sexta-feira, junho 4

Teatro Mágico e lúcido


Ontem fui ao Sabiaguaba para assistir aos shows dos grupos Teatro Mágico, Mutantes. Os dois muitos bons, mas me surpreendi mesmo com a clarividência do manager da troupe do Teatro Mágico. Não só pela qualidade do trabalho apresentado mas com a lucidez de Fernando Anitelli, que quer se impor no cenário artístico sem se render à lógica imposta pelo sistema de produção capitalista de bens culturais (CD e DVDs), onde vem sempre em primeiríssimo plano o lucro que tal atividade pode gerar.

Com todas as letras, Anitelli entoou que é um absurdo querer se reprimir a difusão da cultura impondo restrições aos downloads através da Internet e avisou que está criando a nova MPB - Música para Baixar. Ainda incentivou a todos aqueles que adquirirem, por qualquer meio músicas ou vídeo do grupo a produção de cópias em qualquer mídia. Lembrou que há bem pouco tempo isso acontecia através de fitas K-7 ou VHS.

Também discorreu sobre o sistema de jabás, quantias pagas pelos donos das gravadoras às emissoras de rádio e televisão, forçando a apresentar na mídia eletrônica somente aqueles autores escolhidos e apadrinhados. Quem não consegue ser tocado pela varinha de condão das grande multinacionais do show business está fadado à sargeta das pautas artísticas Brasil afora.

Bem Fernando, essas ideias tem em mim um aliado, conforme já publiquei nesse blog em maio do ano passado. Quem já leu, pode ter um revival e quem não leu, é só acessar: http://questao-fundamental.blogspot.com/2009/05/nao-sou-o-jack-sparrow-mas.html



quinta-feira, junho 3

Um homem sério(?)


Gosto é uma coisa complicada, cada um tem o seu. Não passa disso, só uma questão de escolha pessoal. Por isso, fico bem a vontade de dizer que não consigo enxergar nos irmãos Ethan e Joel Coen motivos suficientes para tantos incensos por parte da crítica. Definitivamente, não gosto do que eles fazem. Quer dizer, até assisto os filmes de suas lavras sem maiores sofrimentos, mas nada que me sobressalte aos olhos.

O último trabalho da dupla foi Um Homem Sério, que foi indicado no ano passado para Oscar de melhor filme este ano. Em Oscar que Guerra ao Terror venceu, qualquer um poderia sair com a estatueta na mão. O filme é tão fraco que somente após a indicação foi levado aos cinemas brasileiros. Os distribuidores pressentiram o fracasso de bilheteria, assim como também lançaram somente em DVD o vencedor do Oscar. Isso já é indicativo de que eu não sou tão fora juízo assim.

Mas os entendedores de cinema, ou os que se propõem a isso, vão falar que arte não tem nada a ver com comércio. Só isso daria uma discussão sem fim. Cinema é arte ou entretenimento? Ou melhor, meio de comunicação de massa? Existem árduos defensores das três possibilidades. Por enquanto não vou dizer de que lado estou.

Para situar os que pegaram o bonde andando, são também dos irmãos Coen "Onde Os Fracos Não Têm Vez", vencedor do Oscar de 2008 e "Apague Depois de Ler", que foi lançado no ano passado, no Brasil. Na minha (mais uma vez) opinião, nenhum dos dois há nenhum indicativo de genialidade. Mas voltando ao Um Homem Sério, este filme conta a história de um professor judeu que está prestes a ser abandonado pela mulher, que alega como motivo a convivência forçada sob o mesmo teto com o irmão do seu marido, um desocupado que ocupa muito espaço na sala.

Um drama familiar dos mais batidos pela indústria cinematográfica americana. A história do lar desfeito ou em vias de se desfazer. Só que a abordagem tem alguma originalidade quando retrata a esposa de Larry Gopnik, Judith, como uma dominadora, interessada em abocanhar todo o patrimônio do cônjuge judeu e ainda ter as bênçãos da religião judaica para o ato. Mas para acontecer essa celebração, ela precisa da total aquiêscencia do esposo.

