estivesse de volta a uma sala de cinema exibindo um filme do Fassbinder, que gostava muito de produções baseadas em peças teatrais, com roteiros desenvolvidos em um único ambiente. É assim que desenvolve-se O Deus da Carnificina (Carnage), do diretor Roman Polanski, inteiramente baseado na peça com o mesmo nome, de Yasmina Reza, roteirista e atriz francesa. Fazia tempo que não assistia nada em formato de plot teatral.
A história conta, como bem sabem aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a peça, o encontro entre dois casais, de meia idade, que tiveram seus filhos envolvidos em um conflito de adolescentes. Aos 11 anos de idade, o filho de Alan (Christopher Waltz) e Nancy (Kate Winslet) agrediu o filho de Michael (John Reilly) e Penélope (Jodie Foster), com uma vara de bambu. As razões do desentendimento são irrelevantes, nem sequer são apresentadas pelo filme. A única coisa que se sabe além da agressão é que dois dentes do agredido foram lesionados, mas as reparações serão cobertas pelo seguro de saúde.
O que o filme procura mostrar é a diferença de abordagem que o problema traz. E são quatro pontos de vista que parecem convergir para o ponto da civilidade e da possibilidade de uma convivência pacífica pós conflito, ao mesmo tempo que são diametralmente opostos quando melhor esmiuçados. Tanto pelo lado sexista. Os homens consideram normal que meninos, ingressando na puberdade, possam deixar aflorar o seu lado agressivo, e até formar gangues para demonstrar a sua ascendência sobre os demais meninos do mesmo grupo e sobre grupos adversários, enquanto que as mulheres abominam qualquer tipo de comportamento inamistoso, e remetem tais práticas a falhas de educação paterna.
Com o aprofundamento das diferenças entre todos, aos poucos vai se deslindando o que pareciam casais harmoniosos. Alan, um advogado aparentemente bem sucedido e sua esposa, Nancy, uma corretora de imóveis, mostram a sua face de uma relação já desgastada pelo tempo, onde a vida profissional já sufocou completamente a relação. Com efeito, durante toda o desenrolar da história, no interior do apartamento de Michael e Nancy, o diálogo entre os quatro é constantemente interrompido por ligações telefônicas de um cliente de Alan. Este não tem o menor pudor de voltar toda a sua atenção para o celular, enquanto os demais se perturbam com isso, ou fingem que não. Essas interrupções, a princípio, chegaram até mesmo me irritar, mas depois tornam-se hilárias. Assim como as constantes idas e vindas do casal visitante até a porta do elevador, para em seguida, por qualquer motivo, voltarem ao apartamento. E sempre por razões diferentes.
Polanski resolveu localizar a cena na cidade de Nova Iorque, meio querendo dizer aos americanos que não precisa voltar para o país para filmar novos filmes. Assim com Lars Von Trier, que adora cutucar o ianques, no território deles, sem nunca ter cruzado o Atlântico. Mas acho que ele também quis dar um ar de cosmopolita às questões abordadas no roteiro. Nada melhor que a cidade americana, possuidora de uma diversidade cultural ímpar.
O Rei da Carnificina é o que se pode chamar de comédia, apesar de as piadas em nenhum momento arrancarem nenhum riso. Só sorrisos de canto de boca, mesmo porque sua força, como qualquer peça teatral, está nos diálogos. Não que a câmera não estivesse beirando a perfeição, conseguindo quebrar, com os seus movimentos, uma provável monotonia de uma filmagem quase que totalmente em um só ambiente. Certamente, não é o melhor de Polanski, que já nos deu obras como Chinatown, Tess, O Pianista, Oliver Twist, Dança dos Vampiros e Faca na Água, mas é divertido.
quinta-feira, junho 28
sexta-feira, junho 8
Prometheus de Ridley Scott
Um libelo feminista,
onde duas mulheres estão no comando, e tomam todas as decisões,
apesar de inconvenientes para alguns homens. Uma delas mostra,
inclusive, como é capaz de se desfazer de uma gravidez indesejável.
Uma visão freudiana poderia reduzir Prometheus, de Ridley Scott, a
isso. A história, no entanto, nos remete aos principais segredos
ainda não revelados da humanidade. Quem somos, de onde viemos e por
que estamos aqui. É claro que não se trata de um estudo científico
ou filosófico. Scott apenas aponta uma direção, de forma
absolutamente ficcional. Em sua abordagem cinematográfica, a
humanidade foi gerada a partir de DNAs alienígenas, o que só
transferiria a origem da vida para outro ponto do universo.
