quinta-feira, junho 2
Entre a fome e a vontade de comer
"Há muito tempo, confesso, tenho dúvidas a respeito da realidade de uma esquerda brasileira, ao longo da chamada redemocratização e esgotadas outras épocas em que certos confrontos em andamento no mundo ecoavam por aqui. Tendo a crer, no momento, que a esquerda nativa é uma criação de fantasia, como a marca da Coca-Cola, que, aliás, o mítico Che Guevara bebia ironicamente às talagadas na Conferência da OEA, em 1961, em Punta del Este. Quanto à ideologia, contento-me com a tese de Norberto Bobbio: esquerdista hoje em dia é quem, aspirante à igualdade certo da insuficiência da simples liberdade exposta ao assalto do poderoso, luta a favor dos desvalidos. Incrível: até por razões práticas, a bem de um capitalismo necessitado de consumidores".
quarta-feira, junho 1
O que nóis vai fazer sócio
Para marxistas e rappers
Este trabalho tem por objetivo fazer uma avaliação crítica da música “O Mundo É Nosso”, do grupo de rappers de Fortaleza Costa a Costa, a partir de conceitos do pensador alemão Karl Marx. Neste trabalho iremos utilizar os conceitos de proletariado, fetiche, alienação e supraestrutura.
Marx imaginou que as expressões artísticas fazem parte da supraestrutura da sociedade humana, ao lado do estado, da igreja, e as instituições públicas e privadas. A arte é uma forma de transmitir ao meio social a realidade apreendida. Pela arte, segundo o autor, é possível tomar consciência das relações sociais de produção de uma determinada sociedade.
O rap é, segundo o Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rap) em 26 de abril de 2011, é “uma fala rápida que precede a forma musical, um acrônimo para rhyme and poetry (rima e poesia)... é um dos cinco pilares da cultura Hip Hop que surgiu no final do século XX, entre as comunidades negras”.
“O Mundo é Nosso”, rap do Costa a Costa, retrata a vida em uma comunidade onde permeia o tráfico de drogas, a vida promíscua, ambições de dias melhores, embora não legitimadas pelo sistema dominante.
A favela insinuada pela música é mostrada inicialmente como uma área desprovida de garantias sociais do estado. “Nossos problemas nós resolve com os nossos revolve”, diz o autor da música, nos inserindo em um universo onde a presença do estado, se existente é absolutamente desprezada pela correlação de forças imposta pelo meio. A vida não é mediada pelo conjunto de leis estabelecido, mas pelo poder assegurado pelas armas. As relações repousam em outros códigos.
Dentro deste universo, o tráfico é visto não como uma atividade marginal, mas como um trabalho que visa a assegurar os meios necessários para o consumo, em uma comunidade desassistida. Da mesma forma, como o assalto, nominado na música como “157”, fazendo referência ao código penal, artigo em que se enquadra o autor de delito a mão armada. Comprar e vender armas são transações comerciais comuns no meio. “E me vê com a grana comprando a pistola, embora ele nem se toca o que vem, e gosta também das notas e não importa como vem”. Ou seja, todos querem consumir, independente da forma como se consegue a remuneração do seu esforço. O dinheiro é o fetiche que o impulsiona a vida criminosa.
O mundo da prosperidade é visto como um planeta distante, mas acessível através de laços amorosos. A mulher citada na música tem a perspectiva de dias melhores através de um envolvimento com um sueco. A Suécia é fetichizada como um país com condições muito superiores à vida na favela. Por isso, nada mais justo, na visão da mulher, do que abandonar o marido, que é apenas um “cu de cana” (consumidor de bebida inveterado), que já passou até por coma alcoólica. A vida dela não tem uma saída por meio de uma educação formal, ou políticas compensatórias possíveis, estabelecidas pelo governo. Ou ela arranja o casamento com o gringo sueco e muda o seu status social, ou está fadada a levar uma vida quase que totalmente excluída do sistema capitalista de consumo, senão como mão de obra barata fazendo trabalhos de baixa remuneração, ou dentro da informalidade.