Larry, coitado, diante de situação tão inusitada como vexatória admite concordar com a separação ainda sem saber que a sua quase ex-esposa tem planos de ficar com um amigo seu. É dentro desse clima que se desenvolve a trama sem que nada surpreendente aconteça, nem que haja qualquer desfecho epifânico. Sinceramente, acho que o mais entusiasmado cinéfilo pode passar perfeitamente bem sem dedicar atenção a essa produção. Mas se os irmãos Coen fizerem outro filme, talvez eu confira novamente. Tipo como eu faço com os filmes 3D, e até agora não vi nada que merecesse o preço do ingresso.

terça-feira, maio 25

A Troca


Tenho uma certa resistência a filmes baseados em fatos reais. Primeiro porque a gente é forçado a pensar de que se trata de um documentário encenado, e muitas vezes não o é. Comum haver encenações que levam a história para além real. Segundo porque a inexistência de compromisso com as técnicas dramáticas, em nome da fidelidade aos fatos, pode transformar a diversão em uma maçante sessão de cinema.

Mas como fugir da tentação de assistir um filme protagonizado por Angelina Jolie e John Malkovich como coadjuvante? Complicado. Mas A Troca, mesmo baseado em fatos reais, não perde os elementos básicos que nos despertam o interesse na trama. Uma mãe solteira, Christine Walters tem o seu filho único, Walter, desaparecido. Após alguns meses, ela recebe outra criança. Percebe a diferença, mas a polícia, em busca de popularidade, tenta convence-la de que se trata do mesmo menino.

Inconformada, porque as diferenças são muito evidentes, inclusive o novo "filho" é cerca de 8 cm mais baixo, a protagonista passa a desafiar a polícia, em busca do seu verdadeiro filho. Tão afronta não é bem vista e o delegado, que já havia encerrado o caso, a leva sob custódia para interná-la em uma clínica psiquiátrica, com a total conivência do sistema médico da época.

Crhistine além de lutar para encontrar o seu verdadeiro filho, passa a ter de enfrentar toda uma estrutura que prefere lhe ter como louca a reconhecer os seus próprios erros. E só consegue o seu intento com o auxílio de um pastor, vivido por Malkovitch.

Este filme foi lançado no Brasil há um ano. Na época, não tive a oportunidade de assistir. A experiência também vale por se tratar de um filme de época, ambientado no final dos anos 20, com caracterização muito bem elaborada. O fato de ser baseado em história real não reduz o impacto dramático e nos confirma que um bom roteiro é sempre mais eficiente do que a fidelidade ao pé da letra ou dos fatos.

sábado, maio 22

Apenas o Fim


Há muito tempo (mais de um ano) procurava para download Apenas o Fim. Esse filme ganhou o prêmio do público do Festival do Rio de 2008 e menção honrosa do público. Duas vitórias absolutamente inúteis quando se trata de colocar uma produção local em circuito nacional. Não chegou nem perto de ser apresentado pelas bandas de cá do país, mesmo a gente tendo alguns points alternativos na cidade. E três vivas a Internet que mais uma vez me proporciona a possibilidade de compartilhar os bens culturais digitais. E deixar de ser um pouco menos tão periferia da humanidade.

Essa semana, finalmente, localizei uns links do filme. O primeiro, inútil. Depois de algumas horas descobri que o filme linkado era outro. Frustração. Mas a segunda tentativa foi ainda mais cruel. Um site meio mambembe disponibilizou numa velocidade de matar tartaruga de tédio. Entre 6 e 14 kbs. Ou seja, mais de 24 horas para por Apenas o Fim no HD, e ainda com a possibilidade de ser novamente ludibriado. Mas nem fui, com a graça de todos os santos protetores das conexões da net.

Geralmente grandes expectativas são as antecessoras de frustrações da mesma monta. Ou embotam tanto com os sentidos que não raras vezes o que vier é considerado o supra sumo da criação de Deus. Algo um show dos Back Street Boys. Ótimo para mentes mexidas pela a adrenalina da insensatez e falta de bom senso ad infinitum.

Não é o caso com Apenas o Fim. Toda a espera foi recompensada, com créditos. Um roteiro sem grandes pretensões mas que por causa disso mesmo mostra a genialidade do simples. Traz a história de uma menina que quer traçar o seu próprio rumo, mudar de vida, ser alguém que consiga se liberar do padrão socialmente posto a todos nós. Mas, para isso, tem de romper não só com o seu passado mas com um namoro. Do nada, precisa explicar ao seu namorado que já deu, que a sua necessidade de transformação precisa de fato acontecer, ou ela explodirá em plena luz do dia. Não literalmente, é claro.