A história tem início
em um passado incerto, quando um ser humanóide de outro planeta, às
margens de uma catarata, resolve se decompor, ingerindo uma
determinada substância com esse poder, liberando o seu DNA, sob as
vistas de uma nave alienígena. Isso sugere, então que o ser
humano, que viria surgir alguns milênios depois, teria essa origem.
Inevitável a comparação com 2001 Uma Odisseia no Espaço, de
Stanley Kubrick. Com um diferencial, já que na história original,
de Arthur C Clarke, é sugerido que foram os seres de outro planeta
que induziram o desenvolvimento da capacidade intelectiva humana, sem
haver doação de material genético.
Assim como em 2001, os
alienígenas também deixaram pistas para serem localizados. Os
monólitos da scifi de Kubrick são substituídos por desenhos em
cavernas e artefatos arqueológicos. Estes dariam a posição exata
no universo, de onde teria se originado a missão alien que trouxe
consigo a possibilidade do povoamento da terra. E são os arqueólogos
Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de
Os Homens que não amavam as mulheres) e seu namorado (noivo?,
marido?) Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) quem matam a charada
e convencem a um megamilionário à beira da morte, que a a expedição
vale a pena.
A viagem para o planeta
indicado por imagens pré-históricas, provavelmente produzidas
pelos aliens que originaram a humanidade, é feita em animação
suspensa por longos dois anos e alguns meses, sendo administrada por
um robô de forma humana David que tem capacidades múltiplas. Mais uma
referência ao 2001 e seu supercomputador Hall. E como o seu
antepassado ficcional, ele tem também a capacidade de melar algumas
situações, criando nódulos dramáticos indispensáveis à trama.
Na nave Prometheus
surje também questões como quais são as prioridades da missão. Se
esta deve preservar o caráter meramente científico, na busca pela origem da
humanidade ou se há perspectivas econômicas a serem salvaguardadas.
Elizabeth pelo lado da ciência e Meredith Vickers (Charlize Theron),
herdeira do capitalista que financiou a expedição, se antagonizam,
inclusive sobre quem é o verdadeiro comando da missão. Meio
previsível saber para que lado a produção cinematográfica vai
pender, diante do histórico recente de desfechos de situações
semelhantes na indústria de Hollywood.
Daqui para frente, vão
alguns spoillers. A expedição ao chegar ao planeta indicado, se
depara com o que seria uma nave alien camuflada. A camuflagem só é
percebida com o desenrolar da trama. Aparentemente deserta, e no
interior de uma grande formação rochosa, aos poucos vai se
descobrindo que há formas de vida no local. É também encontrado
uma câmara de animação suspensa do que seriam os nossos
progenitores genéticos. Um único ser dessa espécie teria
sobrevivido a algum tipo de extermínio, que a princípio não está
exatamente claro. Mas depois se descobre que foi provocado pela
espécime que se consagrou em Alien, o oitavo passageiro, o inimigo
número um da tenente Ripley.
David, em uma das idas
até a nave, recolhe um material alienígena, e faz com que o
namorado de Elizabeth ingira desavisadamente. Uma atitude que pareceu
um mero experimento, mas que trouxe repercussões danosas a todos.
Charlie se transforma em um ser altamente destrutivo, e assassina
alguns tripulantes, reduzindo drasticamente a população.
O megamilionário
caquético, que se passava por morto, na realidade ainda está vivo
dentro da nave, e participa de uma nova ida para a nave alien, com o
objetivo de despertar o ser encapsulado. O velhinho tem a ambição
de encontrar uma fórmula de longevidade e prorrogar a sua miserável
existência, e se possível com um pouco mais de qualidade. Ou seja,
o que seria filantropia, passa a configurar uma ambição sem
tamanhos.
Mas o despertar do
espécime humanóide se mostra um erro. O ser é altamente hostil e
passa a matar todos os que estão em sua volta, chegando a separar a
cabeça do corpo do robô. A outra parte da expedição, que aguarda
na Prometheus, assiste a tudo. Vickers ordena a decolagem imediata da
nave, abandonando o restante da tripulação sobrevivente do acesso
de cólera do alien. Também é descoberto que aquela nave seria uma
arma de destruição em massa apontada para a terra. Parece que os
“nossos criadores”, não teriam gostado do resultado alcançado.