Só que o amor do “gringo”, segundo a música, parece que também não se carrega de boas intenções. “Ele só pensa na filha dela, pensa nessa donzela de aliança na Suécia”. Ou, quem sabe vender a menina para o tráfico escravo existente na Europa: “Ele mente, ela voa nessa. Ele vende ela na Suécia”. Ou seja, as perspectivas aparentemente favoráveis podem ser muito arriscadas. O universo do consumo talvez seja, na realidade, o território do inimigo, onde as relações sociais dela estarão ainda mais precarizadas, dentro do sistema capitalista. Sua força de trabalho e até o seu corpo poderão lhe ser totalmente alienados.
O aparelho policial, também integrante da supraestrutura do estado, em vez de assegurar a segurança dos cidadãos mais economicamente favorecidos, se rende também à corrupção do narcotráfico, que gera lucros que são distribuídos aos trabalhadores policiais com a força de trabalho igualmente alienada pelo poder político. Talvez o salário do homem da polícia não seja suficiente para uma melhor participação no mercado do consumo capitalista, daí rende-se também ao dinheiro mais abundante e teoricamente mais fácil dos narcotraficantes. Na música, o policial é tratado como “cana”.
“ O cana engana mas se envolve também. O cana aguenta (retém) o revolver e depois vende para quem paga bem. Ele trabalha para quem distribui pó (cocaína) e bagui (maconha). O laranja (pessoa intermediária) vende ele aguenta e volta o bagui”.
A música também faz uma clara diferenciação entre o lúpen proletariado e o cidadão advindo das classes sociais mais favorecidas. O cidadão é tratado como “boy”, uma clara alusão a designação de playboy, que indica jovem advindo de família abastada em termos econômicos, visto em ambientes de diversão, algumas vezes transgredindo normas estabelecidas consuetudinariamente ou até mesmo previstas em leis estabelecidas. Já o contraventor pobre é considerado um facínora pelo sistema, onde 12 é o artigo do código penal que prevê o tráfico de entorpecentes.
“O boy com um 12 na esquina. Um é chamado vítima, o outro facínora. Um voltou da cela e o outro da clínica“.
Por esse trecho da música, temos a percepção da diferença de tratamento dado pelo estado aos jovens de classe média ou alta e os filhos do proletariado. Enquanto um recebe a atenção médica pelo vício de droga, o outro é visto como um marginal e mandado à prisão para espiar pelo seu crime.
A música também estabelece que as condições as quais é submetido o proletariado ou os marginalizados não raras vezes extrapolam a exploração capitalista aposta em leis. Se no Brasil temos a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, que prevê uma folga semanal, há ainda os que não conseguem nem obter as garantias mínimas, à alienação de sua força de trabalho. “Só que a mãe, ela luta demais, de segunda a segunda”.
O tráfico, então, que é mostrado como uma atividade criminosa, ao longo da música, já que é citado através do código penal, é também considerado alternativa de inserção no mercado de consumo.
“Ele prefere ter boca (ponto de venda de drogas) e vender as gramas (de cocaína, narcótico vendido através dessa medida de peso), ter boca e beber as (cervejas) brahmas , ser louco (usuário de drogas) e fazer uma grana (dinheiro)”.
A linguagem adotada pelo autor de O “Mundo É Nosso” é o mesmo português falado em zonas de baixo poder aquisitivo, que não se importa com as flexões verbais ou as concordâncias, o que parece ser uma abordagem do mundo excluído por dentro da cena, e não como um observador com um distanciamento científico dos fatos. O próprio título, que é repetido várias vezes ao longo da execução da música, mostra que há solidariedade entre o autor e o objeto focado pela peça artística, e ao mesmo tempo denota uma divisão entre os menos favorecidos e os mais abastados. ”Então o que é que nós vai fazer sócio”?
