sexta-feira, abril 11

Muito além do jardim


Clamor público. Comoção Social. Essas duas frases são repetidas a exaustão para justificar o funcionamento do aparelho estatal na busca pela elucidação de um crime. Clamor público e comoção social provocados, como sempre, pela mídia que espera vender para a audiência, leitores e ouvintes a história do assassinato misterioso da menina Isabella, em um longínquo São Paulo.

Clamor Público turbinado pela imprensa que espetaculariza um ato brutal. Mas que comoção social é essa que acelera o processo investigativo, que prende com a velocidade de um raio, e que praticamente condena os principais suspeitos? Na democracia, tudo vale para saciar a opinião pública. Rende votos demonstrar que a máquina policial está atenta a tudo e a todos. Que o braço da lei vai inexoravelmente colocar culpados a cumprir penas. Democracia quer dizer praticar atitudes capazes de render votos. Ser justo, preciso e responsável são só uma coincidência.

Estatísticas da própria polícia. Somente 10 por cento das investigações sobre crimes de morte chegam a apontar um culpado no final do inquérito. De todos os processados, apenas 10 por cento são condenados. Ou seja, de cada 100 assassinatos, somente um assassino vai para a cadeia. Isso se a sentença for verdadeiramente justa. Sem nenhuma comoção social, sem nenhum clamor público.

quarta-feira, abril 2

Se cantar que um "tapinha não dói" é passível de uma condenação judicial, conforme está dito no post anterior, o que dizer então da defesa incondicional da liberação de drogas consideradas ilícitas?

Extraí o texto abaixo da revista Carta Capital. Não concordo com tudo, mas me fez refletir um pouco sobre esta desorganização generalizada, crônica e sem-limites do estado brasileiro, a partir da ditadura do poder judiciário.


"Meu nome não é Johnny
aposta num anti-Capitão Nascimento, um anti-herói hedonista e sedutor, “no stress”, que cheira para se divertir, para amar, sem deixar de ser afetuoso, família, amigo, amante. A figura não-clichê de João Estrela sugere que o pressuposto de “um mundo sem drogas” é no mínimo hipócrita, e não leva em consideração a cultura e o desejo humano e um componente importante no cenário contemporânea, o risco assumido e livre. Como a gordura trans e o álcool, qualquer droga seria um “direito” do consumidor contemporâneo. Por que não?

É sabido que o consumo de drogas não fere nem ameaça a rede social, é uma decisão, um risco individual. O consumo de drogas não seria menos epidêmico e arriscado que o consumo de gorduras, aditivos cancerígenos, miríades de estimulantes, calmantes, excitantes e no máximo poderia ser um caso de saúde pública, não um caso de polícia se não houvesse a ilegalidade na produção e consumo.

É a ilegalidade e o proibicionismo que levam a criação de sistemas violentos para assegurar a produção e comércio das drogas. Grupos armados e para-militares para assegurar a produção e venda e defender o negócio da polícia e de outros concorrentes, acertos de contas internos, zonas de controle de territórios pela violência armada, corrupção, subornos, assassinatos para assegurar a lavagem de dinheiro, cultura da delação e da traição, delação premiada, produzindo ódio, desconfiança e vingança generalizados.
Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Essa hipótese não existe para o personagem, nem para o filme, dramaturgicamente. Em Meu Nome não é Johnny a questão aparece de forma mais interessante e complexa, mas não faz parte do mundo mental ou social dos personagens.

As hipóteses e explicações nos filmes patinam em clichês já sabidos (mas não custa repetir, Meu Nome não é Johnny é muito mais sofisticado e sutil).

Afinal, por quê não circulam outros discursos sobre as drogas, como os da juíza de direito Maria Lúcia Karam ou do advogado carioca André Barros, que defendem e militam pela descriminalização, a medicalização e a legalização das drogas, com avanços gradativos?

O usuário podendo fazer uso de consumo individual, freqüentar salas de consumo, ter acompanhamento médico e controle da qualidade do produto, até chegarmos a legalização e controle do comércio de drogas, seja por empresas privadas ou pelo estado.

Legalizar, defende a juíza, é quebrar o ciclo da violência das armas, da corrupção (da policia, de políticos, de empresários), da guetificação da violência e da repressão policial infringida às favelas e aos pobres, do uso e extermínio da mão de obra infantil e de jovens, da degradação da saúde, através do uso seguro, é romper um ciclo vicioso de violência já instalado.

Legalizar é acabar com a hipocrisia e combater a violência extrema e o regime de exceção e arbitrariedade legitimados pelo Estado, pela polícia, pela sociedade-anti-pobres e pelo tráfico, sócios na produção da atual barbárie.

Nem corrupção, nem omissão, nem guerra. A questão é de guerrilha, é não ficar refém do Capitão Nascimento, é minar os clichês e discursos conservadores. Chega de vingança regressiva, chamem a juíza Karam!"

Ivana Bentes

segunda-feira, março 31

PC or not PC


Cada vez acho mais confusa a organização do estado brasileiro. No meio do emaranhado de legislações existentes no país, um certo juiz federal Adriano Vitalino dos Santos, do Rio Grande do Sul, resolveu condenar a empresa musical Produções Artísticas, pelo lançamento da música “Um tapinha não dói”, que foi sucesso em todo o país.