O grande mérito do
filme é a sua capacidade de gerar tensões. David, logo de início
dá mostras do seu desapego a qualquer diretriz que coloque a vida da
tripulação como prioridade. Mas não chega a demonstrar a paranóia
delirante de Hall ou de outros intelectos eletrônicos que piram o
cabeção, tão comuns em produções scifi. Ele é também a chave
da sobrevivência de Elizabeth, deixando de lado o maniqueísmo onde
há um lado essencialmente bom e outro inapelavelmente ruim. Achei
uma sacada esse desfecho. Mas também aparece a questão salvar a
pele ou a humanidade. Que achei meio clichê, mas orgânica para o
desfecho da história, que se propõe a ser a protogênese de Alien o
oitavo passageiro.
A estória, mesmo com
as semelhanças com 2001, uma odisseia no espaço é instigante, e
não faltam cargas de suspense, e alguma escatologia própria de
Scott, que nos pede alguma fortaleza de nossos estômagos. Foi uma
boa diversão. Só que o 3D é absolutamente dispensável, sob todos
os aspectos. Só um jeitinho de os distribuidores cobrarem a mais por
um produto que custa a metade.
sexta-feira, fevereiro 24
O Artista

Interessante a ideia de que estão fazendo deste filme. A originalidade de voltar ao passado de forma tão contundente. Algo como a paradona da Mangueira. Original por não fazer exatamente nada de novo, só devolver o silêncio pré-existente ao publico. Rodado em preto e branco e em dimensões 6x9, afrontando o formato wide screen popularizado até pelas televisões de lcd, led, plasma e outros tecnologias de ponta, O Artista ousa, fazendo o mais retrôs dos filmes da atualidade. E por isso mesmo consegue ser indicado ao Oscar, que será entregue no próximo domingo.
A história é simples e angustiante. Um ator de muito sucesso do cinema mudo se vê numa encruzilhada ao surgir o cinema falado. De espírito conservador, não vê a novidade da época como uma promessa revolucionária, e recusa-se a aderir a nova era do cinema. Aposta tudo na sua imagem que fazia muito sucesso nas telas e dá as costas ao estudio quando este ingressa nas produções sonorizadas.
Após rejeitar a ideia de atuar em um filme falado, no início dos anos 30, George Valentin investe em sua própria produção muda. O fracasso é retumbante, o que lhe leva à falência. De ator famoso, super vaidoso, passa a ostracismo rapidamente, o que o obriga a vender todos os seus bens. O seu motorista e secretário pessoal está há um ano sem receber salário. O casamento, que não era esses balaios todos, se desmonta totalmente e só resta a ele a bebedeira. Interessante ver uma cena em que ele sai de uma sala de projeção vazia onde é exibido o seu filme e o cartaz que emoldura a cena é "lonely man", ou alguma coisa assim...
Mas nem tudo está perdido na vida Valentin. Uma atriz que ele ajudou no início da carreira e passou sem dificuldades para o cinema falado quer ajudá-lo. Mas ele não está muito para aceitar o auxílio, porque no início da sua crise existencial ouviu dela palavras que o incomodaram muito.
Confesso que não foi uma coisa muito confortável assistir ao filme. A gente fica esperando a todo momento que a sonorização entre e nos devolva o conforto dos diálogos, sem a necessidade de subtitles. Mas não chega de ser interessante, embora não tenha nem de longe a lucidez e a graça de um Charlie Chaplin mudo. Também não sei se a mesma história se sustentaria de houvesse falas em O Artista. Tudo fica no exercício da imaginação. Mas, sinceramente, não podemos chamar esse filme de indispensável. Acho que em pouco tempo será esquecido, uma curiosidade que será lembrado somente pelos cinéfilos mais voltados a curiosidades do que a qualidade das produções.
A história é simples e angustiante. Um ator de muito sucesso do cinema mudo se vê numa encruzilhada ao surgir o cinema falado. De espírito conservador, não vê a novidade da época como uma promessa revolucionária, e recusa-se a aderir a nova era do cinema. Aposta tudo na sua imagem que fazia muito sucesso nas telas e dá as costas ao estudio quando este ingressa nas produções sonorizadas.
Após rejeitar a ideia de atuar em um filme falado, no início dos anos 30, George Valentin investe em sua própria produção muda. O fracasso é retumbante, o que lhe leva à falência. De ator famoso, super vaidoso, passa a ostracismo rapidamente, o que o obriga a vender todos os seus bens. O seu motorista e secretário pessoal está há um ano sem receber salário. O casamento, que não era esses balaios todos, se desmonta totalmente e só resta a ele a bebedeira. Interessante ver uma cena em que ele sai de uma sala de projeção vazia onde é exibido o seu filme e o cartaz que emoldura a cena é "lonely man", ou alguma coisa assim...