Dá a ele o prazo de uma hora, que é quase a duração do filme, e oferece duas alternativas: ou transar pela última vez ou passar o tempo em seu último diálogo. A princípio, ele pede os dois, mas diante da situação que se apresenta, um desfecho de um relacionamento, fica com a segunda possibilidade. E na hora que se segue procuram ser o mais sincero um com o outro, ao mesmo tempo que absorvem com a calma necessária tudo o que o outro tem a lhe dizer. A vida a dois em revista, sobriamente.

Dificil não se identificar com algum ponto da trajetória, de não achar que já viveu alguma coisa semelhante ao longo de nossos próprios relacionamentos. O filme, em nenhum momento, resvala para o dramalhão ou na busca de arrancar lágrimas da platéia. É divertido, consequente. Um bom momento para a gente passar em revista nossos próprios sentimentos. E também aprender que determinadas decisões em nossas vidas devem ser tomadas enquanto a gente é novo. Enquanto há tempo para se recompor. Mais sobre o filme pode ser lido no site omelete. http://omelete.com.br/cinema/critica-apenas-o-fim/, que é citado em Apenas o Fim. Como é triste saber que obras como essa demandam tanto esforço e paciência de minha parte para que a gestalt seja fechada.

quarta-feira, maio 12

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus


Definitivamente, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus tem problemas. O filme conta a história de um homem, que alega ter mais de mil anos, dono de um circo mambembe procurando atrair escassos clientes pelas ruas de Londres. Ele oferece uma viagem ao inconsciente que existe dentro de cada um. Ao mesmo tempo, enfrenta o peso de uma dívida com o diabo. Terá de entregar, em poucos dias, a sua filha de 16 anos, o preço de ter recebido do capeta a mortalidade e a de conquista da mãe de sua filha.

Mas como o diabo não se furta a uma boa aposta, Parnassus e Coisa-Ruim resolvem disputar cinco almas. Se vencer, o protagonista não precisará mais entregar a sua filha, que sonha com um futuro bem diferente na vida que leva. Ela quer marido, casa, filhos e outras comodidades próprias do mundo moderno. Até aí a história tem um desenvolvimento interessante. alguma coisa entre o Sétimo Selo de Bergman e Fausto, de F.W. Morneau, baseado na obra de Goethe.

Mas a coisa começa a degringolar, na minha visão com a entrada do personagem vivido pelo precocemente falecido Heath Ledger. A princípio ele surge para auxiliar Parnassus contra o diabo, depois passa a ser vilão, ou não, e o filme vai perdendo o protagonismo para ficar a reboque do embaraço do roteiro. Não se consegue criar empatia com ninguém e o anaozinho que acompanha a troupe passa a ser um personagem bem mais interessante, apesar de ter como única função se apresentar como alter ego de Parnassus. As cenas mais dramáticas não comovem exatamente porque você não sabe de que lado está o protagonismo ou o antagonismo.

Mas nem tudo está perdido. a direçao do ex-monty Python Terry Gillian encontra um pouco de lucidez ao mostrar o imaginário de Parnassus, um homem que nunca completa as histórias que conta. Ao cruzar um falso espelho, os personagens encontram o que se passa dentro de si. Um mundo multicolorido além do 3D, graças a Deus, que nos dá o que ver e o que pensar. Esse filme, sem dúvida, está longe de ser imperdível, mas também não é total perda de tempo.

sexta-feira, maio 7

Alice no país das trevas


O mundo do cinema definitivamente não é mais o mesmo. Os filmes agora se transformam em sucesso não pela qualidade que levam às telas, mas pelo poder de mobilização a partir de suntuosas estratégias de marketing. De há muito que não são só as bilheterias o único componente do borderô das arrecadações cinematográficas. Antes mesmo do lançamento, se multiplicam as franquias e licenciamentos, tornando o show mais business do que arte. Não dá pra ser contra isso, é o rumo inexorável do sistema de produção e de consumo.

Essas novas velhas estratégias se notabilizaram ainda mais, creio eu, com as ultimas grande produções 3D de Avatar e Alice. Se o primeiro é uma velha estória recontada (ver o post sobre), o segundo é uma nova versão de uma velha história contada de forma precaríssima. E me assusto quando vejo críticos considerarem mediano um filme que é absolutamente medíocre.

