sábado, junho 21

Simone e Rodrigo Murrer...


...com o bebê Daniel, que na altura do campeonato já deve tá um garotão. A foto já seis meses que foi tirada. Amigos paulistas com quem convivi muito menos do que o que gostaria. Depois de fixarem residência por aqui, resolveram desbravar o Brasil-central e agora aproveitam a vida tranqüilia e mansa de Anápolis, bem longe das turbulências urbanóides que todos nós estamos submetidos.

Quem sabe um dia a gente volte a se encontrar com mais calma, com tempo para contemplar um pouco mais a perfeição da natureza.

sexta-feira, junho 20

Da península

Há um tempo peguei abuso da Marília Pêra. Era demais para a minha compreensão político-social uma atriz até então participante dos movimentos engajados se alinhar ao lado de Collor de Mello em uma campanha eleitoral, dizendo cobras e lagartos do então líder sindical Lula. Não que achasse (e até hoje não acho) que ele fosse a salvação do país, ou coisa que o valha, mas fazer coro ao lado de um embusteiro era (ainda é) demais para mim. E olhe que eu considerava o trabalho profissional dela no melhor nível.

Foi preciso eu ler um artigo do seu ex-marido, Nelson Motta, na Folha de São Paulo de hoje para eu ter de volta a dimensão humana de Marília. Como encanta ver um gesto de gratidão a quem nos deu a mão em um momento difícil. Reconheço que cada vez mais raras são atitudes de reconhecimento como essa. Mais comum é o dar de ombros, quando não o troco pontuado de ingratidões. Mas fiquemos com o texto de:

NELSON MOTTA

Melodrama lusitano

LISBOA - Vim pela primeira vez a Lisboa com remotos 19 anos, em 1963, mas já a conhecia com afetuosa intimidade, graças aos romances de Eça de Queiroz: a rua das Janelas Verdes, o Bairro Alto, o Rocio, o teatro D. Maria, a rua do Ouro, o Chiado, era como rever lugares queridos, apenas imaginados.

Nas ruas, em plena ditadura salazarista, homens e mulheres de roupas feias e escuras, melancólicos e cabisbaixos, passavam como sombras. Também tive a impressão, e não só por ser muito jovem, de que só havia velhos pelas ruas. Onde estaria a juventude daquela cidade? Sentia-se medo, derrota e resignação no ar.

Em 1975, voltei a Lisboa, pouco depois da Revolução dos Cravos. Encontrei a cidade eufórica com a nova liberdade, as outrora imaculadas paredes pichadas com slogans libertários, havia alegria em todos os rostos e, nas ruas, todos pareciam jovens e cheios de esperança.

Minha filha Esperança acabara de nascer no Brasil, no último e mais terrível ano do governo Médici. Assim que cheguei, liguei para o amigo e grande ator Nicolau Brayner para irmos aos copos celebrar a chegada da miúda. Ele me disse para encontrá-lo no teatro, mas não precisava ver a peça, "é muito chata", que chegasse no final e o esperasse no camarim.

Fui recebido por uma simpática velhinha, camareira de Nicolau havia muitos anos. Chamava-se Esperança, um nome muito comum em Portugal, mas raríssimo no Brasil. Contei-lhe que minha filha era sua xará porque, em 1963, sua mãe, então com 19 anos e um filho recém-nascido, fizera uma sofrida turnê teatral pelo interior de Portugal e uma bondosa camareira a ajudara a cuidar do bebê. Chamava-se dona Esperança e inspirara Marilia a dar seu nome à filha.
Era a própria. Nos abraçamos aos prantos.

terça-feira, junho 17


Amigos que chegam, amigos que continuam depois de muitos anos de convivência, depois de a vida nos ter afastado e, em uma nova maré, nos aproxima e nos faz colegas de turma de especialização. Um domingo que poderia ter sido perdido para o lazer se transforma numa bela ocasião para apreciarmos uma paella. Estava precisando mesmo retornar ao fogão, sob pena de perder o ponto.

Queria sempre ter amigos dentro de minha casa. Clara e Bruno, sejam sempre bem vindos.

A outra foto é só para registar o show do Otto. Gente boa, apesar de ser pernambucano. Vale muito ter essa página musical embalando os meus ouvidos. Nem que seja para deixar o ambiente com zumbido nas oiças. Haja decibéis na fila do gargarejo

domingo, junho 15

Jasão e o velo de ouro

A vida ensina. Muito mais do que as frases feitas e pensamentos filosóficos que possam ecoar em nosso entorno. Pessoas supostamente cheias de experiência de vida se pegam por detalhes. Real é que ninguém é 100 por cento confiável. Se quer evitar problemas para sua vida, não deixe as pessoas se aproximarem tanto. É bem verdade que muitas valham à pena, que muitas possam ser “close friends” verdadeiros. Mas não há como saber. Olhares simpáticos, palavras carinhosas, declarações de amizade eterna podem estar revestidas de interesses outros.