Mas nem tudo está perdido na vida Valentin. Uma atriz que ele ajudou no início da carreira e passou sem dificuldades para o cinema falado quer ajudá-lo. Mas ele não está muito para aceitar o auxílio, porque no início da sua crise existencial ouviu dela palavras que o incomodaram muito.
Confesso que não foi uma coisa muito confortável assistir ao filme. A gente fica esperando a todo momento que a sonorização entre e nos devolva o conforto dos diálogos, sem a necessidade de subtitles. Mas não chega de ser interessante, embora não tenha nem de longe a lucidez e a graça de um Charlie Chaplin mudo. Também não sei se a mesma história se sustentaria de houvesse falas em O Artista. Tudo fica no exercício da imaginação. Mas, sinceramente, não podemos chamar esse filme de indispensável. Acho que em pouco tempo será esquecido, uma curiosidade que será lembrado somente pelos cinéfilos mais voltados a curiosidades do que a qualidade das produções.
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch. |
| Direção: Michel Hazanavicius |
| Gênero: Romance, Comédia, Drama |
| Duração: 100 min. |
Marcadores:
Cinema crítica,
O Artista,
PeB Mudo
quarta-feira, fevereiro 15
Drive

Se a gente assistir sem se preocupar em saber alguma coisa previamente, nem acompanhar os créditos, vai ficar pensando que acabou de assistir um filme de Tarantino, ou do Fincher. Ele tem uma pegada que não é muito comum na maioria dos thrillers de ação hollywoodianos, e talvez esteja aí a sua maior virtude. Meritos para o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.
O roteiro coloca como pratagonista um mecânico de carros, que nas horas vagas é doublê em Hollywood e sonha em ser piloto de corrida, que não tem nome, e e chamado durante a trama apenas por kid (menino) por alguns dos outros personagens. Ele nos é apresentado como motorista de assaltos na cenas iniciais. Trabalha com eficiência, do tipo que impõe uma série de normas aos seus contratantes.
Nada se sabe de sua vida. Nem há nenhuma preocupação em construção de um tipo psicológico. Ele apenas é do jeito que é. Um cara de poucas palavras, que se dedica a suas atividades, mas ao mesmo tempo é capaz de transmitir uma ternura a sua vizinha e o filho dela. Ela é simpática aos seus acenos de gentileza. Garçonete em uma lanchonete, cria o filho só, enquanto o pai dele cumpre pena em algum presídio.
A história segue sem fazer juizos de valor. Não há os bons. Todos têm suas culpas a esconder, inclusive a garçonete, que se envolve emocionamente com o driver. E esconde o caso do seu relacionamento conjugal, quando este deixa a prisão. A questão dramática passa a ser se kid vai ou não ficar com a garçonete e seu filho.
A trama toma rumo de filme de ação quando quando o marido da vizinha é solto e ameçado violentamente por ex-companheiros de trapaças para regressar ao crime. Uma antiga dívida tem de ser paga com fruto de roubo. O kid se propõe a ajudar, para evitar que a sua vizinha e o filho dela sejam vítimas dos chefões da bandidagem.
A coisa vai ficando mais uma vez enrolada, porque não se trata de um crime comum. É um roubo a outro mafioso que é realizado, e o protagonista se percebe em um olho de furacão. Como uma casca de cebola, os fatos vão sendo apresentados como uma crise cada vez maior, onde a vida de ninguém está a salvo. Ameaças surgem de todos os lados. O clime fica cada vez mais tenso, até a cena final.
Vale destacar ainda a trilha sonora de Drive. Fantástica. É como se a história estivesse sendo contada pela música e tivesse uma trilha visual, de tão intensa e pertinente, ao mesmo tempo que não é reduntante, não se propõe apenas a criar um clima. Pelo que li na net, deve tá estreando no cinema após o carnaval. Pode assistir, se gostar de filme de suspense.
O filme tem alguma coisa de Selvagem da Motocicleta, do Coppola, que assisti faz tempo. Quem tiver visto, vai entender a referência que eu falo. Valeu a dica, mais uma vez, Anna!
Título original: Drive
Lançamento: 2011
País: EUA
Direção: Nicolas Winding Refn
Atores: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks.