O Mundo é Nosso
Costa a Costa
Eu tenho história pra contar
Eu nem sei como vai terminar
Mas é fácil entender, tá ligado?
Fiz fé e resolvi o bagulho
Tenho problema, vários problemas
Tem que começar com problema
Tinha que ter um problema
Esse fila da puta quer me ser um problema
É pena, tem de resolver o problema
Porque sem esse problema
Eu já estou cheio de problema.
Nós é home nos resolve
Nós resolve com nosso revolve
Tenho um chapa com as armas em casa
Ele que tem as armas mais pala das área
Eu sei que é um dos cara mais mala das área
Mas ama esse pivete que não para em casa
E o moleque tá voltando da escola
E me vê com a grana comprando a pistola
Embora ele nem se toca o que vem
E gosta também das notas e não importa como vem.
Esse pivete anda com esse outro moleque, manja
Esse moleque é 157, mete bronca
Só que a mãe, ela luta demais
De segunda a segunda
E ele pergunta demais
Tipo: cadê meu pai, mãe?
Quem é meu pai?
E a surpresa vem
Esse cu de cana é o meu pai
O problema é seu, o mundo é nosso
Então, o que nós vai fazer sócio?
E esse cu de cana, você não acredita
Tem outra mulher tem outra família
É a terceira esposa na vida
Ela cansou, ela quer outra coisa da vida
Ele tombou em coma e ela nem ligou
Tá dando pro gringo que jurou que lhe tem amor
Mas o gringo só pensa na filha dela
Pensa nessa donzela de aliança na Suécia? Nan!
Ele pensa naquela seda
Ele mente, ela voa nessa
Ele vende ela na Suécia
E ela pensa que é igual a novela
Saca a Lecy?
Tem um samba que lembra ela
“Maria bela, linda na janela
Espera sorrindo o boy pintar na favela
É reencontro, olha que cena linda” .
Ela e o boy?
O boy com um 12 na esquina
Um é chamado vítima, o outro facínora
Um voltou da cela e o outro da clínica
O problema é seu, o mundo é nosso
Então o que nós vai fazer sócio?
Esse boy já não tem amor a vida
Perdeu a mulher no vício, perdeu a família
Gastou a herança do pai e fudeu com o irmão
Voltou pra casa da mãe e se perdeu no mundão
E esse 12, nessa vida
Daria um filme sobre
Inteligência investida no crime
Dia e noite
Orgulhoso demais
Não tem emprego
Disposto demais pra
Ter bolso e não ter dinheiro
Ter fome e não ter o leite
ter pé e não ter o tênis
ter boca e não matar a sede
ser homem e não usar o penis
Ele prefere ter boca e vender as gramas
Ter boca e beber as brahmas
Ser louco e fazer uma grana
O problema é seu
O mundo é nosso
Então o que nós vai fazer sócio?
Lembra do moleque sem pai
Bateu uma louca
Foi agüentar o boy
Desrespeitar a boca
Maria Bela da janela se queima
Ela liga pro 190, que coisa feia , nega
O 12 vê a treta, dispara umas bala
Os homem chega nas área
Os homem nem vê que ele rala
Porque o moleque fez o boy de refém
E o cana lembra que ama o seu pivete também
Porque o moleque parece o pivete de alguém
É tipo o filho do cana
Mas é filho do cu de cana
O cana engana mas se envolve também
O cana agüenta o revolver e depois vende
Para quem paga bem
Ele trabalha para quem distribui pó e bagui
O laranja vende ele agüenta e volta o bagui
O problema é seu o mundo é nosso
Então o que nós vai fazer sócio
Esse laranja falou merda de mais
Acabou com o nariz
Mergulhou na pedra e no gás
Se juntou com uma atriz
Que o chapa tava comendo
E me deixou sabendo
com quem o cara tava mexendo
Segunda seção
Esse irmão era o próximo no esquema
Era o próximo tema da próxima cena
Estilo Datena
Por coicidencia eu sei quem é esse irmão
Sabe quem?