A vida nos faz de objetos descartáveis. Somos consumidos pelos que nos cercam. Enquanto há uma certa simbiose, a relação flui. Mas ao mudar de andar, ao mudar status quo, tudo que parecia imutável, passa por transformações. O mais interessante é que a pessoa quando lhe descarta por razões que todos sabemos quais são, mas que tenta de todas as maneiras disfarçar, um dedo simpático, de uma mão outrora amiga, é usado para apontar todas as incorreções que por ventura nós temos. Toda a nossa conduta de vida é posta em xeque, a nossa moral é duvidosa, e as nossas práticas altamente inconvenientes, quando não nefastas e deploráveis. Nós somos postos como um entrave aos dias melhores que são buscados com todo o denodo, toda a galhardia, toda firmeza de propósito.

Enquanto o cenário nebuloso é desenhado, ainda há a perspicácia de nos usar como trampolim para se conquistar novos apreços. Afinal de contas, as palavras da salvação devem ser entendidas com toda a beatice possível e imaginável. Se há alguém que minimamente questione os arautos e as trombetas que se propõem a abrir as portas do céu, esse alguém não merece ouvidos ou credibilidade. Os passos são dados na direção daquele que oferece mais como um leilão de oportunidades. Uma licitação reversa. Quem detém mais poder, logicamente tem os domínios mais amplos. Ledo engano que pensa que está se purificando afastando de si os seus semelhantes. Vã ilusão ficar pensando que o demônio não mais habita em si, que só bons sentimentos fluem em seu coração.

Mas, como diria determinado estudioso, se queres viver muito, do bom, pouco. Amizade é bom? Então use com moderação. Amor é bom, cuidado para não se machucar amando muito. E como diria um otimista ao cair do 20º andar, ao passar do 10º andar: “até aqui tudo bem”. Se alguém estiver esperando me ver espatifado lá embaixo, aviso que sei voar. Na falta de ter o que fazer em relação aos que fogem, só aperto um certo botão que tem como a primeira inicial a letra V.

sábado, junho 14

#100


Depois de dois filmes que ficam entre o frustrante e o entediante – Homem de Ferro e o novo Indiana Jones – assisti nesta quarta-feira o Sonho de Cassandra, do Woody Allen, terceiro dele rodado em terras saxônicas. Este não é o que se pode chamar de imperdível, mas vale. O filme é contagiado por uma atmosfera tensa, bem ao estilo do autor, e prende a atenção da gente até o fim. Conta a história de dois irmãos que possuem ambições muito além de suas possibilidades circunstanciais e se embrenham em um labirinto perigoso que tem final inesperado. Na próxima semana, quero assistir Antes que o Diabo Saiba que Você Morreu. Se alguém quiser ir junto, sinta-se convidado.

Interessante como a matrix continua de vento em popa, apesar de todos os avisos, de todas as reflexões que já se fez em cima do Mito da Caverna de Platão. Tudo muda para continuar do mesmo jeito. Pequenas concessões são feitas, e sem tem um ar aparentemente respirável, no que diz respeito aos anseios de liberdade de uma sociedade.

Teoricamente se vive em uma sociedade com liberdade de expressão. Porém pouca gente sabe que o exercício dessa liberdade necessita de um bom acúmulo de capital. E quem tem o dom de explorar a mais valia vai reproduzir apenas as idéias que lhe interessam, of course my dear. Trazendo para o populacho, os movimentos sociais ficam cada vez mais esquecidos, só entrando na pauta ou na ordem do dia, quando se quer atingir alguém que se pretende inatingível.

Sem Terra, Sem Teto, professores despreparados e mal remunerados, sistemas de saúde beirando o caos, a dengue invadindo os lares, trânsito travado em toda a cidade. Educação de faz de conta, deixando toda uma juventude às cegas após anos a fio em bancos escolares. Violência combatida com hilux. Mesmo veículo que transportava dois sargentos da CPRV para extorquir motoristas incautos em plena Washington Soares.

Na disso muda. Em outubro teremos uma eleição de chapa única. Luizianne Lins é imbatível. Não pelo que ela fez (nada) ou deixou de fazer. Mas pela mediocridade reinante na cidade, nos partidos, nas pessoas, nos líderes e liderados.

sexta-feira, abril 11

Muito além do jardim


Clamor público. Comoção Social. Essas duas frases são repetidas a exaustão para justificar o funcionamento do aparelho estatal na busca pela elucidação de um crime. Clamor público e comoção social provocados, como sempre, pela mídia que espera vender para a audiência, leitores e ouvintes a história do assassinato misterioso da menina Isabella, em um longínquo São Paulo.