Duração: 100 min
segunda-feira, janeiro 30
Histórias Cruzadas

Este é um filme que a gente assiste e fica entendendo porque foi indicado ao Oscar quando um meia boca como Descendentes está cotado com um dos favoritos? Mas faz muito tempo que eu desisti de querer ver sentido artístico nessas indicações. Tudo corre por conta do viés político comercial mesmo, creio.
Histórias cruzadas tem como principal cenário a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, principalmente nos estados do Sul, onde a história é ambientada. Na pequena cidade de Jackson, no Mississipi mora a jovem Eugenia Phelan, apelidada pelas amigas por Skeeter. Recém formada na universidade do Mississipi, ela quer ser escritora, e consegue um emprego no jornal local, com um baixo salário mas como forma de se manter.
Ao retornar para casa, Skeeter percebe que a sua antiga babá, e empregada doméstica de sua mãe já não está mais entre a sua família, e questiona o porquê. Afinal de contas algumas moças da região criavam laços de extrema afetividade com suas amas, uma vez que as mães, ao que consta só tinha mesmo o trabalho de parir de lançar as crias aos braços de suas domésticas.
As amas negras criavam as crianças brancas com um extremo afeto, substituindo, quase sempre o amor materno que era negado pelas jovens mães. Apesar disso, as meninas e meninos, ao crescer logo adotavamos modelos de seus pais biológicos de preconceitos e ares de superioridade em relação aos negros. Carga que herdaram dos tempos de escravatura, que se deu de forma muito mais acentuada no sul dos EUA.
Mas Skeeter não reproduziu o modelo, e a busca pelo destino de sua antiga ama não a deixa engolir respostas esfarradas de seus pais. Neste contexto, ela começa a observar, já com o olhar amadurecido, como as empregadas domésticas são tratadas em diversos lares. Mesmo deixando as suas casas para cuidar das dos brancos, elas têm um tratamento de subrraça. A liga das senhoras brancas exerce uma pressão doentia sobre todas, de forma preservar a discriminação histórica. Qualquer tentativa de conciliação é fator de repulsa severa.
Há também na cidade de Jackson a pressão em cima de todas as jovens solteiras. Arrumar um bom casamento deve prevalecer sob qualquer outro projeto de vida. Skeeter não se mosta satisfeita com esta questão, e até aceita se envolver com um certo primo de uma fulaninha, só para sair do cenário de solteiras irremediáveis, e até chega a se apaixonar pelo sujeito. Porém, desiste dele, quando percebe no parceiro a mesma sanha preconceituosa reinante no meio.
Numa tentativa de fazer algo para mudar a realidade daquela gente, e ao mesmo tempo lançar-se o mercado editorial, seu principal sonho de formação profissional, Skeeter começa a escrever sobre a vida das domésticas negras. A princípio encontra resistência por parte das negras, que temem represálias. A Ku Klux Khan existe e é forte naqueles primeiros anos da década de 60.
O filme realmente vale a pena ser visto, principalmente por nós terceiromundistas, que ainda dispomos de empregadas domésticas, e não raras vezes a tratamos como se nem humanos fossem. Essa discriminação eu mesmo pude presenciar na minha família, e tenho me esforçado para não repeti-la. Mas não sou eu quem posso julgar-me se estou no caminho certo, ou não.
Historias cruzadas também nos remete a todos outros episódios de nossa história, onde uma determinada etnia passa a sofrer a repulsa de algum outro setor majoritário, que detém a hegemonia do poder. Vide o holocausto dos judeus, na Segunda Guerra. E nem por isso a lição foi aprendida. Que o diga o palestino residente na Faixa de Gaza. Não se pode julgar todos os alemães por Hitler e seu séquito, assim como não pode se dizer que todo o Wasp (White, Anglo Saxonic, Protestant) seja ruim. A conquista pelos direitos civis foi dos negros americanos, mas há de se lembrar de que brancos que viram além dos modelos reproduzidos pelas gerações também se ombrearam nesta luta, que é de toda a humanidade. Ou pelo menos do lado sensato da humanidade.
Recomendo sem reservas.
Histórias cruzadas tem como principal cenário a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, principalmente nos estados do Sul, onde a história é ambientada. Na pequena cidade de Jackson, no Mississipi mora a jovem Eugenia Phelan, apelidada pelas amigas por Skeeter. Recém formada na universidade do Mississipi, ela quer ser escritora, e consegue um emprego no jornal local, com um baixo salário mas como forma de se manter.