O cara que me fez comprar a pistola
Problema é seu, o mundo é nosso
Então o que nós vai fazer sócio.
É tipo efeito dominó, chapa,
A solução do seu problema vira um problema pra alguém
E assim vai.
Todo dia tem alguém arrumando problema
Que vai acabar virando problema pra mim, tá ligado?
sábado, maio 28
É por isso que não leio jornal
CE reduz analfabetismo em 25,8 pontos percentuais
Cada vez mais alunos estão sabendo ler e escrever no Ceará. Se em 2007, 32,8% dos estudantes da rede pública que concluíram o 2º ano do ensino fundamental eram analfabetos, em 2010, o índice reduziu para 7% (25,8 pontos percentuais).
aaaaaã?
sábado, maio 14
Besouro Verde

Assisti, já faz uns dias, a esse filme e fiquei até com vergonha de comentar alguma coisa, de tão ruim que é . Impressiona como se gasta tanto dinheiro, mais de US$ 80 milhões, para se rodar algo tão ruim. A única coisa boa foi que lembrei de um grupo aqui de Fortaleza que coleciona antigas séries de TV, Besouro Verde entre eles. Essa turma, com certeza deve ter assistido e ter ficado com vontade de trucidar diretor, roteiristas e produtores dessa perda de tempo.
The Green Hornet (título original) conta a história de Britt Reid, um rebelde sem causa, que herdou o jornal Sentinela Diário e uma fortuna de seu pai. Ele é cheio de conflitos existenciais e responsabiliza a criação que teve. Resumindo, um perfeito idiota, que se resume a vida a pegar mulheres rapidamente e descartá-las na mesma velocidade.
A questão dramática do filme é tão somente resolver a crise entre o protagonista e o seu falecido pai, que chega a ter a cabeça de sua estátua decepada em vingança de seu filho. Nunca vi coisa mais imbecil. E o mais grave é que ao final do filme, quando Britt faz as pazes com o seu passado e o seu genitor, a superação resume-se a soldar a cabeça da estátua de volta. Ele continua tão idiota quanto no começo da história.
Para não dizer que o filme todo é perda de tempo (e é), temos algumas cenas de luta filmadas a le desenho animado Cavalheiros do Zodíaco, protagonizadas por Kato, o sino-auxiliar do Besouro Verde, que são plasticamente bonitas. Para quem não viu desenho trata-se da junção de slow motion com velocidade normal, no mesmo enquadramento, dando a noção de mega velocidade dos golpes de luta marcial. E só.
Não vou mais me estender, porque, sinceramente, não vale a pena falar muita coisa. Só me fez reforçar a ideia que não há história que preste onde protagonista não é capaz de despertar nenhuma empatia, para o bem ou para o mal. Não tem Cameron Diaz e Cristoph Waltz (ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante de 2010) que salve.
sexta-feira, maio 13
É por isso que não leio jornal
Da coluna de Política do jornal O Povo de hoje:
"Dependendo da região, tais “pequenas propriedades” podem ter até 400 hectares – ou quatro mil quilômetros quadrados."
Confundir 400 hectares com 4 mil km quadrados é o mesmo que dizer que o espaço de um elevador é do tamanho de um campo de futebol. Um pouco meio muito o erro. Algo em torno de 200 mil por cento.
Coluna Política, edição de 13 de maio de 2011
domingo, maio 8
Não estou só

Há alguns dias postei aqui uma impressões sobre a tentativa de se legislar contra o uso de palavras advindas de outros idiomas. E hoje me deparei com um artigo do meu mestre linguista Sírio Possenti, sobre o mesmo assunto. Como reproduzo aqui abaixo, não estou só. Amém.