O novo filme do Tim Burton nem deveria se chamar Alice no País das Maravilhas. Primeiro porque não é a mesma história do livro. Só isso enganou muita gente que entrou na sala de projeção, e saiu dela, pensando que teria assistido uma refilmagem. Não meus prezados, não foi isso que aconteceu. Vocês assistiram uma história original. Dá pra acreditar? É o roteiro original mais chupado que já vi.

Segundo, que país das maravilhas é esse? Deveria ser país das trevas. O mundo é sombrio, assustador, sem qualquer indicativo de que há algum vestígio, por menor que seja, de alguma coisa alegre. Todo o cenário é deprimente.

Terceiro, a questão dramática, Alice vai ou não salvar o país das maravilhas das garras da rainha vermelha (Não, ela não é mais a rainha de copas) é ridiculamente infantil. Nós já sabemos a resposta e a luta da protagonista com o monstro, no final não causa nenhuma emoção, até para o assistente de primeira viagem. O desfecho nos é praticamente apresentado no início do filme. A dúvida sobre se ela é ou não a Alice esperada também é no mínimo idiota. Claro que é, né bobão?

E, por fim, que casamento é aquele? Claro que ela não vai aceitar casar com um panaca. Ou alguém em algum momento pensou no contrário? Se alguém não se perturbou com tamanha previsibilidade, acho que o problema está em mim. Ou então, assistimos filmes diferentes. Mais uma coisa, esse 3D é uma tapeação.

A história poderia ser muito mais interessante. O noivo de Alice poderia ter caído dentro do buraco junto com ela, e não ser o panaca que se apresenta no ínicio, mas uma personalidade que iria se revelando dentro do país das maravilhas, que afinal, em última análise, seria o inconsciente de Alice. O chapeleiro maluco, coitado, tem mais cara de um viciado em crack do que um personagem que transcenderia o senso comum. E a história que a Alice é também uma maluca, como seu pai a nomeia no começo da trama, termina não surtindo o efeito que eu esperava.

Melhor sorte da próxima vez, Tim.

quarta-feira, maio 5

A vida íntima de Pippa Lee


O que aconteceu com a geração do sexo, drogas e rock and roll? Muitos morreram pelos excessos, mas a grande maioria está por aí por perto, levando uma vidinha absolutamente enquadrada dentro do sistema. Quer dizer, aparentemente enquadrada, porque, de perto ninguém é normal, como diria Caetano Veloso. É esta a abordagem da diretora Rebecca Miller, em seu filme A vida Íntima de Pippa Lee, que tem coadjuvantes de luxo como Keanu Reaves, Winona Rider, Monica Belluci e Juliana Moore.

Pippa, vivida por Robin Wright Penn é uma senhora de meia idade, casada com um bem sucedido homem já veterano na terceira idade, Herb Lee, interpretado por Alan Arkin, com saúde que inspira cuidados após ter sofrido três enfartes. Com o desenvolvimento da história, vamos descobrindo um passado fora do comum de Pippa. Sua relação conturbada com a mãe, viciada em anfetaminas, que a leva a sair de casa, e decobrir padrões fora do habitual, ao residir com a sua tia lésbica.

A protagonista leva uma vida meio hippie até encontrar com o seu marido, bem mais velho, casado e desgostoso com a vida que leva. Troca a esposa por Pippa, e com ela tem dois filhos. Os conflitos que Pippa tinha com a mãe se repetem com a filha, uma fotógrafa de guerra.

Os aparentes traços de normalidade estão camuflados em uma sonâmbula que assalta a geladeira na madrugada e fuma eventualmente. Resquícios de uma vida desregrada que teve na juventude. A direção de Rebecca é cuidadosa, e não emite juízos de valor sobre os mais variados comportamentos que desfilam ao longo do filme, Como o suicídio da esposa anterior de Herb, Gigi Lee, representada por Monica Belluci, que, apesar de trágico, não traz nenhum apelo ao dramático ou sentimental.

A reflexão que Pippa Lee nos traz é sobre o quanto nós (des)conhecemos as pessoas que estão a nossa volta. O que cada um é capaz de fazer, ou arriscar em busca de algum resquício de felicidade. A protagonista, ao final, parece que entendeu que é capaz de percorrer os mesmos caminhos de sua tresloucada mãe, mas ao mesmo tempo fazer correções de rota. Recomendo.