A sentença foi uma resposta a ação movida pela ONG Themis, que se diz defensora da dignidade feminina. O juiz alega que a letra estaria justificando a violência masculina, e consequentemente divulgando um “way of life” condenável sob todos os aspectos.

Eu admito que a liberdade de expressão quando ilimitada pode gerar efeitos colaterais graves. Mas não sei até que ponto o estado pode ser o regulador deste direito. Não sei se um simples juiz singular deveria ter o poder de condenar uma música que consagrou-se junto ao público brasileiro. Apesar de ser uma bela droga. Abre-se um precedente perigosíssimo. Quem assegura se o magistrado for um conservador, defensor da moral e dos bons costumes não irá impedir que seja divulgada um filme ou qualquer outra expressão artística que faça apologia ao homossexualismo, por exemplo?

Este país está tão cheio de ONGs que há muito tempo a grande maioria da população nacional deixou de ser representativa. Quem não se organiza em grupos de pressão, como os cidadãos comuns, vão vendo seus direitos submergindo. Mas a julgar pela decisão do juiz gaúcho, até o bom humor de algumas músicas hilárias serão submetidas ao imbecil politicamente correto e o nosso país será bem menos pluralista em suas expressões, creio eu.

domingo, março 23

Serra acima




Bons feriados esses. Tivemos um convite para subir a serra e comer uma paella feita por mãos espanholas. Proposta irrecusável. Aqui estão as fotos que mostram um pouco do visual que desfrutamos em temperatura amena e de Pepe, o autor da obra de arte, degustada a seis bocas.

quinta-feira, março 20

Entre o céu e a terra




Não raras vezes, o céu da minha varanda apresenta tão belas formas. Aqui deixo algumas delas, capturadas pela cásio de 10.1 mp. Querendo ver ampliado, é só clicar em cima da foto.

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Nunca imaginei em uma reação do Tibet Free. Dias atrás acho que escrevi um post visionário, com este título, que é também uma frase de uma música do Otto, de onde eu copiei.

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Não, BBB não me emociona. Aliás. essa estória de se emocionar vendo alguma coisa que passa na TV não é exatamente o meu forte. Da mesma forma que não me espanta assistir qualquer produção que tenha algum sangue.

quarta-feira, março 12

É isso aí


Só tem uma coisa que me aborrece neste programa Big Brother. É a filosofia de almanaque Capivarol do Pedro Bial, a cada paredão. Tecla mute nele. Triste ouvir uma pseudo poesia sobre a convivência dos participantes ou personagens do programa. Ainda mais quando tenta dar uma improvável equivalência das atitudes dos protagonistas. Mas ele se superou quando se derreteu em elogios ao eliminado de ontem, o médico psicopata Marcelo.

Até ao olhar mais desatento é perceptível que esta cara, que se diz homossexual, (mas que azarou Gyselle, ao mesmo tempo que reclamou quando foi chamado de bissexual), é um doente mental. As expressões do olhar dele é de usuário de drogas e o comportamento dele, indo da agressividade às lágrimas em frações de segundos, é típico bipolar. Ou maníaco depressivo, como se falava antigamente.

O cara se perdeu completamente. Acho que foi o contato com o mundo externo que o deixou confiante para deitar e rolar. Logo após assistir ao show do Roberto Carlos, voltou ao confinamento detonando todos os demais concorrentes. Podia até ter razão em algumas declarações, mas perdeu o apoio do público porque era do tipo de bater e assoprar depois. Mas também fez muitos juízos de valores descabidos. Disse que uma adversária era arrogante só porque aceitou a condição de favorita que ele mesmo afirmou em alta voz. Não dá! Fico pensando o que será dos pacientes deste médico.

sábado, março 8

Dia de mulher é todo dia



Sempre fui contrário a esta data. Fica parecendo que as mulheres são tão inferiores que em apenas um dia do ano devemos nos lembrar que elas existem. Mas não é bem assim. A comemoração surgiu de uma luta de mulheres por melhores condições de trabalho. É este o centro da questão. Todos nós devemos ser respeitados pelo que somos, e não meter questões de mercado no meio.

Saber que mulheres são maltratadas, desrespeitadas, espancadas por quem deveria dedicar carinho e atenção não agride somente as mulheres, mas todos aqueles que têm dentro de si um sentimento de justiça e fraternidade. Dói em mim saber que qualquer mulher foi alvo de violência, da mesma forma que gostaria de ver eliminada todos os mal tratos impostos a quaisquer cidadãos. E quanto mais frágil é o alvo da violência, mais profunda a minha indignação.

Também acho ridículo a proliferação de delegacias da mulher. A justificativa para a criação dessas especializadas é o tratamento impróprio de delegados, escrivões e agentes policiais com as mulheres vítimas de violência doméstica, fazendo das agredidas a razão motivadora da agressão. Não seria o caso de exonerar todos esses maus policiais? Se essas pessoas não dão o tratamento adequado a qualquer denúncia é porque são ineptos para atuar na defesa social, não acham? A cada delegacia da mulher que surge é a certeza de que a segurança pública continua em péssimas mãos.