Quinta, 5 de maio de 2011, 08h00
É mais uma lei
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Mais uma lei contra estrangeirismo foi votada no Brasil (no RS). Na verdade, como fez questão de dizer seu autor, não se trata exatamente de proibição. Permite que se empreguem palavras estrangeiras, desde que sejam traduzidas. Talvez venhamos a ver "coffee-break (intervalo para o café)", "netbanking (serviços bancários pela internet)", "drinks (bebidas)". Quero ver nos edifícios chamados TOWER acrescentarem TORRE ao lado ou embaixo... E as traduções propostas serão aceitas por todos? Talvez isso gere outro problema. Ou uma profissão - sejamos otimistas... Deixemos esse tema para outra ocasião. Não se exigirá uniformidade, espero. Mas corre-se o risco de uma lei da tradução, ou de um dicionário de autoria do legislativo.
O argumento é que os cidadãos têm direito à informação. E o que fazer com as bulas de remédio, os contratos de aluguel e os votos no Supremo? O deputado Carrion foi um pouco primário em sua entrevista, além do mais. Ele acha, pelo que se leu no Terra, que "blecaute" pode, o problema é "blackout" ("Muitas vezes, a língua absorveu aquela palavra, ela está dicionarizada, mas com uma determinada grafia, como em blecaute. Para que vai usar blackout?"). Assim, parece que tudo é uma questão de tempo. Se é, por que uma lei? E quem sabe o que é blecaute?
Vou repetir observações breves sobre o tema, as mesmas que apresentei por ocasião do projeto do deputado Aldo Rebelo:
(a) por que uma lei para proibir estrangeirismos e não outras tantas para proibir produtos estrangeiros? Afinal, as palavras seguem "as coisas" - os produtos, a cultura. Por que podemos usar jeans, ouvir rock, ver Hollywood, comer McDonals e não podemos dizer "delivery"? O contato cultural sempre produz alguma invasão. Cultural e lingüística. Quanto maior a assimetria econômica e cultural, maior a "invasão".
Não pense o distraído leitor que estou defendendo tais leis. O objetivo é argumentar que não há razão para leis que controlem as palavras.
(b) As pessoas que usam palavras estrangeiras são ridículas? Pode ser. Mas a humanidade é ridícula - o deputado incluído. E eu não me excluo do time. Quem madrugou para ver o casamento de William e Kate é ridículo, quem está usando imitação do anel da Kate é ridículo, quem vota para escolher vencedores e vencidos no Big Brother é ridículo, quem segue Lady Gaga é ridículo, quem vê TV Xuxa é ridículo etc. Vamos mudar isso com leis? Ora!
(c) O estrangeirismo mostra que "nossa" língua é forte: todas as palavras estrangeiras são adaptadas à fonologia e à morfologia da língua receptora. Exemplo: todos os verbos vindos do inglês são da primeira conjugação e são regulares. E como você acha que pronunciamos "marketing", "download" e "e-mail"? Mais ou menos como pronunciamos "beque" (de "back")... Pode haver um problema político em jogo, mais um entre tantos outros. Mas, do ponto de vista da língua, só há ganhos: ela se enriquece, cresce, incorpora novos termos (não fica com todos, pois descarta muitos), define melhor certos sentidos. Ou você acha que "entrega" é a mesma coisa que "delivery", que "salvar" é igual a "gravar". Quem "salva" corações flechados em cascas de árvore durante os piqueniques (olha uma delas aí!)?
(d) Eu me pergunto se as outras leis (de caráter econômico, ambiental, criminal etc.) também são elaboradas pelos legisladores com base em conhecimentos tão toscos. Torço para que eles só errem quando se trata de língua. Afinal, é um tema que todo mundo acha que conhece - e que, parece que pega mal estudar...
Acrescento: se é para manter a língua "pura", em qual estágio diríamos que não estava contaminada? Antes ou depois do domínio dos árabes na península ibérica? Antes ou depois da incorporação de palavras indígenas ou africanas?