Ao retornar para casa, Skeeter percebe que a sua antiga babá, e empregada doméstica de sua mãe já não está mais entre a sua família, e questiona o porquê. Afinal de contas algumas moças da região criavam laços de extrema afetividade com suas amas, uma vez que as mães, ao que consta só tinha mesmo o trabalho de parir de lançar as crias aos braços de suas domésticas.
As amas negras criavam as crianças brancas com um extremo afeto, substituindo, quase sempre o amor materno que era negado pelas jovens mães. Apesar disso, as meninas e meninos, ao crescer logo adotavamos modelos de seus pais biológicos de preconceitos e ares de superioridade em relação aos negros. Carga que herdaram dos tempos de escravatura, que se deu de forma muito mais acentuada no sul dos EUA.
Mas Skeeter não reproduziu o modelo, e a busca pelo destino de sua antiga ama não a deixa engolir respostas esfarradas de seus pais. Neste contexto, ela começa a observar, já com o olhar amadurecido, como as empregadas domésticas são tratadas em diversos lares. Mesmo deixando as suas casas para cuidar das dos brancos, elas têm um tratamento de subrraça. A liga das senhoras brancas exerce uma pressão doentia sobre todas, de forma preservar a discriminação histórica. Qualquer tentativa de conciliação é fator de repulsa severa.
Há também na cidade de Jackson a pressão em cima de todas as jovens solteiras. Arrumar um bom casamento deve prevalecer sob qualquer outro projeto de vida. Skeeter não se mosta satisfeita com esta questão, e até aceita se envolver com um certo primo de uma fulaninha, só para sair do cenário de solteiras irremediáveis, e até chega a se apaixonar pelo sujeito. Porém, desiste dele, quando percebe no parceiro a mesma sanha preconceituosa reinante no meio.
Numa tentativa de fazer algo para mudar a realidade daquela gente, e ao mesmo tempo lançar-se o mercado editorial, seu principal sonho de formação profissional, Skeeter começa a escrever sobre a vida das domésticas negras. A princípio encontra resistência por parte das negras, que temem represálias. A Ku Klux Khan existe e é forte naqueles primeiros anos da década de 60.
O filme realmente vale a pena ser visto, principalmente por nós terceiromundistas, que ainda dispomos de empregadas domésticas, e não raras vezes a tratamos como se nem humanos fossem. Essa discriminação eu mesmo pude presenciar na minha família, e tenho me esforçado para não repeti-la. Mas não sou eu quem posso julgar-me se estou no caminho certo, ou não.
Historias cruzadas também nos remete a todos outros episódios de nossa história, onde uma determinada etnia passa a sofrer a repulsa de algum outro setor majoritário, que detém a hegemonia do poder. Vide o holocausto dos judeus, na Segunda Guerra. E nem por isso a lição foi aprendida. Que o diga o palestino residente na Faixa de Gaza. Não se pode julgar todos os alemães por Hitler e seu séquito, assim como não pode se dizer que todo o Wasp (White, Anglo Saxonic, Protestant) seja ruim. A conquista pelos direitos civis foi dos negros americanos, mas há de se lembrar de que brancos que viram além dos modelos reproduzidos pelas gerações também se ombrearam nesta luta, que é de toda a humanidade. Ou pelo menos do lado sensato da humanidade.
Recomendo sem reservas.
Direção:
Tate Taylor
Roteiro:
Tate Taylor
Elenco:
Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Ahna O'Reilly, Allison Janney, Anna Camp, Chris Lowell, Cicely Tyson, Mike Vogel
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cinema Histórias Cruzadas,
critica
quinta-feira, janeiro 12
Sob o domínio do medo
Straw dogs Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs – cachorro de palha, em uma tradução literal) é uma refilmagem. O original é de 1971, dirigido Sam Peckinpah, com Dustin Hoffman interpretando o protagonista. Eu estava esperando assistir o antigo primeiro para só em seguida escrever sobre a nova versão de 2011. Já está no HD, ainda inédito aos meus olhos, mas vamos em frente. Este filme é pura tensão, desde o início. Que nos leva a uma desequilíbrio constante. Não dá para respirar tranquilo enquanto não chega ao fim.
A história conta a chegada de um roteirista de Hollywood, David Summer (James Mardsen), em uma pacata cidade do interior do sul dos Estados Unidos, com a sua esposa, Amy (Kate Bosworth) uma jovem atriz e, talvez a mais ilustre personalidade do lugarejo. Ela havia herdado uma propriedade do seu pai e resolveram passar uma temporada na cidade e aproveitar a tranquilidade da região. Nada como escrever um novo roteiro no silêncio do campo.