Clamor Público turbinado pela imprensa que espetaculariza um ato brutal. Mas que comoção social é essa que acelera o processo investigativo, que prende com a velocidade de um raio, e que praticamente condena os principais suspeitos? Na democracia, tudo vale para saciar a opinião pública. Rende votos demonstrar que a máquina policial está atenta a tudo e a todos. Que o braço da lei vai inexoravelmente colocar culpados a cumprir penas. Democracia quer dizer praticar atitudes capazes de render votos. Ser justo, preciso e responsável são só uma coincidência.

Estatísticas da própria polícia. Somente 10 por cento das investigações sobre crimes de morte chegam a apontar um culpado no final do inquérito. De todos os processados, apenas 10 por cento são condenados. Ou seja, de cada 100 assassinatos, somente um assassino vai para a cadeia. Isso se a sentença for verdadeiramente justa. Sem nenhuma comoção social, sem nenhum clamor público.

quarta-feira, abril 2

Se cantar que um "tapinha não dói" é passível de uma condenação judicial, conforme está dito no post anterior, o que dizer então da defesa incondicional da liberação de drogas consideradas ilícitas?

Extraí o texto abaixo da revista Carta Capital. Não concordo com tudo, mas me fez refletir um pouco sobre esta desorganização generalizada, crônica e sem-limites do estado brasileiro, a partir da ditadura do poder judiciário.


"Meu nome não é Johnny
aposta num anti-Capitão Nascimento, um anti-herói hedonista e sedutor, “no stress”, que cheira para se divertir, para amar, sem deixar de ser afetuoso, família, amigo, amante. A figura não-clichê de João Estrela sugere que o pressuposto de “um mundo sem drogas” é no mínimo hipócrita, e não leva em consideração a cultura e o desejo humano e um componente importante no cenário contemporânea, o risco assumido e livre. Como a gordura trans e o álcool, qualquer droga seria um “direito” do consumidor contemporâneo. Por que não?

É sabido que o consumo de drogas não fere nem ameaça a rede social, é uma decisão, um risco individual. O consumo de drogas não seria menos epidêmico e arriscado que o consumo de gorduras, aditivos cancerígenos, miríades de estimulantes, calmantes, excitantes e no máximo poderia ser um caso de saúde pública, não um caso de polícia se não houvesse a ilegalidade na produção e consumo.

É a ilegalidade e o proibicionismo que levam a criação de sistemas violentos para assegurar a produção e comércio das drogas. Grupos armados e para-militares para assegurar a produção e venda e defender o negócio da polícia e de outros concorrentes, acertos de contas internos, zonas de controle de territórios pela violência armada, corrupção, subornos, assassinatos para assegurar a lavagem de dinheiro, cultura da delação e da traição, delação premiada, produzindo ódio, desconfiança e vingança generalizados.
Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Essa hipótese não existe para o personagem, nem para o filme, dramaturgicamente. Em Meu Nome não é Johnny a questão aparece de forma mais interessante e complexa, mas não faz parte do mundo mental ou social dos personagens.

As hipóteses e explicações nos filmes patinam em clichês já sabidos (mas não custa repetir, Meu Nome não é Johnny é muito mais sofisticado e sutil).

Afinal, por quê não circulam outros discursos sobre as drogas, como os da juíza de direito Maria Lúcia Karam ou do advogado carioca André Barros, que defendem e militam pela descriminalização, a medicalização e a legalização das drogas, com avanços gradativos?

O usuário podendo fazer uso de consumo individual, freqüentar salas de consumo, ter acompanhamento médico e controle da qualidade do produto, até chegarmos a legalização e controle do comércio de drogas, seja por empresas privadas ou pelo estado.

Legalizar, defende a juíza, é quebrar o ciclo da violência das armas, da corrupção (da policia, de políticos, de empresários), da guetificação da violência e da repressão policial infringida às favelas e aos pobres, do uso e extermínio da mão de obra infantil e de jovens, da degradação da saúde, através do uso seguro, é romper um ciclo vicioso de violência já instalado.

Legalizar é acabar com a hipocrisia e combater a violência extrema e o regime de exceção e arbitrariedade legitimados pelo Estado, pela polícia, pela sociedade-anti-pobres e pelo tráfico, sócios na produção da atual barbárie.

Nem corrupção, nem omissão, nem guerra. A questão é de guerrilha, é não ficar refém do Capitão Nascimento, é minar os clichês e discursos conservadores. Chega de vingança regressiva, chamem a juíza Karam!"

Ivana Bentes