O que faremos com o sutiã, o abajur, o futebol e o basquete?
quarta-feira, maio 4
O Ritual

Desde O Exorcista, filme baseado no livro do mesmo nome de William Peter Blatty e roteirizado pelo próprio autor. nenhum outro filme que tratasse no mesmo gênero despertou uma maior atenção do público. Talvez pela baixa qualidade das produções que se seguiram, ou pela previsibilidade do tema, que na década de 70 surgiu com um certo ar de ineditismo. E, para os costumes da época meio que escandalizou a opinião pública, notadamente porque em uma de suas cenas sugeriu a masturbação de uma adolescente de 12 anos, totalmente transfigurada pela possessão, com um crucifixo. Duas heresias em uma mesma cena, que deve ter sido a mais comentada nas rodinhas de cinéfilos.
Quase 40 anos depois, 38, para ser mais exato, é lançado O Ritual que também aborda posessão e exorcismo. Para quem já está acostumado a diariamente assistir pastores evangélicos promovendo seus cirquinhos particulares de horrores, botando para correr trancas ruas e exus inadvertidos e estimulando a fé pelo medo, de há muito o capeta não mete medo em quase niguém. Esse filme tem a árdua tarefa de reabilitar o exorcismo cinematográfico. E para tanto traz o sempre brilhante ator Athony Hopkins como o padre exorcista Lucas, um dos últimos dessa especialidade, que tem como tarefa devolver a fé e ao mesmo tempo treinar o noviço Michael Novak, vivido por Colin O'Donnoghue.
Michael está se preparando para ser padre, nos Estados Unidos, quando tem um acesso de falta de fé, dentro do seminário. Pede baixa da ordem, mas o seu superior pede para que ele faça uma última tentativa em busca de sua espiritualidade perdida. O esforço será fazer um curso de exorcismo em Roma. Ele aceita meio a contragosto, cedendo a uma chantagem. Se deixasse o seminário teria de reembolsar o investimento na sua educação feito pela ordem.
Em Roma, conhece a jornalista vivida por Alice Braga, por quem sente uma certa atração, que será cobrada pelo coisa-ruim, e o padre Lucas, seu mentor. Só que o exorcismo que presencia lhe soa pouco convincente. Ele, inclusive, sugere que o padre indique outro profissional para a vítima da posessão, uma jovem grávida pelo próprio pai, uma vez que ele identifica sinais claros de distúrbios psicológicos na adolescente.
O padre Lucas, com anos e anos de prática, milhares de exorcismos realizados, obviamente que não aceita a sugestão, e atribui o não reconhecimento da possessão à ausência de fé do noviço. Esse antagonismo entre professor e aluno amarra a trama e dar um ar de veracidade. E provas vão surgindo de lado a lado, até que Michael rende-se a pressão de ver o seu próprio mentor também possuído.
Eu calculo que esse filme tem também o objetivo de simbolicamente resgatar a fé dos adeptos do catolicismo, demonstrando que os seus próprios pastores são também passíveis de tentações, como tão bem foi mostrado pela imprensa mundial, em diversos e diversos casos de pedofilia. O demônio fixou residencia intramuros dos herdeiros de São Pedro. O filme vale para quem gosta do gênero.
PS . Perguntaram-me se o Bin Laden Morreu mesmo, ou não. Respondi que isso não faz nenhuma diferença porque mesmo se ele estiver vivo, jamais vai conseguir provar, dada a vontade irregreável da mídia mundial em querer referendar a versão do Grande Irmão Obama.
The Rite
EUA , 2011 - 114 min.
Suspense
Direção:
Mikael Håfström
Roteiro:
Michael Petroni
Elenco:
Anthony Hopkins, Colin O'Donoghue, Alice Braga, Ciarán Hinds, Toby Jones, Rutger Hauer, Marta Gastini, Maria Grazia Cucinotta, Arianna Veronesi, Andrea Calligari