terça-feira, setembro 9
"Os indiferentes"
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.segunda-feira, setembro 8
Circo de horrores II - O retorno
sábado, setembro 6
Circo de horrores
Há um tempo assisti a um filme muito bom, chamava-se Johnny vai a guerra, único filme roteirizado e dirigido pelo escritor Dalton Trumbo. Conta a história de um soldado que durante a primeira guerra mundial foi atingido por uma explosão e ficou reduzido a apenas o torso, sem braços, pernas, cego, surdo e sem face. Foi mantido vivo apenas para estudo científico e era sempre dopado quando entra em convulsão, que na realidade era um esforço para ser entendido. Perto do final do filme o soldado Johnny consegue finalmente estabelecer contato com o mundo através de uma enfermeira que entendia código morse. Seu único pedido foi ser posto em um desses circos de horrores que eram muito comuns no final do século XIX e início do século XX. Ele queria ser exibido como uma resultante da estupidez da guerra, ao lado de anões, homens elefantes, mulheres barbadas, para que todos refletissem sobre o que a beligêrancia era capaz de fazer com a humanidade. É claro que os senhores militares rejeitaram a proposta. É mais ou menos como eu vejo essas para-olimpíadas. Um grande circo de horrores. Pessoas amputadas jogando voleibol em mini-quadras com redes coladas no chão, cegos se chutando em imaginárias partidas de futebol, aleijados levando quedas de suas cadeiras de rodas simulando partidas de basquete, e por aí vai. O espetáculo é ao meus olhos um quadro dantesco.
Sei que há os árduos defensores dessas atividades para-esportivas, que alegam ser este um meio de reintegração social, uma esperança de uma vida normal na para os deficientes. E até acho que possa ser. Mas na minha precária avaliação, não é assim que se resolve um problema tão delicado. Basta lembrar que uma olimpíada reúne apenas uns 15 mil atletas de alta performance quando a população mundial é de 6 bilhões. Ou seja, a grande maioria continua só na torcida.
Em vez de se criar essa falsa integração de aleijados, cegos, retardados mentais através de pseudos esportes, mais honesto seria integrá-los efetivamente ao meio social como qualquer cidadão comum. Dar a eles o direito de trabalhar, estudar, se deslocar em suas cidades, ingressar em locais públicos, enfim, ser um igual a todos nós, mesmo tendo de superar alguns desafios.
Enquanto se fala de um Brasil sendo uma potência para-olímpica, conquistando a 15ª posição no ranking de medalhas, posto bem mais acima do que os nossos atletas olímpicos, um cadeirante é incapaz de atravessar uma rua da maioria das cidades do Brasil simplesmente porque as calçadas não são rebaixadas. E quando são, há sempre um carro estacionado junto ao rebaixamento impedindo o acesso. Os deficientes auditivos só têm direito a duas horas de programação de televisão usando a tecla sap, e a literatura disponível em áudio ou braille é mínima. Em Fortaleza, cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes, há apenas uma escola para surdos-mudos e uma escola para cegos. Na maioria das praças esportivas, cinemas, teatros, bibliotecas não há sequer meios de acesso. Na própria Assembléia Legislativa, batizada pomposamente de casa do povo, o elevador dedicado aos deficientes fica constantemente desligado, e para acioná-lo é necessário descobrir aonde e com quem está a chave.
Enquanto a situação não muda no país, continuamos torcendo no circo de horrores, transmitido especialmente através das TVs por assinatura.
PS. Não sou politicamente correto e acho que esse politicamente correto tão defendido em verso e em prosa é uma farsa.
quinta-feira, setembro 4
De Caros Amigos
Desde o 11 de setembro, o governo Bush autorizou o seqüestro e a aplicação de torturas em suspeitos de terrorismo, transportados em vôos clandestinos da Europa à base naval de Guantánamo, em Cuba, onde são mantidos presos.
terça-feira, setembro 2

1º lugar em psicologia na Universidade Federal do Ceará
"Fiz inscrição em três vestibulares. Funcionou para diminuir o peso das provas"
