Émile Zola
Não sei muito bem como funciona a cabeça das pessoas, mal sei como é a minha. Mas vejo que é uma constante as pessoas tratarem o mundo com dicotomias. O certo ou o errado, a fome e a liberdade ou o enquadramento e o banquete farto, o direito ou o errado, o direito ou a injustiça, o legal ou o ilegal. É comum as pessoas se perderem em meio a este labirinto de percepções. Mais fácil funcionar como um sistema binário do que se abrir a tantas outras possibilidades. Se há o branco e o preto, temos também a decomposição das cores através de um arco-íris.
Uma dessas dicotomias, ou falsa dicotomia, como entendo, é entre estar certo e ser feliz. Como se para se chegar a um estado de harmonia com as outras pessoas precisássemos abrir mão de nossos princípios, ou se fechar aos olhos com o que não concordamos somente para se manter em sintonia com o meio.
Aí fico pensando o que seria da humanidade se todos pensassem dessa forma. Muito provavelmente estaríamos todos vivendo sob a mais severa tirania, e que nem avestruzes com o pescoço enfiado até o talo debaixo da terra. Não acredito que exista felicidade na injustiça, no erro, na incondicional cegueira aos próprios princípios.
Estou lendo atualmente um livro sobre caso Drayfuss, Um oficial francês judeu que foi condenado injustamente por traição. A pena foi a prisão no exílio na Ilha do Diabo. Uma parte da França de levantou contra esta ignomínia. Entre os líderes do movimento em favor do oficial esteve Émile Zola, que na época já era um renomado escritor, um dos principais expoentes da literatura naturalista, que poderia continuar sendo feliz com a fortuna e o reconhecimento que acumulou ao longo de sua existência. Mas não há felicidade na indiferença.
Ao contrário, o autor de Germinal escreveu o artigo J’Accuse expondo todas as fraudes praticadas no processo de Alfred Dreyfuss. Por conta disso, foi julgado e condenado à prisão, mas a sua luta prosperou e a verdade prevaleceu. E aí? É melhor estar certo ou ser feliz? Guardemos na memória os que lutaram todas as batalhas contra as injustiças , o desamor, os preconceitos e as iniqüidades.