Mas a tão almejada tranquilidade rapidamente se dissipa. Logo que chegam ao local a Amy, considerada uma celebridade por todos da cidade, principalmente os homens, por seu trabalho em um seriado de TV, é visivelmente cobiçada. E ela não se nega de lançar boas doses de sensualidade ao meio, como se divertisse em atrair as atenções masculinas. Entre estas, a de um ex-namorado (Alexander Skarsgard), que se acha ainda no direito de se insinuar para Amy.
Na trama não falta também o valentão do bar, que não aceita o assédio de um homem, com distúrbios mentais a sua filha, e o espanca rotineiramente, sob o pretexto de mantê-lo afastado. Aparentemente descontextualizada, essa subtrama, no entanto, assume importância fundamental no desfecho da história, mostrando bastante engenhosidade na concepção do roteiro. Um inserção orgânica e convincente.
A tensão, mobilizada por Amy amplia-se de proporção a medida em que ela resolve provocar os quatro trabalhadores contratados para consertar a coberta da garagem de sua propriedade, entre esses o seu ex-namorado. Por conta de uma discussão com o marido, Amy troca-se de janela aberta, na altura do telhado, encarando aqueles homens, em trajes de serviço. Isso desperta a sanha machista dos trabalhadores que tramam de alguma forma satisfazer os instintos. A partir desse ponto, não há monotonia. O público antecipa o que está prestes a explodir, enquanto David apenas suspeita que algo não está correto, nas relações de sua esposa com os habitantes da cidade, notadamente os homens.
Os trabalhadores, com a evolução da história, sentem-se cada vez mais a vontade na propriedade, já que estão em maior número e são visivelmente mais condicionados fisicamente que o roteirista. Com isso, aprofunda-se um processo de intimidação e o cerco a Amy. E nada parece deter o curso dos acontecimentos, nos levando a um desfecho com forte carga dramática. Soma-se a isso, uma possível crise do casal, que volta e meia trocam acusações entre si. ele visto por ela como um covarde por não enfrentar os caras que a assediam e ele por considerar o comportamento de sua esposa excessivamente sensual, principalmente em uma cidade pequena, do sul dos EUA.
Vale aqui dizer que o filme original escandalizou o público e a crítica da época, por sua violência em cenas explícitas. A refilmagem, que foi baseado no mesmo livro Straw Dogs não deixa nada a desejar nesses dois itens. Apesar de os roteiristas serem outros, a montagem da história se deu de forma linear, meio que abandonando a tendência atual de histórias pontuadas de flashbacks, que muitas vezes me entediam. Um bom filme que merece ser visto por todos e principalmente por quem curte histórias contadas com primor.
Diretor: Rod Lurie
Elenco: Kate Bosworth, Alexander Skarsgård, James Marsden, James Woods, Dominic Purcell
Produção: Marc Frydman, Rod Lurie
Roteiro: Rod Lurie, baseado na obra de Gordon Williams
Fotografia: Alik Sakharov
Trilha Sonora: Larry Groupé
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Suspense
A história conta a chegada de um roteirista de Hollywood, David Summer (James Mardsen), em uma pacata cidade do interior do sul dos Estados Unidos, com a sua esposa, Amy (Kate Bosworth) uma jovem atriz e, talvez a mais ilustre personalidade do lugarejo. Ela havia herdado uma propriedade do seu pai e resolveram passar uma temporada na cidade e aproveitar a tranquilidade da região. Nada como escrever um novo roteiro no silêncio do campo.
Mas a tão almejada tranquilidade rapidamente se dissipa. Logo que chegam ao local a Amy, considerada uma celebridade por todos da cidade, principalmente os homens, por seu trabalho em um seriado de TV, é visivelmente cobiçada. E ela não se nega de lançar boas doses de sensualidade ao meio, como se divertisse em atrair as atenções masculinas. Entre estas, a de um ex-namorado (Alexander Skarsgard), que se acha ainda no direito de se insinuar para Amy.
Na trama não falta também o valentão do bar, que não aceita o assédio de um homem, com distúrbios mentais a sua filha, e o espanca rotineiramente, sob o pretexto de mantê-lo afastado. Aparentemente descontextualizada, essa subtrama, no entanto, assume importância fundamental no desfecho da história, mostrando bastante engenhosidade na concepção do roteiro. Um inserção orgânica e convincente.
A tensão, mobilizada por Amy amplia-se de proporção a medida em que ela resolve provocar os quatro trabalhadores contratados para consertar a coberta da garagem de sua propriedade, entre esses o seu ex-namorado. Por conta de uma discussão com o marido, Amy troca-se de janela aberta, na altura do telhado, encarando aqueles homens, em trajes de serviço. Isso desperta a sanha machista dos trabalhadores que tramam de alguma forma satisfazer os instintos. A partir desse ponto, não há monotonia. O público antecipa o que está prestes a explodir, enquanto David apenas suspeita que algo não está correto, nas relações de sua esposa com os habitantes da cidade, notadamente os homens.
Os trabalhadores, com a evolução da história, sentem-se cada vez mais a vontade na propriedade, já que estão em maior número e são visivelmente mais condicionados fisicamente que o roteirista. Com isso, aprofunda-se um processo de intimidação e o cerco a Amy. E nada parece deter o curso dos acontecimentos, nos levando a um desfecho com forte carga dramática. Soma-se a isso, uma possível crise do casal, que volta e meia trocam acusações entre si. ele visto por ela como um covarde por não enfrentar os caras que a assediam e ele por considerar o comportamento de sua esposa excessivamente sensual, principalmente em uma cidade pequena, do sul dos EUA.
Vale aqui dizer que o filme original escandalizou o público e a crítica da época, por sua violência em cenas explícitas. A refilmagem, que foi baseado no mesmo livro Straw Dogs não deixa nada a desejar nesses dois itens. Apesar de os roteiristas serem outros, a montagem da história se deu de forma linear, meio que abandonando a tendência atual de histórias pontuadas de flashbacks, que muitas vezes me entediam. Um bom filme que merece ser visto por todos e principalmente por quem curte histórias contadas com primor.
Diretor: Rod Lurie
Elenco: Kate Bosworth, Alexander Skarsgård, James Marsden, James Woods, Dominic Purcell
Produção: Marc Frydman, Rod Lurie
Roteiro: Rod Lurie, baseado na obra de Gordon Williams
Fotografia: Alik Sakharov
Trilha Sonora: Larry Groupé
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Suspense
Marcadores:
Cinema crítica,
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terça-feira, janeiro 10
Tomboy

Tomboy é a expressão em inglês que designa meninas que se vestem e se portam como meninos. E é assim que a protagonista deste filme, Laura (Zoé Héran) é, é apresentada. Logo na primeira cena, ela está com o pai, que dirige o carro, quando é colocada no coloco para assumir o volante, coisa que se faz, geralmente com os filhos e não com as filhas. A família está de mudança para os arredores de Paris.
Ao chegar em seu novo endereço, Laura assume para as crianças da vizinhança a personalidade masculina e se apresenta como Michel. A sua aparência e as vestimentas a auxiliam a desempenhar esse papel. Logo é aceita nas brincadeiras dos meninos e mais que aceita por Lisa, uma menina que se apaixona pelo novo “menino” do quarteirão.
Tomboy é bem rápido. Em pouco mais de 70 minutos toda a trama e desenvolvida, mostrando a vida de uma jovem, com pouco mais de 10 anos, que não aceita muito bem a sua condição feminina. Mas isso, no lar, passa a ser um segredo entre ela e a irmã mais nova. A questão da homossexualidade é só arranhada pela trama. Ela apenas demonstra uma satisfação mínima ao ser beijada por Lisa.
Por se tratar de uma criança, ficamos na dúvida se o papel masculino escolhido por Laura é apenas uma tentativa de ser aceita pelo grupo de meninos, ou se há mesmo inclinações mais acentuadas para o lesbianismo. O filme foge dessa questão, e procura apenas apresentar o caso, sem buscar origens ou respostas definitivas.
Roteirizado e dirigido por Celine Sciamma (Lírios D’água), Tomboy tem uma pegada suave, sem procurar nos desestabilizar de nossa função de público. Apesar de ter um cenário contemporâneo, o filme nos remete ao tempo que os pais eram capazes de dar o ajuste necessário à personalidade dos filhos, sem recorrer a psicólogos, ou ficar pondo as mãos nas cabeças e perguntando aonde erraram na educação de suas crias. É um filme interessante, mas que a sua maior virtude, não produzir julgamentos nem apontaram culpados, talvez seja também a sua maior fragilidade.
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